Expulso?
Expulso?
Eu… eu não podia ser expulso! Aquela era uma chance única da minha vida! Se eu fosse expulso da Chikara no Kyoten, minha única opção era voltar para Torugal do Sul! Nenhum colégio me aceitaria no meio do ano letivo e teria que esperar o ano que vem. Meus pais não iriam me sustentar enquanto coçava a bunda aguardando o ano seguinte!
Não! Não, não, não, não, não, não, não…
Isso é injusto! Por quê? Misaho foi a responsável por tudo! De certo, todos nós usamos nossos poderes, mas ela que destruiu a propriedade escolar! Não seria possível de provar isso, correto? Não, não seria, claro que não seria. Não haviam câmeras ao redor e o único que presenciou algo de tudo aquilo foi nosso professor, que ainda pegou no fim.
Não tinha mais porque manter a calma. O simples pensamento na possibilidade de ser expulso me fazia suar frio. Botei as mãos na cabeça, achando que isso me ajudaria a pensar, mas… pensar em quê? Não tinha no que pensar naquele momento.
-Novato!
Não mudei a expressão ao olhar para a minha direita. Akemi parecia preocupada, só que bem diferente do normal. Geralmente sua preocupação é às escondidas e tentando esconder as emoções, ainda mais se envolvesse outras pessoas ao redor. Ela não parecia estar dando a mínima para isso agora.
-Se recomponha! Não tem nada decidido ainda.
Permaneci olhando para a sua direção por um tempo e paralisado. Ela esperou calmamente pelo meu suspiro e que respondesse.
-Q-Quais são as chances? – tirei as mãos da cabeça e agora usava elas para me auxiliar no diálogo. – Digo, quebramos duas regras da escola.
-Eu quebrava regras direto aqui e nunca fui expulsa. – sua entonação era mais nítida que o normal. – Claro, nunca chegou a tanto antes.
-Mas… mas Akemi, você mesma concordou que estão nas regras, não é?
Incrivelmente, Himari parecia bem mais calma do que eu. Bem, talvez ela não tivesse um país distante para voltar.
–Argh, vocês são certinhos demais.
Akemi usava os dedos indicador e o dedão da sua mão direita para massagear a região entre o nariz e sua testa.
-Escutem, tem uma razão do porquê falamos com o diretor. – continuou. – Se tudo que ele fizesse fosse seguir as regras de forma literal, isso não seria necessário, não acham?
Bom, era um pensamento simples, mas fazia sentido.
-Além do mais, o diretor é razoável. – finalizava. – Experiência própria. Eu mesmo peguei apenas oito dias de suspensão depois do que fiz com…
Se interrompeu no mesmo instante, ficando boquiaberta e com os olhos esbugalhados na minha direção. Alguns segundos depois desviou o olhar e voltou a encostar as costas na sua cadeira, como se tentasse ficar encolhida nela.
Vergonha?
-Esquece. – praticamente murmurou.
-Bem… o quanto você acha que ganharemos nisso aqui?
Admito que a pergunta de Himari era relevante e tinha o mesmo interesse de saber, então apenas olhei para Akemi esperando sua resposta.
-Uns… quinze dias, talvez?
Respondeu sem olhar para a nossa direção, visivelmente chateada por acreditar na própria sugestão. Consigo entender seus pensamentos facilmente, afinal, quinze dias são três semanas, o que significa que voltaríamos as aulas apenas no início das primeiras avaliações. Sem saber do assunto, a maior chance era de uma bomba logo de cara.
Eu e Himari não falamos mais nada. Ao mesmo tempo que era um alívio saber que a expulsão era improvável, isso não significaria que acabaria tão bem assim. Misaho seria, provavelmente, também punida e admito que me deixava até mesmo um pouco… feliz. Se havia alguém que merecia mais do que a gente tal punição, esse alguém seria ela.
Que seja um sentimento egoísta, ainda não faço questão alguma de controlá-lo.
Ainda olhava para baixo quando um barulho de porta fechando me chamou a atenção, vinha da recepção do diretor. Não teria a menor ideia do que seria se a porta da sala de espera não tivesse um vidro no meio.
Reconheci aquela pessoa sem nenhum problema. Diabos, qualquer um a reconheceria de longe pelas suas características chamativas.
Era Nara.
O que ela fazia aqui? Duvido muito que seria por uma situação parecida com a nossa. Tomando emprestada a palavra que Akemi mesma tinha usado momentos atrás, Nara era certinha demais para isso. Do mesmo jeito, acho que eu e Himari poderíamos ser considerados em tal situação, eu diria.
De qualquer forma, tinha a impressão que ela não veio para sofrer uma punição. Parecia levemente preocupada e conversava com a secretária do diretor. A porta fazia bem o trabalho de abafar o som e não tinha a menor ideia do que falavam.
Em um certo momento, ela olhou para a nossa direção com o mesmo semblante. Logo o mudou para um sorriso e acenou. Acabei levando um tempo bem maior do que deveria para responder e o meu sorriso não era, nem de perto, tão reconfortante como o dela. Não sei dizer se Akemi tinha respondido o aceno, mas Himari o fez; o que até me surpreendeu, mesmo que tivesse sido apenas por educação.
Fazia, pelo menos, umas duas semanas que não falava com Nara; claro, ainda a cumprimentava sempre que a via, porém não passava disso. Nossa relação praticamente desapareceu depois que comecei a andar com o resto da classe e já estava bastante abalada depois da nossa conversa.
Por sinal, havia uma coisa relevante que ela havia me dito e veio na minha cabeça naquele instante.
***
-Misaho que lhe disse onde eu malhava, não é?
Quase cuspi o chocolate quente que ela havia me oferecido. Qual é o problema com yukoponeses sendo tão súbitos assim?
Nara ainda enxugava seu longo cabelo com a mesma toalha que havia enxugado seu corpo. Dava para identificar tal coisa pelo peso de tal toalha e o quanto estava molhada. Era bem provável que sequer tivesse parado para pentear seus cabelos para não me deixar esperando.
-Er… n-não.
Parabéns, Pedro. Na lista de “respostas mais convincentes” que poderia dar, aquela estaria na zona de rebaixamento, com certeza. Ela apenas parou de se enxugar e me fitou, brevemente, antes de responder.
-Não precisa ficar nervoso com isso. É bem óbvio.
-Como… óbvio?
Apesar de não ter gaguejado, ainda acabei dando uma pausa entre as palavras.
-Muita gente sabe onde eu moro, se duvidar, até mesmo Akemi. – enxugou seu ouvido esquerdo naquele instante. – Mas Misaho é a única que sabe onde faço meus exercícios.
-Oh.
A interjeição que fiz representou bem minha reação.
-E… como ela sabe? – perguntei, ainda meio hesitante. – Digo, vocês não parecem ser exatamente amigas.
-E não somos, mas somos vizinhas.
Hã?
-Vizinhas? – intriguei. – Então a Misaho mora no apartamento ao lado?
-Não tão perto, mas moramos no mesmo prédio.
E então arremessou sua toalha para uma das cadeiras que faziam parte do conjunto da mesa de jantar. Acertou tão em cheio que parecia que a tinha colocado manualmente. Acabei sorrindo, mas nada comentei sobre.
Ela sentou, logo em seguida, na poltrona do outro lado. Praticamente se jogou nela e de olhos fechados, como uma pessoa faria de cansaço após um longo dia de trabalho. Após se ajeitar e colocando seus braços deitados nos apoios, me fitou com seus olhos laranja escuros e… intimidantes. Nunca havia pensado nisso, mas ela tem mesmo olhos intimidadores. Será que ela usa os seus sorrisos já sabendo disso? Tipo uma forma de neutralizar tal efeito?
Como se tivesse lido minha mente, sorriu para mim mais uma vez.
-Eu acertei, não acertei?
Respondi o sorriso e fechei brevemente os olhos.
-É, acertou. – admiti a “derrota”. – Foi ela.
Desviou seu olhar e deu um leve suspiro antes de responder.
-Qual é o seu plano afinal, Misaho?
-Plano?
Nara voltou a olhar para mim depois que percebeu a confusão na minha pergunta.
-É bem provável que você não acredite em mim, ainda mais depois de ter criado uma amizade com Akemi.
Não sei dizer se ela parecia decepcionada, pois não demonstrou no seu tom. Bem, já tinha demonstrado com ações, convenhamos.
-Mas Misaho é bem pior do que ela. – continuava. – Ao menos Akemi não esconde suas verdadeiras intenções, enquanto Misaho é uma completa duas-caras.
-O quê?
Acabei rindo com aquelas informações. Me controlei para não parecer ofensivo, mas ela já tinha percebido.
-Você está brincando, não está?
Ela me olhava séria, aumentando exponencialmente o efeito intimidador dos seus olhos.
-Pareço estar brincando?
Bem… não, não parecia, mas era difícil de acreditar, não é? Digo, ela falou tanto de Akemi que demonstrou ser uma pessoa completamente diferente naqueles dias. De certo, convivi com ela apenas por dois dias, mas também não tinha aquela enorme convivência com Nara. Elas estavam praticamente empatadas no quesito de serem “acreditáveis”, com a diferença que a baixinha não costumava falar mal dos seus colegas de classe, incluindo a “rainha do fogo” na minha frente.
Comecei a pensar em algo que temia bastante; que Nara era odiada pelos seus colegas por razões… bem, não tinha outra palavra para isso: estúpidas. Ela mesma tinha dito que “seus santos não batiam” com o de Akemi e, se era isso, até mesmo poderia ter inventado a história que ouvi no primeiro dia.
Eu sei, ok? É um pensamento terrível de se ter, ainda mais em relação a uma pessoa que você respeita tanto, porém… qual seria a outra razão? Agora ela falava mal da Misaho também. Vai ter uma fanfic pronta para ela, como teve com Akemi?
Não… já estou julgando demais. Eu vim aqui com a intenção de conversar com ela e “conversar” inclui ouvi-la. Não vou simplesmente tirar conclusões precipitadas.
-Não, não parece. – respondi de forma neutra. – Mas você disse algo parecido sobre Akemi e esta se revelou bem diferente do esperado.
-Akemi é diferente.
Respondeu rapidamente, entretanto pausou logo depois, como se estivesse pensando no que dizer.
-Como eu disse: Akemi se revela desde o início quem ela é. Não sei o que fez vocês virarem amiguinhos depois, mas posso dizer que suas ações foram verdadeiras. Não dá pra dizer o mesmo de Misaho.
Por mais que tentasse esconder seus reais sentimentos pelo assunto, a entonação no “amiguinhos” foi o suficiente para entender sua real opinião sobre um certo evento. Se ainda havia uma dúvida quanto a ela não ter gostado daquilo, bem… não havia mais.
Ainda assim busquei continuar com a neutralidade.
-E por que não dá para dizer o mesmo de Misaho?
Nara olhou atentamente para mim, como se tentasse me analisar.
-Misaho foi a que me resgatou de Akemi.
Hã?
-Como assim? – me mostrei intrigado. – Pensei que você tinha ido para o hospital.
-E fui. No dia seguinte, ela veio falar comigo. Éramos da mesma sala também e ela se apresentou. Lembro de suas palavras até hoje.
Olhou para a mesinha de vidro em nossa frente ao mesmo tempo que se curvou de sua poltrona. Esperei que continuasse.
-“Olá, você é a Nara, não é? Prazer, eu sou a Misaho!”. Não, não tinha nada de especial nas palavras em si. O que me assusta até hoje é o quanto ela fingia tão bem.
Ela olhava para mim agora e diretamente nos olhos.
-Não fui eu que tentei fazer amizade. Ela que fez. Himari já estava na mesma classe e, pelo que vi, são amigas até hoje. Obviamente ela passou a ser minha amiga também.
-Sim, são. – confirmei, mesmo sem saber se é o que ela queria saber.
-Não tenho nada contra ela. É apenas uma das manipuladas pela Misaho, mas continuando…
E pigarreou.
-Por um momento eu estava feliz, Pedro. As pessoas sempre tiveram medo de mim quando descobriam sobre minha condição.
-Você diz o hiperimperium?
Ela sorriu.
-Sim. Pelo visto todo aquele papo da sorveteria não era mentira, não é?
Apenas assenti. Não queria interrompê-la e parece ter entendido o recado.
-O quanto você sabe sobre o hiperimperium? – me perguntou.
-Ele permite que sua afinidade cresça naturalmente e, teoricamente, não tem limites.
-Não está errado, mas diria ser uma forma otimista de ver as coisas.
Ajeitou seu cabelo para que a parte dele que descia do ombro ficasse na sua frente. Notei o quanto ele era ainda mais denso do que parecia e os detalhes em vermelho misturados por todo aquele laranja externo.
-O hiperimperium não pode ser detectado por nenhuma espécie de exame clínico, então não tem como você saber que a criança tem a condição, até que ela mostre. É por isso que são feitos exames de afinidades em todos os bebês nascidos para fazer a mesma comparação quando ele chegar a cinco anos. Se a afinidade subir em mais de três décimos, é considerado que tenha hiperimperium, mas isso não deve ser nenhuma novidade pra você.
-Não. – admiti. – Já tinha lido sobre o assunto.
-Nunca se perguntou por que esses exames são feitos em absolutamente toda criança? Faz realmente diferença que ela tenha um crescimento a mais do que o normal? E, ainda mais, verificar algo que só pode nascer com uma a cada dez milhões de pessoas?
Não deixavam de ser perguntas pertinentes, mas não a interrompi.
-A razão disso é que crianças não tem controle sobre seus poderes. Isso não é nenhum problema quando já se sabe a afinidade e então os pais têm uma total instrução de como criarem seus filhos e como reagirem para quando tal criança apresentar suas habilidades. Não acontece o mesmo com hiperimperium. Crianças com ela podem alcançar extremos sem nenhum controle; extremos que crianças normais não alcançariam.
Deu uma leve respirada antes de continuar.
-É algo completamente do subconsciente, tanto que é difícil descontrolar de tais poderes a partir dos doze anos. Sequer me lembro a última vez que demonstrei algo do tipo.
-Quanto é o nível de “descontrole” que você diz?
Seu olhar não estava completamente desviado, mas poderia garantir que me observava agora.
-Já ouviu falar em um garoto chamado Chang Luo de Shil?
Não me era estranho, porém não conseguia identificar apenas pelo nome.
-Não. – preferi dizer.
-Em 596, uma criança praticamente explodiu sua casa e arredores com seu poder. Sobreviventes disseram que o efeito era bem parecido com uma panela de pressão explodindo. O acidente causou mais de trinta e cinco mortes e quase duzentos feridos. Sim, foi poder o suficiente para destruir praticamente uma vizinhança inteira.
Espera… eu soube daquilo sim.
-É aquele garoto que foi condenado a viver em uma instituição especial que bloqueava suas afinidades pelo resto da vida?
-Sim, esse mesmo. Ele tinha dois anos quando isso aconteceu.
O que significava que ele estava fazendo dezoito agora. Apenas um pouco mais velho do que eu e Nara.
-Chang nasceu com apenas 4,1 de afinidade em ar e parecia uma criança como qualquer outra. Quando foi examinado de novo, depois do incidente, estava com 4,3. Não tinha subido muito e ainda assim ele conseguiu demonstrar um poder de destruição que só alguém com uma afinidade acima de 8,5 demonstraria. Isso desconsiderando que destruiria seu vigor em um ponto que dormiria por dias consecutivos se, claro, sobrevivesse.
Naquele momento eu notei que a entonação de Nara estava bem diferente do que quando tinha começado a contar a história. Transparecia suas palavras de forma clara e limpa, além de tentar demonstrar a seriedade em si.
-Pedro, ele foi encontrado no centro da explosão e sem nenhum arranhão. Praticamente chorava sem parar, perguntando para onde seus pais foram e o que tinha acontecido. Ele não se lembrava de nada. Sequer sabia que seus pais tinham virado poeira… se é que ainda havia poeira sobrando deles.
Parou e apenas me observou por um breve tempo com o mesmo semblante sério.
-Esse é o nível de “descontrole” de alguém com hiperimperium. Não foi o primeiro caso de acidente registrado, mas foi o maior deles. Ninguém faz ideia com o que uma criança com a condição pode demonstrar, então os pais costumam viver em total tensão até que ela complete, ao menos, doze anos. Claro, quanto mais velha, menores são as chances de acontecer.
-Você… você passou por isso também?
Ela apenas fechou os olhos e deu uma longa suspirada após se encostar novamente na sua poltrona.
-Minha mãe tem alta afinidade em fogo, – prosseguia. – então nunca foi um problema me controlar. Não há nenhum acidente que tenha sido grande e que me lembre, também. O maior problema mesmo é quando fui diagnosticada com ela. Não sei o resto do mundo, mas em Yukopan existe uma lei que força a escola avisar para pais e alunos quando um deles tem hiperimperium.
Oh.
Oh.
No início achei que tinha desviado completamente do assunto e me culpava pela minha curiosidade ter sido maior do que sua vontade de contar a história. Estava errado. Voltamos para o ponto inicial como se Nara previsse perfeitamente que isso fosse acontecer.
Se duvidar, ela previu mesmo. Pensamento “estrategista”, afinal.
-Você entrou no Chikara no Kyoten com doze, certo? – perguntei.
-Isso, mas não faz diferença. O aviso precisa ser dado do mesmo jeito, sem importar a idade. Ele permanece ativo até que você se forme no colegial.
Espera… não tinha nada disso em lugar nenhum.
-Não lembro de nada disso quando entrei na escola. – afirmei meu pensamento em voz alta.
-O aviso precisa ser dado, mas ninguém lê as letras pequenas do contrato.
Então estava lá? Admito que assinei logo quando vi que era algo padrão. Se dissesse em algum lugar algo como “sua alma agora pertence a nós” no mesmo estilo, acabaria vendendo minha alma sem nem saber. Diabos, precisava mesmo ler tal tipo de coisa, mesmo que usasse um telescópio.
-Não se preocupe.
Nara dizia aquilo quando eu ainda pensava no assunto e olhei em sua direção. Tinha “evoluído” sua expressão para algo mais neutro.
-Ninguém sabia quando entrei também. A lei diz que deve ser avisado, mas não limita a formas de como deve ser. Antes de fazer parte do contrato, estava em uma daquelas mensagens pequenas do quadro de avisos. Ninguém lê aquilo direito.
Acabei sorrindo, mesmo que o momento não fosse apropriado para tal coisa. Ela tinha um bom ponto.
–Chikara no Kyoten foi a primeira escola que fez esse tipo de coisa, porém. – continuou. – Da alfabetização até a quinta série passei por colégios diferentes nos seis anos e os avisos eram absurdos. Em quatro deles tive minha condição apresentada aos meus colegas logo no primeiro dia de aula, enquanto nos outros dois foram cartas oficiais enviadas pelo colégio em si para os pais dos alunos. Isso incluía qualquer pai ou mãe de aluno, não apenas os da minha série.
Não era necessário ser muito inteligente para saber onde aquilo ia chegar, não é? Não tinha mais sorriso nenhum no meu rosto em tal instante.
-Pedro, eu nunca tive amigos porque todos morriam de medo de mim. Ser uma condição raríssima só piorava a situação. Ninguém entendia como funcionava e nem queria entender. Tentar explicar não passava de uma batalha perdida.
Seu rosto trazia uma expressão de conformidade e tristeza ao mesmo tempo e não sabia dizer qual deles era o pior. Levou um certo tempo para continuar e esperei pacientemente.
-Com o passar do tempo, me acostumei. Apenas me focava nos estudos e tratava a escola como uma tarefa diária necessária. A única parte boa de terem medo de mim era que também não mexiam comigo. Tudo mudou na Chikara.
Voltava a olhar para mim com, provavelmente, a fisionomia mais séria até então.
-Houve o… bem, incidente com Akemi logo no primeiro dia e com Misaho se apresentando no segundo. Achei que tudo isso tinha acontecido porque elas não sabiam que eu tinha hiperimperium.
-Elas… sabiam?
Não era minha intenção interromper e fiz a pergunta após um tempo considerável de sua pausa. Soltou um suspiro breve antes de responder.
-Sim, sabiam. Akemi disse sobre isso alguns dias depois e Misaho… bem, Misaho fingiu não saber até aquele fatídico dia.
Pode parecer um detalhe besta, porém ver Nara falando “fatídico” e ainda mais em toruguês, mostrava que tinha uma fluência na língua, de fato. Não é como se eu duvidasse daquilo mais, mas não deixava de ser algo que mereça destaque.
Ela continuou, sem saber de tal pensamento sem relevância que tive.
-Coisa de dois meses depois, em um momento que eu já não duvidava de sua amizade e nem tinha mais receio de achar algo estranho, ela me pediu para encontrá-la em um lugar isolado do colégio depois das aulas.
Não conseguia mais ver seu semblante. Olhava diretamente para baixo e até parte do seu cabelo bloqueava a minha visão do seu rosto. Ao mesmo tempo, não era uma suposição difícil.
Sua voz permanecia sendo a única da sala naquele momento. Eu apenas a escutava em silêncio.
-Quando a encontrei, ela estava com Himari, que parecia estar mais afastada que o normal. Misaho parecia tranquila como sempre e disse para mim, sem mudar o tom: “Nara, a razão de eu lhe chamar aqui é para ver o quão forte você é”.
E mais uma pausa, mas breve.
-“Ouvi dizer que você tem hiperimperium. Me mostre o que sabe fazer”. Ela falava aquilo com toda a naturalidade do mundo e é claro que não entendi. Não entendi porque ela tentou ser minha amiga, mesmo sabendo daquilo. Não entendi porque fazia tal pedido e não entendi porque, mesmo sabendo daquilo, não tinha medo de mim.
Seus pupilos laranjas me olhavam mais uma vez. Sua expressão não tinha mudado.
-Não tive tempo para não entender. Ela apenas me atacou, sem nenhum aviso. Por mais forte que eu fosse, a desvantagem inicial foi mais do que o suficiente para que ela me humilhasse em pouco tempo.
Não desviou seu olhar em mais uma das pausas.
-E não ficou só nisso. – continuava a olhar diretamente para meus olhos. – Sua atitude mudou. Por dois meses, dois malditos meses, ela me tratou com a maior educação do mundo, tão bem que até mesmo perdi a preocupação sobre a minha condição, a ansiedade em saber se aquilo estava acontecendo ou não, a angústia de passar mais um ano naquela tortura escolar. Ela tirou tudo isso de mim e, no pior momento possível, me devolvia, usando palavras que não davam a mínima se me machucariam ou não. Isso incluindo a machucada física, também.
Não escondi meu espanto. De certo, ainda não sabia como Misaho era por apenas dois dias de convivência, mas sua atitude até aquele momento não era nada mais do que flores. Ela até mesmo mudou o assunto do nosso encontro em grupo de hoje para que eu não ficasse desconfortável.
Era tudo fingimento? Falso? A doce Misaho era, na verdade, um “monstro”?
Nara não falava mais. Seu olhar estava para baixo mais uma vez e eu ainda processava o que tinha me dito. Não havia justificativa alguma para aquela atitude de Misaho, isso considerando, é claro, que tinha acontecido.
Por mais que eu me sentisse mal por ela, era difícil de acreditar. Não é que eu achasse que Nara estava mentindo, mas também não achava que estivesse falando a verdade, também. Eu sei, não faz sentido algum, porém era exatamente o funcionamento da minha “lógica emocional” naquele momento.
Alguns instantes se passaram em que nós dois não dissemos nada. Diferente de outras vezes, não me sentia desconfortável. Sei que ela precisava de um tempo de silêncio para trazer aquelas memórias e, mesmo que ainda tivesse dificuldades em acreditar, o mínimo que poderia fazer era respeitar.
-Aquilo foi o estopim, Pedro.
Nara praticamente murmurou aquela frase após o que parecia ser quase um minuto de total silêncio. Ouvi o aquecedor ligar mais uma vez e ela continuou, logo em seguida, como se a sincronização fosse intencional.
-Eu me senti traída. Akemi ainda mexia comigo as vezes, mas sempre Misaho me protegia. Não tinha mais a proteção dela agora e, se nada fizesse, passaria anos seguidos sem amigos e sendo humilhada.
Não estava olhando para ela e sim para a minha esquerda, ainda refletindo sobre toda aquela questão. Isso não me impediu de sentir a sua visão.
-Decidi que era o basta. Uma coisa era não ter amigos, enquanto outra completamente diferente era virar o saco de pancadas. Já que não iam sentir medo de mim, eu as faria ter.
A sua entonação foi o suficiente para que eu voltasse a olhar para ela. Além do semblante sério, parecia demonstrar também raiva. Só fazia piorar mais ainda a minha confusão entre a história ser acreditável ou não. Se fosse mentira, era uma mentira muito bem-feita.
Nara levantou sua mão na minha frente, fazendo o símbolo que muitos conhecem como o “paz e amor”. Não era necessário pensar muito no assunto para entrar em conclusão que não era aquele significado que queria passar, porém.
-Dois meses. – dizia, confirmando o meu pensamento. – Foi tudo o que eu precisei para treino. Se sempre odiei ter hiperimperium, nossa relação mudou. Cansei de me sentir a coitadinha e usei ele como vantagem. Em apenas dois meses, evoluí mais do que pessoas evoluem em toda a sua vida.
-O que aconteceu?
A minha rápida pergunta era um grande contraste com a minha hesitação. Apenas tinha saído, quase que sem controle. Provavelmente a curiosidade de saber o fechamento daquela história era maior.
-Fingi durante os dois meses que não estava ficando mais forte. Mesmo sem revidar, notei que minha resistência aumentava cada vez mais. As últimas humilhações não eram mais tão humilhantes assim. A tristeza deu lugar a impaciência, mas queria ter a garantia que venceria.
Surpresa não era uma das minhas reações. Toda a preparação estratégica combina com sua personalidade, a mesma que demonstrava nos duelos. Mesmo que Nara tenha me deixado vencer na batalha de dois dias atrás, ainda era impressionante que eu tivesse a chance. Imagine toda aquela frieza misturada com poder… uma combinação praticamente invencível.
Sendo bem sincero, isso me deixava bastante assustado, até.
-E eu venci, Pedro.
Depois de tanto tempo sem ver um sorriso naquele rosto, lá estava ele. Cheio de orgulho.
-Enfrentei Akemi e Misaho no mesmo lugar. – prosseguiu. – Misaho foi a primeira delas e não teve chance. Akemi tentou fazer algo, mas também não teve chance. Eu tinha vencido com uma facilidade tão grande que não acreditava. Toda a suspensão de vinte dias valeu a pena, ainda mais porque acharia que seria expulsa.
O sorriso de Nara talvez fosse cativante, mas não estava funcionando muito bem naquele momento. Claro, eu me sentia feliz por ela, porém… era uma questão de escolher, não é? Para ficar feliz por ela, precisaria ignorar os sentimentos de Akemi e Misaho.
Nara dizia que aquelas duas não prestavam, mas… não prestavam mesmo? A falta de detalhes de como ela venceu as duas só piorava a situação.
Ela moldou a história para seu benefício e isso não era exatamente algo bom.
Não, não me sentia feliz por isso. Me sentia até mesmo… enojado naquele momento.
-Então é por isso que você se sente tão bem com aquele joguinho na Educação Física?
Quase me arrependi no momento que terminei a frase. Seu sorriso sumiu no mesmo instante.
O que eu estava fazendo? Desafiando a poderosa Nara Ennetsu na sua própria casa? Isso não era muito inteligente, não é? Eu prometi que seria o mais sutil que pudesse e aquilo não era exatamente sutil.
Ela não me respondeu. Sua expressão misturava raiva, desapontamento e intimidação. Foi pega de surpresa e não sabia exatamente o que sentir.
Botei as mãos no meu rosto, enquanto me sentia feito um idiota.
-Droga… droga, droga, droga… desculpe, eu…
-Acho que já está na hora de você ir.
Ao tirar as mãos do meu rosto, notei que seu semblante não tinha mudado; intimidação era o mais forte agora, porém. Apenas desviei meu olhar, enquanto colocava a xícara com chocolate, que já não estava mais quente, em cima da mesinha de vidro.
-Sim, eu… eu estou indo.
Não respondeu e nem fez nenhuma menção que iria se levantar. Apenas segui lentamente para porta enquanto ela permanecia sentada na poltrona e olhando para a televisão, ligada, mas praticamente no mudo.
Eu sei que fiz merda. Fiz a pergunta errada, da forma errada e no momento errado. Não importava o quanto sua história não era convincente ou que faltavam detalhes, ainda assim foi a ação mais errada que poderia ter feito.
Abri a porta da rua. Nara ainda estava no mesmo lugar e não olhava para mim.
Eu sei que já tinha feito besteira, mas uma pergunta ainda estava presa na minha garganta.
-Nara, se você já estava tão acostumada a não ter amigos… por que eu?
Ela finalmente olhou em minha direção. Não parecia exatamente confusa e nem mesmo curiosa, apenas demonstrava neutralidade.
-Se em todos esses anos você nunca se importou… por que então se aproximou de mim?
Esperei sua resposta por um momento, mas ela não veio. Seus olhos laranja escuros estavam dando maior importância para a TV agora.
Não havia sinal melhor para mostrar que eu já deveria ter ido.
-Deixa pra lá… até amanhã e boa noite. Desculpe pelo incômodo.
Não esperei sua resposta e, provavelmente, ela não viria do mesmo jeito. Fechei a porta com calma e segui meu caminho.
***
Mas é claro. Pedro Cardoso não seria Pedro Cardoso se não fizesse coisas idiotas e aquela era só mais uma delas. A garota que estava na outra sala tinha avisado e eu ignorei. Me deixei cegar por aquele rostinho bonito de Misaho e também pela inesperada boa relação com Akemi; agora, iria pagar por isso.
Me pergunto se Nara sabe do que a “duas-caras” costuma fazer com pessoas mais fracas que ela. Como ela reagiria? Não muito bem, presumo.
E, se aquela história era verdade, deveria ficar de pé atrás com Akemi? Digo, o que impediria que ela fizesse o mesmo que Misaho fez?
“Não sei o que fez vocês virarem amiguinhos depois, mas posso dizer que suas ações foram verdadeiras”.
Bem, aquelas palavras saíram da boca de alguém que não gosta da baixinha. Deveriam ser confiáveis, certo?
Sendo bem sincero, aquela não era a minha maior preocupação do momento. Havia outra e que logo fiz questão de demonstrar em voz alta.
-Por quê?
Atraí a atenção das duas garotas que estavam do meu lado. Himari apenas me observava, enquanto massageava a sua mão esquerda com a direita. Akemi mexia no seu celular e virou o olhar para a minha direção.
-Por que o quê? – perguntou a mais baixa delas.
-Por que vocês me salvaram?
Aquela reação de confusão não era exatamente o que esperava.
-Digo, – continuei – não é que não esteja agradecido ou algo do tipo, mas vocês são amigas de Misaho, não são?
Não responderam de imediato. Himari parecia pensativa e Akemi olhava para a tela do seu celular, mas nitidamente sem nenhum interesse no que estava vendo antes. Esperei uma delas falar enquanto observava a janela e os raios de sol que esbaldavam o lugar.
-Eu…
Não esperava que logo a garota dos cabelos vermelhos transparentes fosse a primeira a tentar dizer algo. Aguardei, com paciência, que formasse seus pensamentos.
-…não sei. Sinceramente, não faço ideia. Não é a primeira vez que Misaho faz isso com alguém que considera como amigo…
Em algumas das “outras vezes” estaria Nara, então?
-…mas eu nunca fiz nada. – continuava, pausadamente. – Sempre que Misaho fazia tal tipo de coisa, eu… apenas estava lá. Desculpa, Pedro, mas eu não sei dizer. Acho que… aconteceu, simplesmente.
Akemi riu. Não era uma risada tentando ofender ou parecido, mas sim honesta.
-Que fofo. Você se atrapalhando toda para explicar que salvou o novato porque considera ele como amigo.
-A-Akemi!
Pelo visto não era o único a ser surpreendido pela sutileza da baixinha. Himari ficou mais vermelha do que seus cabelos e olhos já eram e se encolheu em sua cadeira, com nítida vergonha.
A situação talvez não ajudasse, mas acabei rindo. Não sei dizer se a garota à minha esquerda tinha entendido que minha risada não era exatamente um deboche.
-E você, Akemi? – perguntei da mesma forma súbita e olhando em sua direção. – Também ajudou pelo “poder da amizade”?
Sorri de forma irônica e esperava que ela também corasse. Não aconteceu. Apenas continuou pensativa e observando seu celular, que já estava com a tela desligada por inatividade.
-Sendo bem sincera, eu também não sei dizer, novato.
Mudei meu semblante para algo mais sério. Akemi guardou o aparelho que estava nas suas mãos em um dos bolsos do seu blazer, todavia ainda olhava para frente.
-Acho que todos nós fizemos uma escolha hoje, não é?
Apesar da frase parecer uma incógnita, na verdade era bastante simples; ela quis dizer que precisavam escolher entre eu e Misaho, em uma situação que a neutralidade não era uma boa opção. Bem, fico lisonjeado se for esse mesmo o caso, já que a estranguladora estava aqui há uns anos e eu fiz um mês há pouco tempo, então, além de tudo, ainda estava em desvantagem.
Sorri para mim mesmo.
Todo aquele pensamento do suposto isolamento que passaria em Yukopan não parecia nada mais do que exagero e ilógico. Longe de poder chamar tal lugar de minha casa ainda, mas… não era tão ruim assim. Eu gostava daqui. Claro que várias coisas aconteceram naqueles dias e quase fui estrangulado hoje, só que… aprendi muito com isso, não? Talvez muito mais do que aprendi em dezesseis anos de vida em Torugal do Sul.
E tinha a certeza que ainda aprenderia muito mais.
-“Poder da amizade” mesmo, então. – debochei. – Não se arrependerão de suas escolhas, garotas.
Isso não ajudou em nada na corada de Himari que parecia ainda mais encolhida em sua cadeira. Akemi apenas riu mais uma vez, sem olhar para a nossa direção.
-Menos, novato. Muito menos.
Pensei em responder com um “qual é?” ou algo do tipo, mas escolhi permanecer em silêncio daquela vez.
Ao menos algo tinha dado certo naquele dia.
Pelo menos meia hora havia se passado desde que vi Nara na recepção do diretor. Não sei dizer se tinha entrado em sua sala ou o que havia acontecido. A visão pelo vidro da porta era extremamente limitada e o reflexo dos raios solares impedia de ver o que acontecia pela janela.
Absolutamente nada foi dito para nós, o que só fazia aumentar a tensão a cada minuto que se passava. Tudo que queria era o desfecho de tal história, assim a minha mente talvez parasse de tentar simular todas as possibilidades da punição em si.
Himari parecia igualmente tensa, enquanto Akemi apenas olhava para a parede do seu lado e parecia pensativa. Era bem provável que também estivesse aflita, só escondia melhor do que todos nós. Ao mesmo tempo, aquela experiência não era exatamente nova para ela, então isso poderia explicar sua suposta calma.
Não falamos nada desde a última conversa que eu mesmo puxei. Por várias vezes pensei em algo que pudesse diminuir nossa inquietação, mas como nada veio à cabeça, apenas me mantive quieto.
Aquele silêncio aterrador finalmente foi cortado quando a porta foi aberta, o que chamou a atenção de todos nós. Era a secretária do diretor.
-Senhor Carudosu.
Como Himari e Misaho levaram tanto tempo para aprender o “Pedro” e meus professores precisaram de mais ainda para usar o “Cardoso”, não me surpreendeu nem um pouco que aquela pessoa pronunciasse tão mal o meu nome.
-Cardoso. – tentei corrigir, educadamente.
-Oh, sim. Desculpe. – sorriu por um pequeno momento. – Enfim, o diretor vai vê-lo agora.
Então… o momento havia chegado.
-Só eu?
-Sim, só você. As garotas vão esperar pelas suas respectivas vezes.
Bem, pelo visto aquele final de tarde seria longo para todos nós. Comecei a andar em direção a saída e parei para olhar para as duas antes de sair.
-Vou tentar não demorar, senão vocês só vão embora de noite.
Himari parecia um pouco confusa, mas Akemi sorriu.
-Mais uma vez com isso de se desculpar por algo que não é culpa sua? Só vá, novato.
Sorri em retorno. Sua resposta não me decepcionou.
Na recepção, notei que nem Nara e nem o professor Watanabe estavam lá. Talvez ainda estivessem dentro da sala do próprio diretor, mas duvidava bastante. Se era para conversar com todos ao mesmo tempo, era bem provável que teria sido chamado antes.
Olhei pelo vidro da sala a esquerda antes de seguir para meu objetivo. Misaho ainda estava lá e apoiava seus braços nas cadeiras do seu lado. Então eu seria o primeiro a dar o testemunho? O que fosse necessário para terminar aquela tensão era válido o suficiente para mim.
A garota do cabelo azul-índigo olhou de volta, como se sentisse que estava sendo observada. Não desviei a espiada e, por um tempo, apenas nos encaramos.
No fundo, ainda tinha uma esperança de ver uma Misaho arrependida ou até mesmo uma fingida, mas não foi nenhum dos casos. Era possível perceber um alto teor de raiva em seu olhar e a sua encarada não tinha intenção alguma de ser amigável. Ela sabia que sua máscara tinha caído e não tinha nenhuma intenção de colocá-la de volta.
Inconscientemente retribuí do mesmo jeito e não demorou para me evitar, com a mesma expressão de raiva. Ainda continuei a olhando por um tempo, porém ela não correspondeu.
Não havia mais volta, não é? O que tinha acontecido hoje não era algo pequeno. Akemi mesma comentou que “nós fizemos uma escolha hoje” e não era exagero. Não apenas ela e Himari fizeram, mas também eu e Misaho. Agora apenas enfrentaríamos as consequências de tal escolha.
Suspirei enquanto hesitava em mexer na maçaneta para a sala do diretor. Não demorei muito, no entanto.
Como havia suspeitado, ninguém mais estava na sala. A cadeira do diretor estava virada para o lado oposto da porta, mas pude notar que ele estava lá. Fechei a porta lentamente enquanto olhava ao redor.
Era… exatamente o que esperava de uma sala de um diretor. Sua mesa contava com um notebook que percebi que estava ligado por conta de estar com a tampa levantada e sua marca brilhava com uma forte luz branca. Papéis estavam arrumados em pequenas pilhas dos dois lados. Tinha uma estante com, pelo menos, uma centena de livros na direita e, a esquerda, fotos penduradas na parede. Várias delas. Ainda não tinha visto o diretor em pessoa, mas bastava ver o indivíduo em comum naqueles retratos. A maioria deles era ao lado de pessoas em lugares diferentes, porém haviam alguns apenas mostrando bons resultados de hobbies, como uma alta pontuação após jogar boliche ou um grande peixe fisgado em uma pesca.
E foi tudo que tinha para admirar. Como eu mesmo disse: não passava de uma sala padrão de um diretor. Não precisei ficar muito tempo esperando pelo que fazer, já que ele mesmo deu a iniciativa e falou, ainda de costas para mim.
-Pedro Cardoso. Décima série. Nascido em Cachoeira do Sul, Torugal do Sul no dia nove do quinto mês de 596. Apenas uma única habilidade relacionada com o elemento da água e afinidade de 7,4, sem nenhum indício de hiperimperium ou abscondam imperium. Cor classificatória como quarenta e cinco de vermelho, duzentos e dezesseis de verde e duzentos e trinta e um de azul ou, simplesmente, azul-celeste. Aprovado no exame de admissão com oitenta e oito por cento feito na cidade de Novo Horizonte, também em Torugal do Sul no dia quinze do segundo mês de 612.
É, era uma ficha completa, com toda a certeza. Sua voz era grave e nítida, como a de um locutor de rádio, e admito que não escondi estar impressionado por acertar meu nome e também os nomes das cidades; isso considerando que fosse um yukoponês, claro. Se não fosse, ainda seria impressionante do mesmo jeito, pois falava aquela língua muito bem.
O mesmo homem das fotografias me observava depois de virar a sua cadeira. Parecia mais velho que nas imagens, mas sua fisionomia era a mesma. Seus cabelos pareciam bastante com os de seu Hiro, que não eram exatamente diferentes; o destaque mesmo ficava pela cor: era branco. Suas sobrancelhas seguiam o mesmo padrão, mas suas pupilas eram de um cinza claro o suficiente para diferenciar da esclerótica. Tinha um cavanhaque padrão no seu rosto, também com pelos brancos. Pela aparência, deveria ter entre cinquenta e sessenta anos se seu poder não lhe rejuvenescesse.
Falando nisso, senti o mesmo que tinha sentido com o professor Watanabe. Não fazia a menor ideia do poder do diretor e aquilo, por si só, me deixava mais angustiado do que deveria. Sempre fui acostumado a reconhecer poderes pela cor dos cabelos e olhos e, depois de ver o professor em “ação”, começava a temer eles. Aquela curiosidade era tão grande que me controlava para não perguntar.
Ele segurava um pequeno bolo de papel em sua mão direita e o arremessou na sua mesa. Uma das coisas que consegui ver do conteúdo é que tinha uma foto minha em uma das páginas. A mesma foto que tirei ao entrar no colégio.
-E, pelo que estou vendo, também é mudo.
Não conseguia ler seu semblante. Adultos faziam muito bem em neutralizar suas expressões e tinha uma leve impressão que o diretor fazia isso ainda melhor.
-N-Não. – respondi, gaguejando por não ter pensado no que falar. – Não sou. Desculpe, diretor Murakami.
-Apenas “Murakami” ou “diretor” estão de bom tamanho, garoto. Até pediria para você me chamar pelo meu primeiro nome, mas é ainda mais complexo do que meu sobrenome. Sente-se.
Me basear apenas pela entonação de sua voz não era algo exatamente confortante, porém parecia amigável. Ele deu um gole na xícara que estava do lado de seu notebook, o que presumi ser café. Atendi ao seu pedido sem cerimônias e o diretor me esperou sentar na cadeira da direita para voltar a falar.
-Posso lhe oferecer algo? Café? Chá? Acho que tenho um achocolatado em algum lugar da minha gaveta…
-Está… está tudo bem, diretor.
Levantei minha mão para simbolizar que não queria nada. Ele fez menção que ia mexer nas suas gavetas, provavelmente para achar o tal achocolatado que tinha falado, mas desistiu.
Deu uma leve pigarreada antes de continuar.
-Bem, estava vendo seus registros porque não conseguia acreditar, como alguém tão talentoso, achou uma boa ideia ignorar as regras da escola em níveis astronômicos.
Independente de tudo, uma parte de mim sabia que eu merecia aquilo. A outra parte… bem…
-Diretor, eu…
-Espere. Ainda não terminei. – levantou o dedo indicador da sua mão direita na altura da minha cabeça. – Pedro, adoraria dizer que estou exagerando, mas as acusações são mais do que graves. Você leu o livro das regras escolares quando se matriculou, certo?
A mesma preocupação que me atazanava quase uma hora atrás, estava de volta.
-Sim.
-Escuta, eu sei que você veio de outro país e lá as regras devem ser diferentes, só que isso… eu até entendo a briga com seus colegas, mas a destruição de propriedade escolar agrava tudo.
-Diretor, desculpe lhe interromper, mas…
Olhei diretamente nos seus olhos para ver se parecia ofendido. Nada notei.
-…a briga envolvia apenas uma aluna. – continuei, após estar mais confortável. – Misaho foi quem lutou contra nós três. E foi ela também que causou a destruição das coisas.
Não respondeu. Me olhava, intrigado e pensativo. Como não tinha mais nada a dizer, apenas esperei sua reação.
-Certo. – finalmente disse. – Conte-me sua versão da história para ficar mais fácil de entender, então.
E foi o que fiz. Deixei de lado toda a história com a criança da semana passada e me foquei apenas no que tinha acontecido naquele dia. Comecei pelo aluno mais velho, a primeira vítima, e detalhei o máximo que pude até o momento do aparecimento do professor Watanabe.
Tinha lido em um dos livros, que fizeram parte do meu estudo, sobre a imparcialidade. Lá dizia que, quanto mais parcial você demonstrasse ser, mais vulnerável ficaria em relação a argumentos, em que a pessoa que ouvia poderia fazer vários questionamentos sobre o assunto; alguns deles por voz, enquanto outros na sua própria cabeça. O importante é que tinha tendência a não terminar bem e usei aquele conhecimento na história. Evitei ao máximo culpar Misaho exageradamente e me foquei no que havia acontecido. Se aquilo havia funcionado, saberia nos próximos minutos.
O diretor apenas me olhava, tentando me analisar e pensativo ao mesmo tempo. Precisou de uma quantia considerável de segundos antes de voltar a falar.
-Entendo… bem, essa não é a primeira vez que acusam a senhorita Shimizu.
Então já havia acontecido, afinal.
-Ela já foi suspensa? – perguntei, com nítida curiosidade nas palavras.
-Não. Sempre as acusações não contavam com testemunhas ou provas. – e arrumou, brevemente, os papéis do meu registro que estavam espalhados na sua mesa. – É claro que é de se estranhar que tal coisa aconteça com certa frequência, mas você ficaria impressionado do quão comum isso é por aqui. Não é como se ninguém fosse punido por apenas acusar, também.
-Quantas… quantas vezes? Tem algum registro escolar disso?
Ao mesmo tempo que tinha curiosidade, não conseguia deixar de demonstrar o meu receio.
-Precisaria verificar, mas lembro de um garoto que passou aqui semana passada.
Oh.
-A escola não tem obrigação de guardar registros das acusações sem solução. – continuou. – Faço isso do mesmo jeito e devo ter um arquivo sobre isso aqui no meu notebook.
Mexia agora em sua máquina e murmurando ocasionais “cadê” e “aqui”. Eu não disse nada e apenas esperei para que achasse o que estava procurando.
-“Registro de Misaho Shimizu”. Aqui está.
E virou o notebook na minha direção. Mostrava um documento com bastante detalhes e escrito em yukoponês. Algumas informações eu já sabia, como série que estava, nível de afinidade, que era 8,3 e a sua habilidade. Outros, como altura, nome dos pais e até sobre a nota de aprovação para a entrada no Chikara no Kyoten, também apareciam. Precisei usar o touchpad para descer as páginas e então achei o que precisava.
“Registro de acusações”.
A tabela tinha dados como quem tinha feito as acusações, quando foram feitas, a razão da acusação em si e a situação delas. Quando lembrei que o diretor separou aquilo tudo sozinho, me impressionei. Nada se comparava ao número de linhas na tabela, porém.
Contei, recontei e continuei contando mesmo após a recontagem. Trinta e sete linhas de acusações que começaram no final de 605, todas mostrando com o status de “arquivado por falta de testemunhas/provas” que estava em vermelho. Um nome dos acusadores era mais do que conhecido para mim e datava do dia quatro do décimo quarto mês de 608: Nara Ennetsu.
Se já tinha me sentido mal por não acreditar nela e agir daquele jeito rude em sua casa, me sentia ainda pior. É claro, fazia parte das “acusações sem solução”, mas os últimos acontecimentos ajudavam que eu acreditasse na veracidade de tais linhas que agora não passavam de registros.
Ao mesmo tempo, aquela lista incluía apenas denúncias feitas ao diretor e parecia bem óbvio que não eram todos os ocorridos. Adicione aí as pessoas que temeram Misaho o suficiente para esconderem o que aconteceu com eles… o número multiplicaria, facilmente.
No mesmo arquivo, também mostrava detalhes sobre quando ela tinha entrado no Chikara no Kyoten e tal ano foi 605.
Não foram “eventos isolados” ou incomuns; ela simplesmente praticava isso desde o princípio. Misaho sabe que o seu nível de afinidade ajuda a ser uma das mais fortes entre seus colegas e abusa disso. O fingimento de amizade só deixa tudo ainda pior.
Bullying é algo normal nas escolas, sempre foi. Também aconteciam casos em Torugal do Sul e deve acontecer em todo o mundo, mas ser normal não significa que deve ser aceitável.
Talvez ela mesma tivesse razão. Talvez nunca tinham mexido comigo porque achavam que eu era forte, então nunca tinha presenciado algo assim. Agora que finalmente tinha visto ao vivo… sabia que não ia aceitar calado. Não importa quem cometesse, porque ainda acharia repugnante.
Acabei soltando uma risada nervosa. Não um nervosismo de inquietação, mas sim de irritação. O diretor percebeu, porém nada comentou. Estava na espera que eu terminasse de olhar o documento.
-Então é assim, não é?
Não parecia que tinha entendido minhas palavras. Sua confusão era notável.
-O Chikara não faz nada para resolver esse tipo de coisa, então?
Apesar de minhas palavras serem, no mínimo, inconvenientes, o diretor manteve sua calma.
-Meu rapaz, não é bem assim. – sua voz era bem mais serena do que o esperado. – Há casos e casos.
-Diretor Murakami.
Ele não reagiu pelo uso das duas palavras juntas daquela vez.
-Vê esse último ocorrido aqui? No terceiro da semana passada?
Apontei para a tela do notebook, exatamente onde mostrava a última linha do “registro de denúncias”, enquanto virava o aparelho para a sua direção.
-Eu vi ele acontecendo. – continuei, ao mesmo tempo que ele observava a tela. – Eu estava lá. Ela roubou a corrente de ouro do garoto, depois de ameaçá-lo. Quantos da lista o senhor acha que estão na mesma situação e quantos foram realmente inventados, como o colégio costuma tratar?
Admito que não notei as falhas de argumentação. Parecia uma eloquência digna, misturada com um senso de justiça que poderia tocar o diretor, mas estava enganado. E naquele momento iria sofrer tal lição.
Ele respirou profundamente antes de falar. Seus cotovelos estavam apoiados na sua mesa e seus dedos das duas mãos se abraçavam na altura de seu nariz.
-Senhor Cardoso, é exatamente este o ponto.
Naquele momento não havia entendido e meu semblante representava isso bem.
-Você foi uma testemunha do ocorrido. – continuou, sereno. – Agora nós poderemos avançar em tal denúncia e punir a senhorita Shimizu se tivermos detalhes o suficiente. Não é sempre que isso acontece, mas sim quase nunca.
E deu uma leve pausa.
-Como você acha que me sinto ao ver toda essa lista de casos não resolvidos? – prosseguiu. – Não sou mais tão jovem assim, meu rapaz, mas ainda me incomoda. Evitamos colocar câmeras de segurança pelo colégio não apenas para nossos alunos ficarem mais à vontade, como também para evitar injustiças e agirmos por conta própria, sem saber o contexto. Relatos são importantes, mas para termos relatos, precisamos dos relatores. Se realmente isso incomoda o seu senso de justiça, comece sendo um deles. Você não pode mudar o mundo se não arrumar o próprio quarto antes.
Fiquei cabisbaixo. Pior mesmo do que ter sua argumentação rasa destruída, era notar o quão ruim seu modo de agir é. Era perceptível que o diretor criticava a minha falta de ações e não apenas no quesito de comunicar o ocorrido, mas também em relação ao que aconteceu. Estava nas entrelinhas e ele notou: nada fiz para resolver o problema. Poderia culpar Misaho pelo que fez, ou Himari por ter me impedido, mas a verdade era clara: nada fiz. Estava lá e não resolvi o problema que tanto me incomodava.
-Senhor Cardoso, por que você acha que está aqui?
Ainda estava perdido nos pensamentos, então levei um tempo para absorver a pergunta.
-Pelo… pelo que aconteceu mais cedo?
-Não. Não estou me referindo a você estar aqui falando comigo e sim ao Chikara no Kyoten. Pode expandir para Atarashi ou até mesmo Yukopan se quiser, já que veio de tão longe. Por que você está aqui? Se quiser incluir as aulas vespertinas, existem muitos colégios que fazem isso e aqui não é tão especial assim nesse ponto. O que fez vir de tão longe para estudar assuntos que poderia ter feito em Torugal do Sul ou qualquer país mais próximo do que Yukopan?
Sempre que pensava naquelas perguntas, tinha a resposta na ponta da língua. “Estou aqui para ficar mais forte!”, ou “estou aqui para tornar meus poderes úteis!”, ou até mesmo “esse é o colégio de Nara Ennetsu! Existe uma razão para que quisesse estudar no mesmo lugar de uma aluna modelo!”.
Todas aquelas respostas pareciam apenas infantis agora. Talvez funcionassem antes, quando não tinha pensado no assunto direito. Eram razões rasas. Então estava aqui por motivos de tal naipe? Pensei tanto que uma amizade entre eu e Nara não poderia acontecer porque as razões não se sustentavam, mas e as de estar aqui?
Senti um aperto no coração. Meus pais pagavam caro por esse colégio. Estudei durante meses e meses para passar no teste de admissão e vi seus rostos com sentimentos agridoces quando souberam que passei. Eles sabiam que isso faria que eu viajasse para longe e ficasse afastado deles por longos quatro anos, no mínimo. Ainda assim, não me impediram e nem reclamaram, muito pelo contrário; me ajudaram em tudo que precisei e, se tive uma viagem tranquila e estou tendo uma estadia igualmente pacífica, devia tudo a eles.
E então, o que faço? Estou aqui na sala do diretor por um motivo estupidamente banal, com a garantia que sofrerei alguma punição e com apenas um mês de aulas.
Do que adianta me sentir incomodado com as injustiças do mundo se eu mesmo estou cometendo elas?
O diretor tinha toda a razão: estou tentando arrumar o mundo antes do meu próprio quarto.
-Eu…
Comecei a falar para que ele não me esperasse mais do que deveria na resposta de algo tão simples, mas admito que precisaria improvisar e sem mentir. Se fosse para não falar a verdade, seria um fingimento tão revoltante quanto as ações de Misaho.
Me esperava pacientemente que continuasse e atendi ao seu desejo.
-…nenhum colégio de Torugal do Sul ou qualquer país vizinho serviria. Eu estou aqui porque esta escola em específica é a melhor de todas.
Seu olhar era curioso e não fazia menção de me interromper. Aproveitei para continuar.
-Estudei para passar no Chikara no Kyoten porque não quero ser mais um. Estou aqui porque sei que isso fará que eu vá muito mais longe. Aprendi essa língua que estou falando agora por isso. Estou vivendo sozinho e sentindo saudades da minha família pela mesma razão. É um sacrifício que terá recompensas no futuro, mas ainda é um sacrifício. Estou completamente ciente disso.
Minhas palavras saíam com uma veemência que impressionava até a mim mesmo. O diretor continuava curioso e nada dizia.
-Assim como estou completamente ciente que fiz besteira hoje. Minhas sinceras desculpas, senhor Murakami. Aceito qualquer punição que for necessária, mas, por favor, não me expulse. Eu… eu não sei o que faria se fosse expulso. Lutei para chegar aqui e não quero que tudo isso seja jogado fora.
Demorei para perceber que lágrimas caíam dos meus olhos. Não tinha nenhum controle sobre elas e também não tinha nenhum receio em me sentir envergonhado. Por muito tempo segurei aquele sentimento e não fazia mais questão nenhuma de guardá-lo.
-E também, eu… eu… eu vou lutar contra as injustiças.
Toda a minha retórica havia dissipado e gaguejava bastante.
-Não faço ideia de como, mas eu vou. N-Não precisa se sentir mal por casos não resolvidos. Eu vou ajudar para que sejam e da forma mais justa possível.
Todo o papo sobre “injustiça” foi feito enquanto estava cabisbaixo, então não acompanhei as expressões do diretor. Sua curiosidade deu lugar a um semblante pensativo e espantado ao mesmo tempo. Pensei até em dizer mais coisas, mas absolutamente nada veio à cabeça. Para um improviso, já era muito além do que já tinha feito em toda a minha vida.
Algumas dezenas de segundos se passaram enquanto ele permanecia olhando para a minha direção. Minhas últimas lágrimas já haviam escorrido há um tempo e comecei a ficar em tensão. Por que demorava tanto de reagir? Diga algo! Diga que acha aquilo idiota, ou que se sentiu inspirado pelas palavras de um adolescente que não sabe nada da vida, não me importo! Apenas… diga algo.
E então ele… riu. É, riu. Eu olhava atônito para sua direção, ainda sentindo o sal seco e grudento das lágrimas escorridas no rosto, enquanto ele gargalhava com vontade. Não era uma reação que esperava e nada que pensasse me fazia entendê-la.
-Sabe? – finalmente começou a dizer, ainda rindo. – Por um momento eu não entendi porque a senhorita Ennetsu fez questão de defendê-lo quando soube do que aconteceu.
Espera… o quê?
-Ela não tem muitos amigos aqui, – continuava, ainda com o sorriso no rosto. – então pode imaginar que me surpreendeu, no mínimo. Mas não foi apenas isso. Suas palavras eram, ao mesmo tempo, parciais e sentimentais. Nunca tinha visto ela fazer isso por ninguém desde que começou a estudar por aqui.
Não escondi a surpresa. Então… foi isso? Era por isso que tinha passado aqui?
-E agora eu entendo. – acrescentou, agora ficando um pouco mais sério. – Não são muitos que causariam um impacto desse tipo na senhorita Ennetsu e você fez, senhor Cardoso.
-Espere… o que ela disse?
Minhas palavras ainda estavam trêmulas, mas a curiosidade era mais forte.
-Ela praticamente implorou para que diminuísse sua punição e pediu que fosse feito o mesmo para as outras se necessário. Também me disse que deveria ouvir o que você tinha a dizer antes de tomar qualquer decisão e não me arrependeria disso.
Ela… ela me defendeu. A garota, que eu estava jogando toda amizade fora, me defendeu.
Na boa? Eu sou um sortudo. Um sortudo de bosta. Um sortudo que não merecia a sorte que tinha.
Tratei Nara como lixo quando deveria ouvi-la e me afastei dela aos poucos, achando que aquele relacionamento não iria para lugar algum. A deixei sozinha, mesmo quando sabia que isso significaria que ficaria literalmente sozinha e ela não reclamou. Em nenhum momento tentei resolver o problema que eu mesmo havia criado e não tinha nenhum arrependimento por isso. Eu… eu não merecia isso. Não merecia sua compaixão. Merecia ser apenas mais um de seus colegas que ignoraria até se formar.
Mas ainda assim, ela me defendeu.
Eu me sentia como um merda agora. Fazer coisas idiotas era algo normal para mim, mas aquilo ia muito além de idiotice. Critiquei tanto Misaho por ser uma pessoa terrível e… agi tão terrível quanto. Certo, eram casos bem diferentes, só que um péssimo exemplo para quem se dizia tão incomodado por injustiças.
Sentia vontade de derramar mais lágrimas, mas me segurei da forma que eu pude. Se fosse para fazer isso, não seria o diretor que deveria ver tal choro. Independentemente do que acontecesse aqui, veria Nara no primeiro momento que pudesse. O mínimo que ela merecia eram desculpas, além de um grande obrigado, é claro.
-E não me arrependi, senhor Cardoso.
Mesmo esperando ouvir a voz do diretor, ainda fui apanhado de surpresa. Tentei recuperar a compostura e olhei da forma mais séria que podia para o senhor Murakami.
-Você tem razão. – continuou. – As pessoas vêm para o Chikara no Kyoten para tentar ser os melhores. Se forem apenas para serem normais, tem centenas… não, milhares de outros colégios espalhados por Yukopan sozinho. Talvez você ainda seja jovem, mas se suas palavras forem sinceras, está fazendo o certo. Espero que continue assim.
Notei que demonstrava um certo orgulho ao dizer aquilo. Eu não sentia que tinha falado nada de mais, porém parecia que o meu pensamento não era muito comum, afinal.
-Farei o máximo possível para continuar, diretor.
Ele sorriu.
-Fico feliz de ouvir isso, meu rapaz. Por outro lado…
É, eu temia aquilo. Nem mesmo nas minhas previsões mais otimistas, esperava que tudo terminasse em um aperto de mão e “até amanhã” ou parecido.
O diretor voltou a ficar sério e me fitava de forma penetrante e intimidadora.
-Não dá para simplesmente deixá-lo impune pelo que aconteceu hoje. Sei que entende o que quero dizer.
-Sim, eu entendo. – respondi, mesmo apreensivo.
-Então meu veredicto é…
Era agora. A hora havia chegado.
Respirei fundo enquanto esperava a resposta. O senhor Murakami deu uma pausa um pouco maior do que esperava antes de finalmente continuar.
-…cinco dias de suspensão, além de uma adição na mensalidade pelos danos causados à escola. Você irá dividir tal valor com a senhorita Shimizu, a senhorita Sunohara e a senhorita Yamazaki.
Er…
Espera… era isso? Foi reduzido para cinco dias? Isso era apenas uma semana e… era bom. Era fantástico, para dizer a verdade. Mesmo se não fosse expulso, esperava, ao menos, vinte dias.
A parte financeira da punição era até pior, para ser sincero. Sabia que aquilo iria me render uma bronca merecida de minha mãe e seria descontado do dinheiro que ela e meu pai enviam toda semana. Bem, eu acho que posso viver com um pouco menos de sorvete por um tempo e aquela bronca eu aguentava. Nada se comparava a decepção que veria em seus rostos se fosse expulso e isso seria pior, bem pior.
Pelo menos ainda continuava na Chikara no Kyoten e aquilo era o que importava. Morria de vontade de soltar um alívio, porém não tinha a menor ideia se isso ofenderia o diretor ou parecido, então permaneci neutro.
-Serão cinco dias escolares, então o primeiro da semana que vem também está incluso na suspensão. – prosseguiu. – Está autorizado a voltar no dia dois do décimo quarto mês. Fui claro, senhor Cardoso?
-Sim. – respondi sem hesitação. – Entendido, diretor.
-Por sinal, se quer começar o “trabalho contra a injustiça”… passe na minha sala quando voltar. Quero ouvir o seu testemunho sobre a corrente de ouro lá.
Acabei sorrindo. Assumi que o diretor entenderia que não estava debochando da suspensão e sim que parecia feliz por ter lembrado daquele detalhe.
-Certo. – eu disse. – Passarei aqui pela tarde.
-E, por favor, chame a senhorita Yamazaki.
É a segunda vez que dizia aquele sobrenome e, por eliminação, notei que falava de Himari. Não sei dizer porque ela seria a segunda, mas… não me importava, sendo sincero.
Nunca achei que ficaria feliz por tomar uma suspensão. É incrível o quanto a nossa mente consegue se adaptar facilmente a receber males menores em certas situações. Por mais que aquilo seja ruim, o foco do seu cérebro é como podia ser pior. É algo engraçado, no mínimo.
Me despedi do diretor Murakami e não demorei a sair de sua sala. Fui direto para a sala de espera da direita, e que agora estava à minha esquerda. Ao abrir a porta, Akemi e Himari me olharam curiosas.
Aquele momento não era adequado, mas quer saber? Que seja. Fingi uma enorme tristeza, apesar de não saber o quão convincente estava. Suas curiosidades agora se misturavam com a surpresa. Ninguém esperava pela expulsão mais e a minha reação era como se o pior tinha acontecido.
Himari foi a primeira a ficar boquiaberta e precisei segurar bastante para não rir. Respirei desnecessariamente de forma profunda e cortei o silêncio.
-Himari Yamazaki. Sua presença foi requisitada pelo diretor, que está a sua espera nesse instante. Não o deixaria esperando se fosse você.
E a risada que tanto havia segurado saiu. A garota dos cabelos curtos e vermelhos transparentes parecia confusa, enquanto Akemi começou a rir junto, com a mão direita na sua testa e foi a primeira a falar.
-Ah… é sério que eu quase caí nisso?
Foi aí que Himari finalmente entendeu e suspirou. Não chegou a rir junto, mas sorriu.
-Quase? – perguntei. – Você deveria ter visto como ficou a sua cara.
-Deu… deu tudo certo então, Pedro? – Himari perguntou, com certa vergonha.
-Melhor do que esperado, eu diria. Não estraguem tudo, pelo amor dos céus.
-Ah, vá se ferrar, novato!
Talvez aquele dia não fosse dos melhores, porém aquele clima era… bem legal, na verdade. Estava me sentindo desconfortável há dias e finalmente liberar a tensão era um alívio dos grandes. Todos rimos por um breve tempo, enquanto Himari levantava e vinha em minha direção. Dei espaço para que passasse do meu lado.
-Ei, Himari.
Eu mesmo a interrompi. Já estava quase na mesma linha da mesa da secretária e me olhou, com uma de suas sobrancelhas levantadas.
-Eu sei que você disse que não sabe dizer porque fez o que fez hoje. – continuei, sério. – Mas se sua intenção for mesmo a mudança, o diretor adoraria ouvir sobre os eventos com a Misaho.
Por um momento não sei dizer se ela havia entendido ou não. Esteve prestes a começar a falar, mas interrompeu a si mesma, como se mudasse o próprio assunto. Finalmente respondeu após uns segundos.
-Você diz… o que eu fingia não ver?
-Sim. Não hoje, claro, mas qualquer coisa que você saiba vai ajudar bastante. – pausei brevemente para pigarrear. – Conversei com ele pelo alto sobre o garoto da corrente de ouro lá e me ofereci para contar sobre o ocorrido no final da suspensão.
Ela desviou o olhar e parecia inquieta.
-Pense sobre o assunto e não precisa comentar nada por hoje. – prossegui, visando não criar um silêncio desconcertante. – Boa sorte por lá e conversamos mais sobre isso quando a suspensão terminar.
Voltou a olhar para mim com um leve sorriso e assentiu. Não disse mais nada e se virou, seguindo para a sala do diretor. Esperei calmamente que abrisse a porta e entrasse. Percebi, logo depois, que Akemi me observava, com certa curiosidade.
-O mesmo vale para você, senhorita Sunohara.
Nunca tinha falado seu sobrenome até aquele momento e fiz o máximo possível para que saísse com a pronúncia certa. Ela apenas continuou me olhando e nada disse.
-Você disse pra Misaho hoje que não “faz mais esse tipo de coisa”. – acrescentei, sem hesitar. – Não foi da boca pra fora, não é?
Mudou o seu olhar para a sua frente e ficou reflexiva por um tempo. Esperei pacientemente que respondesse.
-Não. – finalmente disse após algum tempo. – Não foi.
-Independente da sua razão, garanto que o diretor ficará feliz por isso. E… eu também.
Voltei a ter sua atenção após o término da minha última frase.
-Obrigado… de verdade, por hoje.
Ela sorriu de olhos fechados e se encostou na cadeira que estava sentada.
-Não precisa agradecer. É o que amigos fazem, não é?
Até então, Akemi nunca tinha utilizado a palavra “amigos” para se referir a nossa relação. É claro, na prática, éramos mesmo, há um certo tempo, mas é um peso muito diferente quando ela mesma dizia tais palavras. Para alguém como ela, falar aquele tipo de coisa requeria ignorar parte do orgulho e sair um pouco de sua dura casca que sempre usava para se proteger. Pensando em tais detalhes, poderia dizer que era quase uma honra ouvir tal coisa de sua parte.
-Sim. – concordei, sorrindo. – É o que amigos fazem.
Pois é. Amigo da valentona baixinha que me incomodou logo no meu primeiro dia de aula.
Reviravoltas da vida que nunca deixarão de me impressionar.
Não esperei o término das conversas do diretor, até porque já estava suspenso mesmo. Me despedi de Akemi e segui diretamente para casa. Quando saí do colégio, o sol já estava se pondo e pensei que ela, Himari e Misaho ficariam lá até a noite sem a menor dúvida. Uma pena que não pude cumprir o “vou tentar não demorar” que disse antes de ver o diretor.
Por um tempo, apenas fiquei com inquietação em casa. Não sei como o colégio avisaria aos meus pais, ainda mais quando eles não moram em Yukopan, mas não teria como eu mesmo fazer isso até o dia seguinte. Em algumas horas o dia estaria começando por lá, só que ainda estávamos na semana útil, então só conseguiria falar com eles pela noite em Torugal do Sul, o que seria o início da manhã por aqui. Não sei se a escola pensou em tais detalhes e esperava que sim. Se ligassem por agora, teria o mesmo efeito que um telefone tocando às seis horas da manhã.
E não é como se meus pais soubessem algo de yukoponês, também. Minha mãe até me ajudou no início dos estudos, mas logo desistiu quando viu a dificuldade da língua, então seu nível deve ser o equivalente à de uma criança que aprendeu a falar recentemente. Meu pai? Meu pai provavelmente acharia que estavam falando de um “barco” quando usassem o pronome boku. Duvido muitíssimo que o Chikara tenha algum tradutor que saiba toruguês, o que deixava a situação, no mínimo, engraçada. Nara até sabia toruguês e poderia ser uma boa intérprete, porém tinha sérias dúvidas se o diretor ou até mesmo a escola em si sabiam disso.
Por falar nisso… precisava mesmo conversar com ela; ao menos agradecer pelo que fez hoje. Era bem provável que estaria arrumando as minhas malas agora e na mais profunda tristeza após enfrentar a expulsão se não fosse por ela. E era só isso? Não, não era só isso. Precisava me desculpar também, por ser um rude desgraçado dos infernos.
Quando saí do colégio, as aulas ainda estavam acontecendo, então não tive a oportunidade de vê-la. Digo, não seria muito legal tomar uma suspensão e então passar no ginásio, interrompendo toda a aula do professor Watanabe, apenas para tentar conversar com Nara. Já tinha brincado demais com a sorte por um único dia. O maior problema é que ainda não tinha seu telefone e até poderia passar na sua casa. Bem… é melhor não. Isso, definitivamente, não me traz boas lembranças.
Não faço a menor ideia se conseguiria segurar aquela angústia por mais de uma semana, todavia. Isso ignorando completamente que pareceria um puto mal-agradecido por não ter feito nenhum esforço de encontrá-la.
Suspirei sozinho. Odiava aquele sentimento de não ter uma boa opção. Odiava mais ainda estar assim por erros que eu mesmo cometi. Magnífico.
Meu celular, que estava em cima da mesa da sala, deu duas fortes vibradas. Levantei do sofá no mesmo instante e verifiquei as notificações. Era uma mensagem da baixinha. Acho que nunca tinha desbloqueado a segurança do aparelho tão rápido em toda a minha vida.
“Eu e Himari levamos cinco dias. Você não disse quanto tomou, mas presumo que tenha sido o mesmo. Precisamos conversar sobre isso de pagar os danos no corredor. Vou ficar muito revoltada se isso cortar algumas das nossas saídas. Misaho vai me pagar por isso, literalmente”.
Respirei em alívio, ao mesmo tempo que sorri. Forçar que Misaho pagasse por tudo era até bastante atrativo, mas, por tudo que fosse mais sagrado, que não decidíssemos isso em terrenos escolares.
“Não é má ideia. Quero ver mesmo o desfecho da luta entre vocês duas. Até lhe chamaria para desestressar jogando, mas presumo que seus pais não sejam tão liberais assim. Vai me mantendo informado, de qualquer jeito. Fique bem por aí”.
Não desliguei a tela após mandar a resposta. Akemi viu a mensagem quase que no mesmo instante e já respondia.
“Não são mesmo. Esqueça jogos até semana que vem. Mas não se preocupe que devo sobreviver a bronca. Até mais, novato”.
Presumi que já não esperasse mais nenhuma resposta de minha parte, pois o seu status de “disponível” mudou para “vista por último às 20:11”. É, quando você não pode notar o comportamento por entonação de voz ou expressões, começava a perceber mais detalhes para entender alguns padrões. No caso dela, sempre permanecia “disponível” quando um assunto estava na ativa, o que significava que não desligava a tela do seu celular e nem mudava a janela, dando total atenção à conversa. A parte irônica disso é que era o completo oposto na vida real. Vai entender, eu acho.
Agora sim, desliguei a tela e estava mais aliviado. Por todo aquele tempo, pensava que as punições poderiam ser diferentes, mas o diretor cumpriu a sua palavra e o pedido de Nara. Pena que o significado disso era que Misaho provavelmente tivesse a mesma punição. Bem, era um problema para resolver na semana que vem, com a ajuda de Himari, se assim ela quisesse.
Não sabia o que era jogar sem a companhia da baixinha há várias semanas e, por mais que tivesse transparecido tal ideia para ela, não estava com muita vontade de me aventurar nisso agora. O notebook ainda teria outras utilidades, porém; já que não veria o colégio tão cedo, podia estudar. Yukoponês em si não é mais um problema, mas sempre há algo a melhorar, afinal.
Ou não. Minha campainha tocou logo quando estava a caminho do quarto. Provavelmente era seu Hiro, ainda mais pelo horário compatível ao de sua disponibilidade. Não sei dizer se estava com muita disposição para conversar, por outro lado não precisava ignorar também. Detestava que as pessoas não fossem sinceras comigo sobre tal tipo de coisa, então fazia o maior esforço para não agir de tal forma.
Ao abrir a porta, não dei de cara com o vizinho de meia-idade que já estava acostumado a ver. Na verdade, fui surpreendido ao ponto de passar um tempo boquiaberto antes de conseguir falar.
-N-Nara?
Sim. Esse nível de surpresa. Ela ainda estava com o uniforme escolar e carregava uns papéis na sua mão direita. Como sua mochila estava nas suas costas, assumi que veio do colégio diretamente para cá, o que levantava muitas perguntas de minha parte.
-Ei, Pedro! Quanto tempo.
Não estava errada em dizer aquilo. Fazia tempo que não conversávamos de fato e não incluía “bons dias” como “conversas”. Agora a situação era diferente. “Estava pensando em você agorinha mesmo” era o que eu mais tinha vontade de dizer, porém nada disso saiu.
-Faz… faz tempo mesmo. O que faz aqui?
Ela soltou um dos seus conhecidos sorrisos antes de responder.
-Ah, vai ser rápido. Não sabia o seu apartamento e perguntei ao síndico qual era. Até insisti em interfonar antes, mas ele insistiu que subisse direto. Parecia ser alguém bem gentil.
“É mesmo, não é?” foi o que se passou na minha cabeça e a resposta foi bem diferente.
-Não tem problema.
-Trouxe isso aqui. – e me entregou os papéis. – São os assuntos que devem ser dados essa semana, de todas as matérias. Conhecendo você, achei que fosse querer estudar nesse meio tempo.
“Conhecendo você”… bem, não estava errada. Ficar de bunda para cima só intensificaria a minha ansiedade.
-Va… valeu. – peguei os papéis de sua mão e dei uma rápida olhada. Parecia uma lista e estava separado por matérias. – Mas… espera aí, o ponto da suspensão não era prejudicar o aluno suspenso para que ele corresse atrás quando voltasse às aulas?
Ela desviou o olhar e começou a coçar seus próprios cabelos na parte de trás da cabeça. Espera… Nara estava com vergonha?
-Bem… é. – dizia, desconcertada. – Só que a escola meio que… bem, gosta de mim, então consigo acesso a coisas do tipo apenas falando com o diretor. Ele provavelmente deve ter desconfiado porque pedi isso dessa vez, mas não tem problema.
Nara, o… o que você estava fazendo? O que é tudo isso hoje?
Ela que estava com vergonha de ter, indiretamente, desrespeitado uma das regras do colégio, mas não se compara ao nível de embaraço que estava agora. Não era do mesmo tipo, porém; o meu era pior, bem pior.
-Se… se quiser, pode passar uma cópia disso para Akemi ou Himari também. Até mesmo para Misaho. Elas vão lhe agradecer.
Não respondi. Ainda refletia sobre tudo aquilo. Além de tudo, ela dizia não se importar que entregasse aquilo para Akemi ou Himari… diabos, até mesmo para Misaho. Eu sabia de toda a história. Nara tinha motivos para odiar todas essas pessoas, mas ainda assim… ela não se importava.
Mesmo depois de tudo, ela ainda me ajudava sem hesitar. Mesmo depois de me salvar de uma provável expulsão, ainda tinha feito o esforço de fazer um pedido para o diretor, que poderia ser facilmente interpretado pelo sentido real e a deixaria, quase certamente, em maus lençóis. Ainda se esforçou para trazer aquilo para mim e sequer ligava que ajudasse pessoas que ela tanto odiava no processo.
E, sejamos sinceros, a minha situação não era tão diferente de tais pessoas. Claro, não cheguei a lhe causar nenhum dano físico, mas a machuquei do mesmo jeito. Não merecia aquela ajuda e a tinha da mesma forma.
Não entendia o porquê, o que sabia é que me sentia péssimo. Não, não era Nara a culpada por isso, era eu mesmo e minhas atitudes deploráveis. Pouco importa as razões do que aconteceu naquela aula de Educação Física, porque nada, absolutamente nada, se comparava ao nível de sacanagem que fiz.
-Por… por quê?
Minha pergunta foi acompanhada de lágrimas, as mesmas que tinha segurado naquele momento na sala do diretor Murakami. Não tinha mais razão de segurar elas e escorriam com uma facilidade impressionante. Senti meu nariz começar a entupir, mas não queria parar; não queria e nem conseguiria. Nara apenas me olhava, abismada. Era bem notável que não esperava por isso.
-Eu… eu fui um maldito escroto com você, Nara. – minha voz era fraca e fazia esforço para que estivesse audível. – Eu duvidei de sua história, te desrespeitei na sua própria casa, te… te deixei sozinha quando mais precisava de companhia. Por que você tá me ajudando? Eu não… eu não mereço isso. Você… você não deveria estar perdendo tempo com pessoas tão imbecis quanto eu.
E, acima de tudo, ela não sabia o que fazer ou dizer. Ótimo. Além de tudo, ainda a deixaria com vergonha e achando que eu estava chorando por sua culpa.
Sua expressão tinha mudado, porém. Ela parecia triste e segurava seu braço esquerdo com sua mão direita. Era a mesma ação que tinha feito no final daquela batalha na primeira aula de Educação Física. Já estava prestes a ouvir um “me desculpe”, o que me faria sentir ainda mais idiota do que o normal.
Só que não foi o que ela disse.
-Pedro… você lembra daquela pergunta que fez logo antes de sair da minha casa?
Tentei me controlar. As lágrimas ainda escorriam, mas a prioridade do meu rosto era se mostrar curioso agora.
-“Por que você se aproximou de mim?”. – repetiu as minhas palavras enquanto prosseguia. – Lembra disso?
Enxuguei o máximo de lágrimas que pude antes de responder.
-Sim. – minha voz ainda estava trêmula e fraca. – Eu lembro.
-Eu não lhe respondi na hora e não era por estar nervosa com você. Não lhe respondi simplesmente porque… não sabia a resposta.
Voltava a me fitar no meio de sua pausa.
-Claro, tinha a resposta padrão. – continuou. – “Me aproximei de você pela forma que reagiu com Akemi”. É, não deixava de ser uma boa resposta, mas não era a verdade… pelo menos não toda a verdade. E, por muito tempo, pensei no assunto. Naquela mesma noite.
Mais uma vez interrompeu suas palavras, mas aguardei que prosseguisse.
-Não é que eu seja um exemplo de heroína, sabe? Eu sei, parece bem irônico dizer tal tipo de coisa e, ao mesmo tempo, fazer parte da Liga, mas ainda tenho muito o que aprender. Não é que eu tenha costume de defender todo aluno em perigo, também, mesmo que seja o certo a se fazer.
Era perceptível que sentia vergonha por aquilo e seu semblante mostrava isso muito bem. Aqueles olhos laranja escuros não estavam me observando, mesmo que estivessem me olhando.
-Então, não, eu não lhe ajudei porque achava o certo. – acrescentou. – Eu lhe ajudei porque me vi em você. A mesma atitude, ingênua… ou corajosa, ou os dois. Não sei, depende do ponto de vista. O que importa é que me identifiquei nas suas atitudes. Eram… incrivelmente iguais às que eu tive. A mesma prepotência, a mesma inconsequência… e a mesma coragem. Já tinha dito algo parecido antes, então essa parte não é nenhuma novidade.
E não era mesmo. Lembro de tais palavras logo no primeiro dia.
-Mas aquilo só justificava porque lhe ajudei. Ainda tinha toda a situação de continuar falando com você e você tinha um excelente ponto: eu já estava acostumada a ficar sozinha, então por que agora? Para entender isso, tentei entender a minha outra amizade, a Yasu.
-Foi a que lhe ajudou no hospital depois do seu primeiro dia de aula na Chikara?
Minhas palavras não estavam mais trêmulas e a razão da minha assertividade na pergunta era, provavelmente, a curiosidade. Nara voltou a sorrir, depois de muito tempo, ainda que tal feição tivesse uma intensidade bem menor do que o normal.
-Sim. – disse. – Ela mesma. Quer saber o que ela tinha de especial em relação a qualquer outra pessoa?
O ideal seria que eu falasse um “o quê?”, mas tudo que saiu foi um “hum?”. Felizmente serviu da mesma forma.
-Ela sabia da minha condição e não me tratou diferente por isso. Na verdade, nunca se importou. E não é que não soubesse dos poréns; ela sabia que poderia se machucar se eu “explodisse”… digo, conheço a Yasu desde que tínhamos sete anos. Ela nunca sentiu medo, ou fez piada sobre o assunto. Seu comportamento era… bastante curioso para dizer a verdade. Qualquer dia desses eu te conto os detalhes.
Apesar de estar interessado em saber sobre os “detalhes”, não forcei Nara a dizer nada que desvirtuasse o assunto. Ainda teríamos muito tempo para conversar sobre tal tipo de coisa, afinal; a importância do momento era outra. Ela apenas prosseguiu.
-E então, Pedro, notei que você fez o mesmo. Na sorveteria, você deixou claro que sabia sobre o hiperimperium e não me tratou diferente por isso. Eu… me senti feliz. Senti que não estava perdendo tempo ali. Senti que poderia ter outro amigo que não fosse a Yasu, ainda mais com nossa amizade perdendo a força por termos ido para colégios diferentes.
Desviou seu olhar mais uma vez. A diferença é que não sentia vergonha agora e sim parecia até mesmo… feliz.
Eu… tive que rir. Não é que estava caçoando Nara, mas sim que aquilo também fazia parte do “pacote de coisas que aconteceram sem meu controle”. Sequer sabia sobre as desvantagens de sua condição e se tinha agido com neutralidade, aquela era a razão. Tudo bem, poderia usar em minha defesa aquela atitude completamente inconsequente e idiota que tive em sua casa, já que agi daquele jeito depois de saber tais detalhes, mas se a tinha tratado como trataria qualquer pessoa foi simplesmente pela razão de que não sabia. De certo, era bem provável que não mudaria minha atitude se soubesse do mesmo jeito, só que era muito mais difícil de dizer isso sem saber como seria na prática. Agora eu não me importava, mas e no primeiro dia?
A vida era muito engraçada, afinal.
Eu tinha a certeza absoluta que aquela sorte não permaneceria do meu lado o tempo todo e algo tinha que ser feito em relação a isso. Nada de “começar amanhã”… tinha que começar agora mesmo.
-Nara, muito obrigado, de verdade, por hoje e desculpe por ter agido como um imbecil naquele dia. Não vou fazer isso de novo.
Ela voltou a olhar para a minha direção. Não sei dizer se tinha notado o meu riso de momentos atrás, mas se notou, não se importou ou interpretou da forma correta. Seu sorriso ainda estava lá.
-Não se preocupe. – respondeu. – Todos nós fazemos besteira de vez em quando, mesmo com amigos. O que importa mesmo é que você entendeu que errou.
“Mesmo com amigos”.
“É o que amigos fazem, não é?”.
Eram frases diferentes e ditas por pessoas que não gostavam muito uma da outra, mas também eram bastante parecidas e tinham sido faladas para mim.
Naquele momento, eu finalmente entendi.
Considerava que minha amizade com Akemi tinha nascido simplesmente por nossos gostos parecidos… não era bem assim. “Gostos parecidos” era somente uma das características que ajudavam, só não a principal delas. Eu virei amigo da baixinha porque ela me ajudava sem esperar nada em troca. Estava devendo muito a ela, mas ainda assim não tinha me cobrado a “dívida”. Ela não se importava com isso, chegando até mesmo ao ponto de sofrer uma suspensão com um sorriso no rosto. Nara se arriscou hoje pelo mesmo motivo. Ela não precisava ter feito isso, mas fez e eu me sentia agradecido do mesmo jeito.
Um dos meus amigos de infância, o Rafael, permanecia sendo meu companheiro por uma razão parecida. Não éramos exatamente parecidos, o que não impediu em nada que fôssemos amigos desde a infância. Foi simplesmente bobo de minha parte achar que existem motivos para uma amizade. Ela… só acontece. Às vezes você apenas gosta da companhia da pessoa, enquanto em outras vocês compartilham gostos; não importa. O que importa é que você estará lá por ela quando ela precisar de você… e o mesmo vai acontecer no vice-versa.
Era esta atitude que eu precisava ter com amigos. Seja Nara, Akemi, Rafael ou até mesmo Himari. Se tinha uma coisa que ainda fazia sentido era a de que uma amizade não funciona somente por uma via. A diferença era que eu achava que os outros eram a “via inoperante”. Não. Era eu. O tempo todo.
Sempre me achei mais humilde do que realmente era. Ainda tinha muito o que aprender.
-Podemos… podemos almoçar juntos de novo na semana que vem?
Não sei porque senti tanta vergonha em chamar Nara para algo que tínhamos feito sem nenhuma hesitação quando mal nos conhecíamos. Talvez nunca tinha pensado no assunto, não sei dizer. Ela não parecia ter entendido o sentido daquilo e precisou de uns instantes para voltar a sorrir e responder.
-Não vejo porque não.
Também sorri quando lembrei daquela frase que não ouvia há muito tempo.
-Bem, eu vou me indo. Já está bem tarde e ainda tenho muito o que fazer por hoje.
Oh, é verdade. Estávamos na porta o tempo inteiro e sequer tinha convidado Nara para entrar. Sou realmente um poço de educação às vezes.
-Eu… desculpe, fiz você ficar aí em pé o tempo inteiro. – eu disse, após ter notado aquilo. – Deveria ter te chamado para entrar. Bem, se você quiser, ao menos posso lhe dar água para sua caminhada.
Seu sorriso agora era acompanhado de olhos fechados.
-Obrigada, mas não precisa. Tenho uma garrafinha bem aqui e enchi logo quando saí da escola. Vê?
Se referia a uma garrafa que estava em um dos bolsos externos de sua mochila. Estava cheia, mas não parecia muito gelada. Na verdade, não tinha transpiração alguma e deveria estar em temperatura ambiente.
-Oh, espere. Me dê a garrafa.
Ela parecia confusa em relação ao meu pedido. Não questionou, de qualquer forma, e me entregou o objeto. Usei a minha habilidade para gelar a água e fiz isso sem economizar nenhuma energia, o que causou até mesmo o aparecimento da minha aura azul-celeste por um tempo. Parei quando percebi que estava no ponto ou, ao menos, o que eu considerava como o ponto.
-Prontinho. – eu dizia, enquanto entregava a garrafa de volta. – Deve estar bem gelada agora.
Sua expressão de surpresa era bem incomum à sua pessoa. Ver Nara espantada por algo era até mesmo risível. Achei que tinha notado como minha habilidade funcionava naquela nossa última batalha, mas não foi o caso.
-Uau! Você pode gelar coisas?
-S-Sim. – corei. – Não é nada muito especial, na verdade. Qualquer um com alta afinidade em água pode fazer isso.
-Sério? Raramente vejo algo do tipo, Pedro. É impressionante, de verdade.
Sendo bem sincero, nunca tinha pensado em meu poder como algo exatamente impressionante. Não sei dizer se ela dizia isso para ser educada ou se realmente queria dizer tal coisa. Pelo visto, era a última opção.
-Me mostre mais disso na semana que vem. – ela dizia, claramente empolgada. – Quero ver o que consegue fazer.
Era mesmo a última opção. Realmente acabei de impressionar Nara Ennetsu? Mais uma coisa para entrar na lista de “tudo ocorreu melhor do que o esperado” daquele dia.
-Claro. – respondi. – Só não prometo que consiga fazer isso por mais do que alguns minutos.
E nos despedimos. Segui Nara até as escadas para que pudesse acompanhar a sua saída do corrimão do terceiro andar. Ela tinha descido dois degraus e, subitamente, virou para a minha direção.
-Ah, você tá com seu celular aí?
Pensei em questionar o motivo da pergunta, mas não o fiz. Apenas procurei nos bolsos da calça, a mesma do colégio e que ainda vestia naquele momento, onde estava o aparelho. Achei rapidamente e entreguei para ela depois de desbloqueá-lo.
Por um tempo me arrependi de não ter feito tal pergunta, porque agora estava mesmo curioso pela razão dela precisar do celular. Ela passou apenas alguns segundos, como se digitasse algo nesse meio tempo. Até passou pela minha cabeça que estivesse respondendo a Akemi ou parecido, porém não era algo que parecia fazer.
-Pronto. – e me entregou de volta. – Registrei meu número aí. Qualquer coisa, só me mandar uma mensagem.
Oh.
E pensar que passei por pelo menos duas situações que pensei o quanto seria mais fácil ter seu número, mas nunca tive a cara de pau de pedir. Não sei se ela tinha notado tal coisa e agradeço do mesmo jeito.
-Po-pode deixar.
Diabos, por que eu estava gaguejando tanto? Será que aquela era a minha reação por falar sobre coisas mais pessoais com ela? Não é como se tivéssemos chegado a um ponto tão alto de intimidade também, então imagine quando isso acontecesse… não… nem quero imaginar.
E, agora sim, nos despedimos de fato. Acompanhei, do terceiro andar, a garota do fogo descer até o térreo e acenei quando já estava na porta. Ela respondeu o aceno e a observei sumir de vista depois de fechar o portão principal.
Cara… que dia. Não sei o quanto aguentava mais de sentimentos misturados. Precisava descansar e incluía fisicamente junto. Suspirei e olhei para os papéis que Nara tinha me dado e ainda estavam em minhas mãos. Não… ainda tinha algo a fazer por hoje.
-Mas você é mesmo um garoto sensacional, meu rapaz!
O grito de seu Hiro me assustou tanto que quase soltei os papéis. Ele estava no corrimão do segundo andar, em frente a seu apartamento. Ele não era exatamente discreto, porém aquilo passava dos limites. Sorri, completamente sem graça, enquanto acenava para o síndico.
O senhor Miyakawa que me desculpe, mas realmente não poderei conversar com ele hoje. Seja por indisposição e também porque meu dia ainda não havia acabado.
Não tinha problema. Seria uma semana inteira em que não me preocuparia com mais nada além dos meus estudos.