Em algum momento de 609
Cachoeira do Sul, Torugal do Sul
-Falou, cara!
Rafael se despediu de mim, como sempre fazíamos todos os dias depois do colégio. Nossas casas ficavam em lados opostos, afinal.
-Falou. – respondi, enquanto levantava a mão direita em sinal de despedida.
Ele sorriu e seguiu seu caminho em passos rápidos. Precisaria fazer uma caminhada muito maior do que a minha e quanto menos ficasse embaixo daquele sol quente, melhor.
Falando nisso, estava mesmo quente. Ser verão, o céu estar com pouquíssimas nuvens e ser horário de almoço só tornava tudo ainda pior. Tudo bem, só precisava encontrar Lia no caminho e seguiríamos juntos. Cara, hoje é um quarto, então significa refrigerante no almoço! Sim, sim. Isso cairia maravilhosamente bem agora.
Não demorei para chegar no portão da frente do colégio, mas nem sinal dela. Estranho…. estaria ainda em aula?
Encostei na sombra que pude encontrar e que ainda lhe daria uma visão minha, caso aparecesse. Não estava mais sendo queimado pelo sol, pelo menos, mas ainda parecia estar dentro de uma sauna. Seria muito pedir que ventasse um pouco hoje?
Enxuguei um pouco do suor da testa, enquanto verificava se os zíperes da mochila estavam fechados. Sempre fazia aquilo no automático, porém não custa nada verificar de n….
Espera, essa voz….
A maior parte das pessoas já havia ido para casa e não deveria ser surpresa que os alunos saíssem incrivelmente rápido daquele lugar que não necessariamente gostavam, então o silêncio ao redor ajudou. Sim, era certeza, alguma coisa estava acontecendo naquela virada ali. Ainda dentro do colégio, mas não exatamente no caminho de saída.
Poderia ser apenas alunos retardatários? Sim, poderia, algo ainda me dizia que não, porém. Não custaria olhar também e, se não fosse nada…. errado, bastaria apenas fingir que fui beber água no bebedouro mais próximo e logo estaria de volta à saída. É, não é má ideia, eu só precisaria passar por um caminho infernal rodeado de luz solar, infelizmente.
Suspirei e avancei. Tudo bem, na pior das hipóteses, seria recompensado com água. Não exatamente limpa ou gelada, mas ainda água. Cheguei rapidamente naquele canto e a minha primeira visão foi o bebedouro, completamente livre e que me trouxe um sentimento de satisfação…. bem, pré-satisfação, pelo menos. Só durou até olhar na minha esquerda.
Lia estava lá, mas não sozinha e também não me viu, já que contava com um problema maior; um garoto que eu já tinha a certeza de ter visto antes e um pouco mais jovem do que eu, provavelmente da sexta série, estava a encarando. Ou, pelo menos, era o que eu achava que fazia.
-Ora, não se faça de difícil. – falou, com um sorriso maldoso no rosto.
Espera, ele está….
-Sabe? – e continuou. – Uma garotinha sem graça como você deveria se sentir feliz de alguém como eu estar sequer falando com você.
Ele apoiou o braço direito na parede, o que cortou um pouco de minha visão. Não fazia diferença, já tinha visto tudo que precisava.
-Então por que você não facilita as coisas e apenas deixa rol….
Não terminou, eu fiz a questão de interromper. Estava tão focado no que estava fazendo que não teve nem a menor chance de se preparar para o soco diretamente no rosto. Não fiz a menor questão de usar poderes e, ainda assim, caiu como um saco de batatas no chão. Logo reagiu e olhou para mim, claramente indignado e colocando a mão direita onde tinha sofrido o golpe.
Chequei como Cecília estava. Parecia uma mistura de alívio e terror.
-Não está claro o suficiente pra você que ela não quer? – perguntei.
E encarei o garoto novamente. Aos poucos a sua surpresa foi se transformando em uma raiva silenciosa e com dentes a mostra, mas não parecia que iria além disso. Além do mais, minha preocupação agora era outra.
-Lia, você tá bem?
Ela olhou para mim, com uma certa vergonha.
-Eu…. eu….
Pude notar lágrimas nos seus olhos, estava claramente assustada.
-Peu, cuidado!
Ainda assim, seu aviso foi tardio. Antes mesmo de terminar a frase, eu sofri a retaliação. Se minha reação não fosse rápida, seria até mesmo perigoso. Aquele soco foi forte, mas diferente do garoto, eu não caí. Consegui criar uma proteção com meus poderes antes.
Isso não significa que não tenha doído. Felizmente meu queixo ainda parecia no lugar.
-E quem é você? – ele perguntou, com um sorriso debochado no rosto e uma aura esverdeada ao redor do seu corpo. – O namorado dela? Desculpa, mas esse posto já tem dono.
É isso, então?
Tirei a mão do rosto e comecei a rir. Ainda doía, mas se aquela era toda a sua força, uma coisa era bem óbvia….
-Pior. – respondi, calmo. – Sou o irmão dela.
….ele não teria nenhuma chance.
-E você deveria aprender a mexer com quem é do seu tamanho. – completei.
Quase como se não tivesse ouvido e totalmente ingênuo, continuava sorrindo. Vamos ver quanto tempo isso vai durar.
***
Que calor. Que maldito calor. Nenhuma brisa sequer, nenhum sinal de queda de temperatura… nada. Só teria um descanso pela noite, não é? Mas que droga.
Eu e Cecília estávamos fazendo nossa andada diária do colégio para casa. Nunca dois quilômetros pareciam tão longos. Ela também não parecia estar com o mesmo problema que eu e pude confirmar isso quando virei para a sua direção. Desviou o olhar, com certo embaraço.
-Então…. não vai me contar o que foi isso hoje?
Fiz questão de deixar um pouco de julgamento na minha voz. Talvez seria o que minha irmã menos quisesse ter agora, mas era necessário. Sua resposta não veio, apesar de ter esperado pelo menos uma dezena de segundos para tal.
Suspirei. Nem estava tão chateado por ter brigado com aquele garoto, digo, se é que podemos chamar de briga; ele saiu correndo depois da minha segunda investida e de finalmente notar que seria surrado. O silêncio de Cecília sobre o assunto que realmente me incomodava.
-Cecília, fica difícil se você não contar para mim.
Nada de apelidos carinhosos, talvez o nome formal fosse o suficiente para ela notar de que não teria a chance de escapar de uma conversa. Mais sério do que isso só se lhe chamasse pelo nome completo… ou assim eu achava. Ela continuava com a cabeça virada para o lado oposto e olhando para o nada.
Bem, isso só me deixava uma alternativa…
-Tá bom, então. – e virei meu olhar para frente. – Se você não quer me contar, eu vou falar o que aconteceu hoje pra papai e mamãe.
-Não!
Ela voltava a olhar para mim. Hah, aquilo era tiro e queda. Sempre. Me segurei para não sorrir vitorioso, pois poderia ser mais um pretexto para ela desviar o olhar mais uma vez.
-Ok. – falei, calmo, em total adverso à sua reação. – Pode começar.
Quase como se arrependesse do que tinha feito, desviou o olhar mais uma vez e parecia pensar no que falar. Esperei com paciência.
-Eu não gosto do Carlos.
Carlos, hein? Então esse era o nome dele?
-E por que você não gosta dele? – perguntei, tentando seguir a conversa.
-Porque ele é… estranho.
-“Estranho” como?
Era claro que estava incomodada com tantas perguntas, mas não havia como chegar em conclusão alguma se ela não dissesse nada. Dessa vez, levou um tempo para responder.
-Ele é um menino bem legal quando tem mais gente junto, mas sempre fala aquelas coisas quando ‘tamos sozinhos.
Oh. Ok, eu acho que entendi.
-E ele já tentou alguma coisa com você?
Apesar da minha eloquência, fiz a pergunta com um certo temor da resposta. Não sei dizer se Cecília entendeu bem, estando mais confusa do que realmente compartilhando o mesmo sentimento.
-Alguma coisa? – perguntou, confirmando a confusão. – Tipo?
-Lhe beijar.
Provavelmente envolveria muito mais coisa do que apenas um simples beijo, mas vamos por partes, eu acho. Analisei a sua reação, já esperando que fosse mentir se algo estivesse errado, porém ela só me olhava, curiosa.
-Ahh! – e ficou envergonhada. – Então é isso que ele quer? Eca! Eca!
Hah. Tá, aquilo me causou uma gama de sentimentos, em que o alívio se destacava entre eles. Ela não responderia com tanta inocência assim se ele tivesse lhe arrancado um beijo e para mim era mais do que o suficiente. Diabos, até me sentia um pouco culpado pelo que fiz hoje.
Acabei rindo. Aquela confirmação de estar exagerando era tão… descarregadora. Finalizei com um tapinha carinhoso na sua cabeça.
-Não é culpa sua, maninha. Você só tem dez anos, afinal.
Ela me olhava, ainda confusa e provavelmente sem entender nada da minha reação. Mudei para um semblante mais sério e tentei ser mais direto.
-Mas da próxima vez que algo do tipo acontecer, me conte, tá bom?
E pareceu ter entendido a seriedade. Voltou a olhar para frente e hesitando um pouco para responder um simples “tá”.
Voltamos a caminhar em silêncio e enxuguei mais um pouco de suor da testa. Nem mesmo a água que bebi antes de sair do colégio foi o suficiente para me suprir. Que inferno.
-Escuta… – comecei a dizer, com uma certa rouquidão inicial. – o tal do Carlos não é o garoto certo pra você também.
-E eu nem quero! Beijar é nojento!
Acabei rindo, mas com uma certa cautela, porque precisava confirmar algo antes.
-Como você sabe? – perguntei e me aproximando com uma expressão ameaçadora. – Já tentou?
-Claro que não! E nem quero!
É, aquilo era o suficiente. Se ela estivesse mentindo, ficaria nervosa antes da resposta, com toda a certeza. Ela não fazia a mínima ideia do que era um beijo e que continuasse assim. Não é que eu era um irmão superprotetor ou algo do tipo, mas vamos ser sinceros aqui: dez anos é muito cedo.
-De qualquer forma, não deixe as pessoas lhe forçarem a nada. – falei, dessa vez com o tom mais sério que pude. – Se você não quer, não quer e acabou, entendeu? Não tenha medo de dizer um “não” se não quiser.
É, era fofo que fosse tão inocente, mas não era nada fofo lidar com situações assim. Pior do que passar por isso era passar por isso sem nem saber o que era.
Cecília me deu atenção enquanto eu dava meu sermão, porém não respondeu e apenas olhou para a frente, pensativa. Imagino que recebeu a mensagem, então era mais do que o suficiente para mim.
Finalmente estávamos perto de casa e já conseguia imaginar aquele refrigerante geladinho e o almoço reforçado que só mãe conseguia fazer. Era quase como se eu conseguisse sentir o gosto na minha imaginaç-
-E se você não tiver por perto?
-Hã?
Que espécie de pergunta era aquela?
-Eu não acho que o Carlos ia parar hoje se você não tivesse aparecido, maninho. E se ele…
E se interrompeu, engolindo a seco.
Bem, aquele era um ponto bem relevante para dizer a verdade e me admirava o quanto ela parecia inocente na questão de não saber sequer o que era um beijo, mas tinha a total noção da situação ao mesmo tempo.
O pior é que eu não tinha nenhuma resposta digna para dar. O que eu poderia dizer, então? Eu…
-Eu vou estar lá. – respondi.
…deveria mentir?
-Eu vou estar lá, sempre que precisar, Lia.
Dar uma resposta confortável, mesmo que falsa?
-Se ficar com medo, é só me chamar que eu vou lhe proteger, tá bom?
Tarde demais. Eu não sabia o que dizer, então saiu aquela coisa… brega. Brega e não verdadeira. Ah, cara, isso vai ricochetear no pior momento possível, não é? Bem, brega ou não, verdade ou não, foi o primeiro sorriso que vi da parte dela desde aquele ocorrido. Era uma sensação estranha de alívio e culpa ao mesmo tempo.
-Tá!
E foi tudo que respondeu, antes de entrar na casa, alegre e falar com a mãe sobre o seu dia de escola, provavelmente ocultando os últimos eventos.
Que ótimo. Como vou cumprir o que prometi agora? Eu sabia que tinha exagerado e prometido algo que em algum momento falharia. Mas que porcaria. De certo, ela ficou feliz, então… bastava por hoje?
Talvez sombra e refrigerante fresco me ajudassem a pensar melhor.
Primeiro – 11/15/612 – 16:13
Atarashi – Yukopan
…
Espera… o quê?
Ela… ela…
O que ela fez?
O que ela acabou de fazer?
-Oh, eu não fiz tanta força assim…
O corpo de Cecília estava imóvel no chão. Ela já deveria… ter reagido, não é?
-Bem, menos mal. Significa que ela não sofreu tanto. Até porque não é ela que merece mesmo.
Cecília! O que você está fazendo? Mexa-se! Ela já lhe soltou!
-Então, Pedrinho…
Saia daí! Saia, agora! Não sabemos o que ela pode fazer com você se você continuar aí!
-…não quer me mostrar um pouco do resultado do treinamento que teve com Nara?
Espera… hã?
-Oh, parece que assim eu consegui chamar sua atenção.
Misaho estava sorrindo e passou a rir, quase como se tivesse escutado uma das piadas mais engraçadas de toda a sua vida.
-O quê? – continuou, ainda rindo. – Acha que era segredo quando vocês treinam no único ginásio dentro do colégio? Por favor…
Ela começou a andar na minha direção em passos lentos e sonoros. Quando passou por Cecília, apenas levantou o pé, exatamente como se estivesse querendo evitar algum lixo jogado no chão. Não demorou muito para que estivéssemos cara a cara. E… eu não consigo me mover, sequer faço ideia de como reagir.
Misaho ficou me analisando por alguns instantes e então segurou o meu queixo com sua mão direita. Não havia nenhuma violência na sua ação, apenas suavidade e carinho. Era tão contraditório que chegava a ser assustador.
-Deixa eu te dizer uma coisa: aqui a gente resolve as coisas desse jeito. – sua voz era tão suave quanto a sua mão. – Os mais fracos se ajoelham para os mais fortes. O que significa que temos um problemão aqui, não é?
A garota moveu minha cabeça levemente para a minha esquerda. Seus movimentos continuavam suaves.
-Você não só desrespeitou essa regra com veemência, como não ligou para as consequências em nenhum momento. As coisas não podem ficar assim, não acha? É injusto.
Seu sorriso foi murchando aos poucos e soltou o meu queixo logo em seguida. Agora apenas me observava com um olhar de raiva e julgamento misturados.
-Mas que bom que eu estou aqui para ajeitar as coisas, não é?
Depois disso, não houve muito tempo para pensar no que fazer.
Misaho socou o meu rosto, completamente sem aviso, exceto o ambíguo que tinha falado logo antes. Fez questão de usar parte do seu poder para isso e era possível de confirmar isso só por ver o quanto voei longe. Arrastei sem nenhuma reação pelo chão liso quando aterrissei e foi finalmente quando senti a dor do processo. Tudo parecia no lugar, externamente, porque senti que alguns dentes se soltaram.
Quase como se fosse o catalisador, finalmente consegui reagir. Coloquei a mão no rosto por impulso, com uma dor intensa. Nunca havia sentido algo assim antes, nem mesmo nos meus poucos embates no Chikara. Era quase comparável ao poder da baixinha, exceto que o dela não causava nenhum estrago permanente.
Gemi de dor e sem saber o que fazer. Pensei em ativar meus poderes, mas sabia que não teria muito controle e isso poderia ser péssimo se não fizesse de forma estratégica. Tentei me levantar e imediatamente senti o sangue jorrando dentro da minha boca. Ao cuspir, dois dentes acompanharam o sangue e notei um pouco escorrendo, mesmo depois de tentar tapá-la.
Ouvi uma risada característica ao longe.
-Você nem ativou os seus poderes? Como pode? Quer morrer mais rápido?
A voz veio da mesma distância, mas quase que instantaneamente depois, ela já estava do meu lado, carregando um pouco de brisa consigo. Tentei olhar para a sua direção e fui impedido pelo meu cabelo sendo puxado.
-Nem se atreva a morrer rápido. Não ache que vai ter a mesma sorte da sua irmãzinha.
Fui arremessado novamente. Ativei os meus poderes dessa vez, mas nada adiantou, exceto em diminuir o impacto da queda. Ainda capotei algumas vezes, antes de finalmente parar.
Era difícil de se concentrar em qualquer coisa com aquela dor intensa. Todo o lado esquerdo do meu rosto estava dormente, quase como se eu estivesse tendo um derrame, ou, pelo menos, era assim que achava que um derrame seria.
Tentei me mover e foi quando finalmente notei que estava do lado de Cecília. O corpo dela estava no mesmo lugar, ainda imóvel.
-…Lia?
Tossi no mesmo instante, cuspindo mais sangue no chão, em menor quantidade do que antes. Minha voz estava impressionantemente rouca.
Ela não respondeu.
Tentei me aproximar como pude. O rosto não dava nenhuma trégua, mas o resto do corpo ainda respondia bem. Foi quando finalmente notei.
Seus olhos estavam abertos e sem vida.
Não…
Não.
Não.
-O que foi?
A voz da Misaho foi a última coisa que ouvi antes de ser chutado na barriga e arrastado por mais alguns metros adiante. Tossi mais uma vez e mais uma vez acompanhado por sangue, agora sentindo dor em dois lugares diferentes.
-Eu quebrei o pescoço dela. Você não ouviu ou o quê?
Hã?
-Tenho a certeza que fez um sonoro “crack” ainda. – ela continuou, com normalidade. – Ela já deve ter parado de respirar minutos atrás. Mesmo se Akemi estivesse aqui, já seria tarde demais.
Ela está… sorrindo. Por que ela está sorrindo?
Como ela consegue falar tais coisas tão naturalmente assim?
-Aliás, o que está esperando? Que ela venha lhe ajudar ou algo assim? Desista. Ela não vem.
Como você pode estar rindo depois de ter matado alguém?
-E lamento lhe dizer, mas a sua amiguinha Nara também não virá.
Quem é você?
Quem é você?
Quem você acha que é para tirar a vida de alguém e sair como se isso não fosse nada?
-É só você e eu, Pedrinho.
Engula esse sorriso, filha da puta. Agora! Agora!
-Não se preocupe… eu vou lhe tratar muito bem.
E o que eu estou fazendo?
Não faz diferença que seja Misaho, eu preciso fazer alguma coisa.
Ela tem razão, mesmo que seja pelos motivos errados. Isso é injusto. Causar bullying pelos arredores já é ruim, mas isso é inaceitável.
Não posso deixar essa dor me dominar. Pelo menos não até terminar. Não posso me deixar ser intimidado pelo seu riso de desdém agora também.
Levantar raras vezes foi tão difícil assim. Não sabia se deveria colocar a mão na barriga ou no rosto. Sinceramente, não sabia diferenciar qual parte doía mais. Deveria esquecer aquilo, não é importante. Repetia tal frase incessantemente na cabeça, na esperança que ela se tornasse uma verdade.
Não faço a menor ideia do que eu preciso fazer, eu só… eu só preciso fazer alguma coisa, qualquer coisa.
-Cara, você é mais fraco do que eu pensei! – e continuou rindo. – Dois simples golpes e você já está acabado!
Mesmo com os poderes ativos, não consegui acompanhar os seus movimentos até que estivesse ao meu lado, assim como não acompanhei mais uma de suas investidas: um soco na barriga. Misaho fez questão de me segurar, para que eu não voasse longe daquela vez.
Riu mais uma vez, enquanto a dor se alastrava rapidamente.
-Assim não tem graça, não acha? – sussurrou no meu ouvido. – Você precisa resistir mais, Pedrinho. Vamos lá, você consegue.
Me soltou logo em seguida e caí de joelhos no chão, precisando me apoiar para não bater a cabeça.
Estava sendo humilhado, essa era a verdade. Quando me socou, sequer notei a existência de sua aura. Não estava nem mesmo se esforçando para acabar comigo. Era apenas uma questão de tempo para que eu alcançasse o mesmo estágio que o de Cecília.
Isso não era bom. Merda. Merda.
-Ei, quer saber o que eu acho?
Não olhei para ela e nem conseguiria. Ainda assim, Misaho esperou por algum tempo pela minha resposta e continuou depois de notar que esta não viria.
-Eu acho que você ainda está na esperança que Nara apareça saindo do vestiário para lhe salvar. É isso, não é?
O que ela estava dizendo, afinal?
-E se eu lhe mostrasse que Nara nem está lá?
O… o quê?
Olhei para ela, que soltou um sorriso debochado no mesmo instante de ter percebido que estava sendo observada. O que ela queria dizer com isso?
-Veja você mesmo.
Me arrependi de ter feito tal pergunta, mesmo que mentalmente. Antes que pudesse ter qualquer reação, Misaho segurou o meu corpo e me arremessou, como uma bola de beisebol, em direção à porta do vestiário feminino. Não foi um arremesso comum e sim forte o suficiente para que meu corpo quebrasse a porta no processo.
Saí rolando sem quase nenhum controle até o meio da sala. Se havia algo para agradecer era pela decisão dela de ter me jogado pela porta e não pela parede, ou acumularia alguns ossos quebrados.
Ao finalmente olhar ao redor, foi quando sofri o primeiro choque de realidade.
O vestiário estava vazio. Os armários estavam todos em seus lugares e o lugar em si parecia limpo o suficiente, se ignorar a bagunça dos pedaços de madeira espalhados pelo chão, claro, mas… não havia mais ninguém. Eu era o único ali dentro.
Isso… isso não faz sentido. Eu tenho a certeza que vi Nara entrando aqui.
Não havia entradas ou outros aposentos. Os chuveiros não eram separados e todos estavam sem funcionar e vazios. Havia apenas armários no meio da sala, como uma divisória e eu tinha a visão de ambos os lados. Nem mesmo dava para cogitar que ela fugiu pela janela ou algo assim, já que estas eram bem pequenas, em que não passaria nem mesmo uma criança.
Por… por quê?
-O que foi que eu lhe disse, Peu?
Misaho entrou na sala, ainda sorrindo e estalando os seus dedos da mão direita. Quando passou pelos restos da porta, derrubou o armário mais próximo, causando um estrondoso barulho e criando uma espécie de barricada.
-Ninguém vai lhe ajudar. É só você e eu.
Ela… ela tem razão. Não faz sentido algum, mas ela tem razão.
Por quê? Por quê? Onde está todo mundo? Ela simplesmente está fazendo o que bem quer sem a interferência de ninguém. É como… se não existisse ninguém.
Nenhuma ajuda vai vir.
Ninguém vai aparecer.
Se nada fizer, eu vou morrer.
Ela não hesitou em matar a Cecília, por que seria diferente comigo?
Eu… eu preciso fazer algo. Mas o quê? Eu não sei o que… ugh.
-Vamos, reaja!
Misaho lançou um jato de água tão forte quanto era rápido. Quando finalmente consegui reagir, já tinha me chocado com a parede. Ao cair no chão, notei que parte do concreto veio comigo. Dessa vez alguns ossos quebrados também me acompanharam.
-Lute pela sua vida, seu inútil!
Por que eu não consigo reagir? Que merda está acontecendo?
Toda vez que penso em alguma espécie de reação, o corpo simplesmente congela e não da mesma forma que meus poderes. Ela é simplesmente bem mais rápida que eu, quase como se tentasse enfrentar o chefão final estando no primeiro nível de um jogo.
Eu fracassei. Fracassei feio.
Sempre contei que alguém ia me salvar no último instante e agi pelo impulso. Falei coisas que não deveria, fiz coisas que não deveria e aqui estou, sendo massacrado por uma das pessoas em que mexi.
Fui um maldito de um egoísta e agora estou pagando por isso.
Merda.
Merda.
Merda.
Tentei me levantar mais uma vez, em vão. O corpo estava quebrado, no sentido figurativo e literal. A simples contração nas costas revelava que estava tudo fora do lugar lá atrás, isso ignorando a dor incessante e latejante. Mesmo ouvir estava difícil, com tudo abafado, ao ponto que me perguntei se ela tinha parado de rir. Os passos estavam mais próximos, mas o riso não estava mais lá. O qu…
-Desapontada, mas não surpresa.
Sua voz parecia vir de muito longe, porém eu tinha a certeza que estava logo na minha frente.
-Que você não é grande coisa eu já sabia, mas esperava um pouco mais de resistência.
É, eu também.
-Nem vai cumprir a sua promessa com a sua irmã?
O… o quê?
Mesmo para abrir os olhos foi quase uma tortura. A pouca iluminação do lugar machucava e precisei fazer um esforço para mantê-los aberto. Misaho estava agachada na minha frente e me fitando com certa… decepção.
-Do… do que você tá falando?
Falar foi o suficiente para perceber que haviam algumas perfurações lá atrás. Minha voz era rouca e fraca, mas o silêncio do lugar ajudou para que a minha nêmesis entendesse as minhas poucas palavras.
Ela colocou a mão no meu rosto, o que acabou causando um pequeno sobressalto em mim. No final, parecia estar… ajeitando meu cabelo. O…
-Ora, do que você acha que estou falando? – começou a dizer, de forma suave, enquanto abria um sorriso. – É claro que é da promessa bonitinha de que você iria protegê-la para sempre.
Hã?
Espera… espera um momento aí!
-É por isso mesmo que a matei. – a voz suave ainda estava lá, enquanto ela prosseguia. – Esperava que isso lhe desse sede de vingança, o suficiente para que você lutasse a sério.
Como…
-Mas pelo visto eu estava errada.
Misaho se levantou e fechou os olhos enquanto coçava os seus cabelos, até voltar a me olhar de novo, dessa vez sem nenhum sorriso em seu rosto.
-Valeu a tentativa, mas…
E se interrompeu, voltando a sorrir novamente e com a mesma maldade de antes.
-…acho que posso fazer você ainda implorar pela sua vida.
…
Espera… isso confirma tudo. Nada faz sentido. Nunca fez.
O corredor vazio, o colégio sem nenhum pé de gente em pleno torneio, Cecília estar aqui, Nara entrar em uma sala e sumir e, principalmente… ninguém, absolutamente ninguém mais sabe sobre a promessa que fiz para Lia.
Claro, existia a possibilidade dela ter contado para alguém e isso espalhou, mas… ela já me disse que nem nossos pais sabiam! Em uma das nossas conversas recentes, ela fez a questão de falar isso baixo porque achava tal promessa fofa, mas vergonhosa de admitir tal coisa e não queria que pai e mãe ouvissem. De todas as pessoas que ela poderia contar, certamente a Misaho não estaria na lista.
Além do mais, como sequer Cecília tinha falado com Misaho? É claro, ela poderia ter aprendido yukoponês e essa até poderia ser uma possibilidade válida, se desconsiderássemos o fato que ela nunca quis aprender tal língua. Mesmo nos meus estudos, ela se interessou de início e desistiu no instante que notou que aquilo era inútil para ela.
São muitas contradições. Mesmo que pareça real, também parecia real antes.
-Então, eu ficaria feliz com alguns gemidos seus. Vamos fazer desse jeito…
Misaho segurava a minha cabeça pelos cabelos, elevando a mesma para metade da altura de uma pessoa.
-Que tal você me dizer umas últimas palavras? – perguntou, nitidamente alegre.
Hah.
Sim, você tem razão, serão mesmo as “últimas palavras”. Já entendi, finalmente entendi.
-Tarde demais!
Claro que ela não me deu tempo de falar nada, era o esperado, era o que estava seguindo o padrão. Certo, isso vai doer, mais do que tudo doeu até aqui. Então vamos acabar com tudo, não é?
–CHIKARA NO KYOTEN!
Gritei, a plenos pulmões. Fiquei até mesmo impressionado com a força que saiu.
Meu rosto nunca se chocou com o chão.
Abri os olhos.
Sim, eu já conhecia aquele lugar. Não que houvessem muitos detalhes para tentar diferenciar de outros semelhantes, afinal. Era o mesmo lugar do início da simulação. O mesmo branco por todos os lados e um silêncio ensurdecedor.
Não foi nenhuma surpresa para mim e não foi à toa que falei a “frase de segurança”. Eu sabia. Me enganou por um tempo, mas quando a falei, já tinha certeza.
Ri, como não havia rido há muito tempo. Era uma mistura de alívio com raiva. Sim, raiva. Que não seja verdade, ainda estava bastante revoltado com o que tinha passado.
-Me pegaram direitinho! – praticamente gritei. – De verdade! Bom trabalho!
Eu sabia como era bem idiota esbravejar para o total branco ao meu redor; não é como uma pessoa pudesse ouvir. Falar o que estava na minha mente era desnecessário, porque era certeza que a simulação já havia guardado tudo. Ainda assim… era quase como um desabafo.
-Eu achei que ia morrer… e se eu não falasse a frase de segurança, o que aconteceria? Acordaria logo antes, como se fosse um sonho? Sentiria toda a dor da morte e, ao abrir os olhos, estaria aqui? Droga, isso não foi nada engraçado… eu…
Isso não foi nada engraçado mesmo. Caralho.
Por um momento, achei que fosse morrer da forma mais humilhante possível e, de quebra, que minha irmã ia junto. O que meus pais iam pensar? Diabos, eu nem faço ideia de como é perder dois filhos ao mesmo tempo e nem quero saber.
Além disso, o que eu estou fazendo aqui? Já falei a frase de segurança, não é? Então…
-Só… só me tire daq-
Não consegui completar a frase, sendo surpreendido pelo guardião da simulação aparecendo subitamente na minha frente. Mas é claro. Ainda estava com o mesmo “disfarce”, se passando por Nara com o mesmo vestido estonteante e, exatamente como antes, não havia nenhum semblante destacável no seu rosto, com o mesmo olhar de peixe morto e expressão neutra. Claro que agora ele… ela? Sei lá, aparece.
Acabei rindo mais uma vez, dessa vez de nervosismo e indignação.
-Parece que você se divertiu, não é?
Não houve resposta. Ele apenas continuava ali, me observando e sem sequer me analisar ou algo do tipo.
-Espero que tenha se divertido mesmo, porque não foi uma experiência nada legal para mim.
Nenhuma mudança. Ele não iria responder, então? Sinceramente, estou mais do que cansado daquele maldito joguinho.
Suspirei.
-Quer saber? – perguntei, diminuindo o tom. – Apenas me tire daqui. Falei a frase de segurança e perdi, fim de papo. Só quero voltar para a vida real, por favor.
Não havia nenhuma mentira no que falei; o que eu menos queria passar agora era por alguma aventura equivalente. Isso foi estressante, no mínimo. Aquela montanha-russa absurda de emoções era demais, até mesmo para mim. Chega.
E sério que ele não vai fazer nada? O que ele quer agora? Me prender na simulação? Vamos lá, apenas acabe com is-
-Você é mesmo um garoto incrível, Pedro Cardoso.
Finalizou aquela única fala com um sorriso no seu rosto e acompanhado pelos olhos fechados, o primeiro que eu vi desde o início. Não era um sorriso falso, trazendo até um certo conforto. Por mais que viesse de alguém parecido com a Nara, ainda tinha uma característica bem diferente dos seus.
Nem tive tempo de ter alguma reação além de tal análise vaga. Tudo ficou escuro logo em seguida e passei a ouvir coisas ao meu redor, um ambiente, que não estava ouvindo há tempos. Mesmo que não pudesse comprovar, eu sabia: estava de volta à vida real.
Quase como se viesse como constatação, meus óculos foram levantados. A mesma Sasaki da… bem, simulação da simulação, estava lá, me observando enquanto fazia algo no seu tablet. Por mais que não fosse a mesma da simulada, demonstrava uma expressão incrivelmente parecida.
-Finalmente. Já estava prestes a lhe deixar aí.
Bem menos debochada, ao menos?
Senti o mesmo efeito de acordar de um sono pesado quando tentei me levantar. A cabeça estava tão pesada quanto e sentia uma dor incômoda, em que precisei colocar a mão para amenizar. Comparado ao que sofri na simulação, era quase como se estivesse no paraíso.
-Fui o último a acordar, então? – perguntei, quase retoricamente.
-Sim. – e voltou a atenção para o seu tablet. – Quase uma hora depois do último. Já estavam prestes a chamar o pessoal da enfermaria pra você.
Uma hora depois? Não basta ser eliminado, precisa ser com estilo.
Me sentia até meio mal por não estar tão preocupado assim com tal eliminação, mas bem… passei por tal perrengue várias vezes só nessas preliminares. Foram tantos quases que simplesmente não ligo mais. Eu sei que deveria estar me importando, principalmente depois de tomar tanto tempo de Nara e que ela poderia usar em… bem, seja lá o que ela gosta de fazer no tempo livre e, ainda assim, era como se eu apenas estivesse vacinado.
Mais uma vez me pegava pensando naquilo. Será que estava controlando melhor a ansiedade? Sempre ouvi que uma mudança de pensamento poderia ajudar, só nunca havia testado na prática. Digo, não é como se fosse tão fácil assim, afinal.
Chegar naquela conclusão me fez rir. É, estava rindo pelos motivos mais inesperados hoje.
-Tá, não vou tomar mais seu tempo e vou para casa.
Por algum motivo, aquela simples frase fez com que Sasaki me olhasse torto.
-Do que você está falando?
Ué.
-Oras, não tenho porque continuar por aqui por hoje se estou desclassificado. – respondi, ainda sem entender a sua reação. – Amanhã volto para assistir os jogos.
Dessa vez, ela não respondeu e apenas apontou para algo do meu lado esquerdo. Era o monitor e também estava diferente do que era na simulação.
Nada de letras garrafais dizendo apenas “classificado” ou “desclassificado” e sim algumas informações detalhadas sobre mim, incluindo meu nome em caracteres ocidentais, idade, classe… nada que eu mesmo já não sabia e também nada intrusivo. A última linha que era a mais importante de todas, dizendo “Resultado da prova: classificado”.
Mas… hein?
-Eu não sei como funciona, sendo bem sincera. – Sasaki começou a dizer, dando de ombros e provavelmente vendo minha confusão. – Apenas fui instruída a acreditar no que essa máquina está dizendo. Parabéns, você é o octogésimo classificado.
E mais uma vez… mais uma coincidência ao meu favor. Se há alguém lá em cima, esse alguém parece gostar muito de mim. Ainda assim, espera aí…
-Isso… isso não faz sentido algum. – gaguejei, enquanto juntava os pontos. – Se eu fui o último a acordar, como eu me classifiquei? Além do mais… octogésimo? Não eram cento e vinte e oito?
Ela suspirou.
-Você faz perguntas demais. A maior parte dos alunos só fica feliz em ter passado.
Virou de costas para mim e sem responder nenhuma das minhas perguntas, andando a passos largos para a saída. Ah, ótimo.
Não vou negar, ela tinha a sua razão. Mais uma prova se passou e mais perto eu estava de cumprir meu objetivo aqui. Do que eu estou reclamando? Eu deveria ficar feliz por isso, certo? É, eu deveria. Principalmente se ficar feliz servisse para tentar esquecer tudo que aconteceu nessa simulação.
Vou apenas encontrar as garotas. Elas já devem estar preocupadas.
Era estranho.
Estava acostumada a sempre estar sozinha em eventos como esse. Chegava lá, fazia o que tinha que fazer e então ia embora. Simples e direto. Nesse exato momento, já cogitaria ir para casa para aproveitar o resto da noite antes de dormir.
É, seria assim antes. Agora eu estou aqui, acompanhada por… amigos?
A palavra certamente se aplica para o caso de Pedro, mas o receio vem em relação aos outros.
-Ei, quer dizer que você passou, Himari? No duro?
-Sim!
Ela respondeu com um sorriso que só Pedro parecia ter a habilidade de tirar do seu rosto.
-Isso significa que todos nós passamos, então. – ele constatou. – Pô, fico feliz por todos nós, mas como vai ser agora?
-Possa ser que eles façam o torneio com oitenta participantes, mas devem fazer mais uma fase eliminando os dezesseis extras. Eu não ficaria tão feliz assim se estivesse no seu lugar, novato.
Sim, Akemi tem uma certa razão. Desde que entrei no Chikara, todos os torneios foram feitos com sessenta e quatro pessoas. Nenhuma a mais, nenhuma a menos e não acho que mudariam esse padrão agora.
Ao mesmo tempo, isso nunca aconteceu. Excesso de pessoas tentando uma vaga sempre foi o comum aqui, mas dessa vez deu para menos. O que caralhos aconteceu, afinal? Não dá para ignorar também que Pedro se classificou, mesmo terminando a prova bem depois de todo o resto. Será que tem dedo do diretor mais uma vez?
-Ah, por que ‘cês ‘tão preocupados? Se tiver mais uma fase, vamos destruir. Tá bem claro isso para mim!
Ah, é. Essa é mais uma coisa estranha do dia. Makoto parecia querer se integrar ao grupo.
–Quem lhe deu autorização para me tocar, seu pervertido?
E falhando miseravelmente em tal missão. Bom, ninguém mandou ele achar que poderia abraçar Pedro e Akemi ao mesmo tempo. O sul-toruguês parece que não ligou, no entanto não é o mesmo caso para ela, que fez questão de revidar e com aquele tal poder negro. Makoto saiu correndo em círculos e expressando todo tipo de xingamento no processo. Himari e Pedro gargalhavam alegremente, enquanto Akemi parecia estar absolutamente ofendida.
-Baixinha, você não acha que exagerou? – ele perguntou, ainda rindo. – Ele só nos abraçou pelos ombros.
-Nem fodendo. Se eu deixar, na próxima ele vai achar que pode pegar onde bem quiser, eu conheço esse infeliz. Além do mais, ele aguenta alguns segundos de dor intensa.
O pior é que, pelas histórias que ouvi, ela não estava errada.
-Mas… hã, então temos uma nova pessoa no grupo?
Himari que fez a pergunta, deixando todos pensativos por alguns instantes. De fato, ele simplesmente apareceu e agora agia como se fizesse parte desde o início. Mesmo a garota que se pronunciou agora pediu licença e foi educada no seu devido momento.
-Vamos votar? – Akemi perguntou e levantou a mão logo em seguida. – Se for assim, eu voto em não.
-Eu ainda vou fazer ‘cê gostar de mim, Sunohara!
Makoto estava logo atrás dela e ele sequer precisava gritar. Quase como em punição, ela voltou a mostrar a sua aura silenciosamente, indicando que estava aumentando a intensidade do ataque e o garoto voltou a proferir obscenidades quase em seguida.
Era uma situação engraçada, então não haveria como não rir…
Não… não, não, não. O que estou fazendo? Esqueci completamente do que aconteceu? Não posso baixar a guarda por tão pouco.
Essas são as mesmas pessoas que, até antes de Pedro aparecer, tinham feito coisas horríveis. Sim, eu não posso esquecer disso, não posso cometer esse deslize de principiante. Posso aceitar fingir fazer parte desse grupo se isso agrada Pedro, mas tornar isso real é um passo arriscado.
Controle-se, Nara, controle-se.
-Nara, eu…
Demorei para perceber que Pedro estava do meu lado. Notei também que Akemi, Makoto e Himari já estavam conversando normalmente… bem, o mais próximo que poderíamos considerar de “normalmente”, pelo menos.
-Sim?
-Podemos… er, podemos falar a sós?
Er… o quê?
–Pô, Pedrão! Finalmente tomou coragem, hein? Aí, sim, car- ai!
Não importava que o sul-toruguês praticamente tinha sussurrado aquilo, Makoto ainda ouviu, falou em voz alta e foi interrompido com um soco no rosto por Akemi.
-É por isso mesmo que eu votei não. – falou, emburrada e ainda com o punho fechado.
Por mais que fosse até… divertido ver os dois assim, não era exatamente o momento. Além do mais, Pedro parecia bem mais tenso do que a situação criada pelo Makoto, mostrando um dos sorrisos mais sem graça que já tinha visto de sua parte.
-Podemos sim. – confirmei.
Ainda houveram algumas gracinhas antes de sairmos da roda, mas logo estávamos isolados. O mais próximo de “isolados” com tanto movimento acontecendo ao redor. Pedro não começou a conversa, o que me deixou até meio desconfortável.
-E então? – incentivei em toruguês.
Sua resposta ainda demorou um pouco de vir e ele parecia estar pensando sobre como começar. Aguardei pacientemente.
-Como… como foi sua simulação?
Er… espera, era isso?
-Provavelmente igual a sua?
-Improvável. Você foi a primeira a terminar a prova, então suspeito que foi bem diferente da minha.
Ele estava me olhando desconfiado e ainda tenso, mas o que…
-Alguma coisa acontec…
-Ainda não sei, – me interrompeu. – por isso estou lhe perguntando.
Sim, não era impressão. Havia alguma coisa lhe incomodando.
Não que visse alguma utilidade, mas resolvi detalhar o que aconteceu na minha simulação. Apesar de ter sido avisada de antemão sobre a extraordinariedade da prova e de realmente trazer coisas que nunca havia experienciado, como uma simulação real de tato, nada de muito fora do comum havia acontecido. Um boneco tão malfeito quanto forte apareceu e me deu um pouco de trabalho, mas acabei com ele em minutos e era isso, foi a prova.
Aqueles detalhes acabaram deixando-o mais incomodado do que realmente aliviado.
-Foi diferente com você? – perguntei, logo depois de terminar de contar.
Mais uma hesitação de sua parte e então ele começou.
Espera… hã?
De onde vinham todos aqueles detalhes? Simulação da simulação? Frase de segurança? Imagem de pessoas mortas que apareceram por uma fração de segundo? Mas que porra?
-É, parece que teve bem mais coisas que o seu, por alguma razão. – adicionou, ao terminar.
-O… o quê? Isso foi muito diferente e muito mais detalhado.
-Pois é. É por isso que demorei tanto.
Não… não era apenas diferente e detalhado. Preciso lembrar quem organizou tal prova, afinal. Havia um motivo, mas… que motivo? E não era apenas o motivo em si, como os detalhes também eram bem importantes. Toda a simulação extra envolvendo Misaho e a irmã dele, além da luta em si. As características que ele falou de tal pessoa eram… familiares.
Pedro não disse mais nada e apenas coçava a nuca, não exatamente encabulado, mas um pouco pensativo.
-Você falou que a pessoa que você lutou tinha sotaque, certo? – perguntei, chamando a sua atenção. – A que você lutou antes da parte envolvendo a Misaho.
-Sim, era parecido mais ou menos com “como você ficou tão forte assim?” – e tentava imitar. – Ele também me deu um nome. Deixa eu ver se lembro… Gaza… não, era algo como… lembrei! Gazimov! É, certeza que era Gazimov.
Hã? Espera…
-Você… você disse Gazimov?
-Sim?
Me observou confuso. É claro, não fazia sentido algum que entendesse, mas… até consigo ver a recriação de uma Misaho na simulação, principalmente se houvesse alguma característica como se basear nas memórias do usuário, porém não havia como Pedro conhecer o Nizami. Existe uma razão de ele ser a arma secreta da Liga. Não é algo que possa ser achado aleatoriamente na rede internacional, não importa o quanto você refine as palavras-chave. Se os simuladores realmente vieram da Liga, existem menos motivos ainda para que ele tenha visto quem era.
David não cometeria um erro tão… amador, certo? E é exatamente isso que me preocupa. Significa que ele colocou intencionalmente? Quantos viram o rosto de Nizami? Espera… e se foi só para o Pedro? Então ele quer que Pedro conheça o tal agente secreto? Por quê? Ele vai ter muita coisa para me responder quando chegar, principalmente esse interesse repentino no sul-toruguês.
-Você o conhece, então?
Ele me fitava, curioso. É bem provável que estivesse distraída por tempo demais. Olha quem está cometendo erros amadores agora. Preciso ser cautelosa, algo que estava falhando miseravelmente ultimamente.
-Não. – e sorri. – É que o nome e o sotaque combinam. Gazimov é um nome muito comum no Dracoquistão.
No mesmo instante que me preocupava se havia caído, percebi que meu sentimento não fazia sentido. E daí que achasse que eu estava mentindo? Pedro nunca me pergunta nada, não importa o quão encucado fique. Ao mesmo tempo que fico feliz que não faça perguntas difíceis, também me decepciono com a sua falta de curiosidade vinda do seu respeito por mim ou algo do tipo. Mesmo que minha resposta tenha sido algo longe de esclarecedora, lá estava ele, com aquela expressão que tanto já tinha visto antes, o velho “ah, tá”.
Não, eu também não posso culpá-lo por isso. Fui esquiva o tempo inteiro, então ele também deve estar estranhando o meu comportamento de hoje. Acima de tudo, o “preciso ser cautelosa” ainda ecoava na minha cabeça. Ironicamente, ele estava ajudando, mesmo sem saber.
O que não podia negar era o quanto estava curiosa. Deveria continuar perguntando se-
-Nara, novato.
Não, eu não notei que a Sunohara se aproximou repentinamente. Pedro parece ter se assustado também.
-Desculpe interromper vocês, mas é que estão chamando os classificados para a quarta fase no ginásio três.
Hã? Espera, isso não faz sentido.
-Eles anunciam quando cham…
–Todos os classificados para a quarta fase das preliminares, compareçam ao ginásio três. Quem não comparecer dentro de dez minutos, estará automaticamente desclassificado.
Akemi apenas apontou, levemente emburrada, para onde a voz vinha enquanto olhava para mim e virou de costas, seguindo para onde foi chamada. É, aquela atitude eu já conhecia muito bem e admito que não estava esperando rever tão cedo. Droga, estava mesmo sendo descuidada.
Comecei a segui-la e fui interrompida por uma mão no meu ombro. O sul-toruguês havia me parado.
-Ei.
E foi tudo que disse, quase como se estivesse esperando uma resposta minha, mas logo continuou.
-Se tiver algo a me dizer sobre o que aconteceu comigo, pode me dizer mais tarde, tudo bem? Estou tão confuso quanto você e realmente queria saber a razão de tudo isso.
Ele… sentiu? Certo, aquilo era novo. Que ele notava certas coisas eu já sabia, mas sempre imaginei que não funcionava direito comigo. A confiança que dizia tal coisa mostrava que, talvez, eu estava enganada o tempo todo.
Sorri. Não de felicidade, mas puro nervosismo. Estava adentrando um terreno que não sei se estava preparada para explorar, só que já era tarde demais para voltar atrás.
-Certo.
Não esperei sua reação e apenas segui em frente. Teria muito tempo para pensar no assunto até “mais tarde”.
O ginásio era próximo, então todo o grupo levou apenas alguns minutos para chegar. É, agora falar “todo o grupo” ficou bem mais fácil do que listar as pessoas envolvidas. Éramos cinco agora. Ok, talvez não oficialmente ainda, mas Makoto não fazia muita questão de se separar de nós. Tal adição me causava sentimentos mistos. Aquela sensação de que ele está lá apenas por algum interesse não me abandonava.
O local em si estava bem arrumado para a ocasião. Havia um letreiro digital enorme localizado no meio da sala, com uma lista de nomes que logo identifiquei como sendo os classificados, já que estava enumerada e o último dos números era “oitenta”, com meu nome do lado. Os tempos de classificação da prova anterior também estavam lá, o que me causou um riso involuntário depois que vi a tamanha disparidade do meu tempo para o septuagésimo nono.
Aliás, aquilo ainda me encucava bastante. Esperava conseguir respostas de Nara, especialmente porque notei uns detalhes interessantes, como, por exemplo, a sigla do nome do guardião da simulação ser “LDH”, em que pensei em coisas que pudessem combinar e não demorei para chegar no óbvio “Liga dos Heróis”. Por um momento achei que fosse extremamente estúpido deixar algo tão fácil de assimilar, mas a surpresa de Nara ao ouvir o nome do meu adversário comprovava tudo. Não era alguém aleatório, afinal. O que ainda me deixava confuso era que nunca tinha ouvido falar em um herói com tal nome.
E todos esses detalhes continuavam borbulhando e remexendo na minha cabeça. Ainda daria para chegar na conclusão que minha simulação demorou tanto tempo assim porque tinha sido feita especialmente para mim? Por mais que já tentasse reconhecer que toda essa paranoia é sem sentido na maior parte das vezes, haviam coincidências demais acontecendo hoje. Essa, inclusive, foi uma das minhas intenções de tentar arrancar de Nara, mas é óbvio que não consegui. Nem dá para culpar a baixinha, porque se tivesse todo o tempo do mundo, ainda não conseguiria. Eu sei disso.
-Então, acha que eu estou certa?
Akemi se aproximava de mim e perguntava com uma voz abaixo do seu normal.
-Sobre? – questionei, sem virar o olhar para ela.
-O que eles devem fazer. Querer se livrar de dezesseis na próxima fase e então ter sessenta e quatro classificados?
Por um instante eu me perguntei porque ela fazia aquela pergunta para mim e logo cheguei na conclusão lógica: ela estava tentando puxar assunto. Assim como várias outras características dela, aquela era uma das que eu havia notado com o passar do tempo. O pior é que eu entendia a razão mais esperada para aquela atitude: a de que um grupo maior tirava parte do seu destaque. Por mais que ela sempre agisse daquele jeito de “eh, não preciso de vocês”, não era difícil notar que tudo não passava de fachada após um pouco de convivência.
Bem, era melhor levar aquele papo furado adiante do que deixar os pensamentos me corroerem.
-Deve ser. – respondi, finalmente olhando para ela. – Digo, é o mais lógico, certo?
Por algum motivo, ela não parecia ter gostado da resposta.
-E lá estava eu querendo apostar mais uma vez com você e ganhar facilmente. – e cruzou os braços, desviando o olhar. – Você deveria discordar de mim, droga.
Sua atitude desnecessariamente infantil me fez rir.
-Tá, você quer saber o que eu acho? – perguntei, forçando um ar de mistério propositalmente exagerado. – Eu acho que o colégio deve nos presentear com alguma surpresa.
-Surpresa?
E voltava a olhar para mim, curiosa.
-É. – confirmei. – Tipo, eu ainda acho que vai ser o que você falou, mas não só isso, entende?
-Alguma sugestão, então?
Eu responderia normalmente se não fosse interrompido pelo professor Ootsuka e seu microfone. Dessa vez ele estava pessoalmente no lugar e em cima de um palco colocado do lado oposto do ginásio.
–E o tempo acabou! Quem não está presente, está automaticamente desclassificado! Ah, quem eu quero enganar, todos vocês chegaram bem antes do horário. Nem preciso contar para saber que os oitenta estão aqui. Digo, quem é o idiota que vai jogar a chance fora estando tão perto?
E ouvi risos baixos. Quase como se fosse um comediante experiente, ele esperou que cessassem.
–Então peço para que todos vocês se ajeitem nas arquibancadas e irei explicar como as coisas funcionarão nesta fase. Como tais coisas podem demorar, eu irei explicar enquanto ainda se ajeitam, se é que não se importam.
Recuperou um pouco de ar por um instante e logo voltava a falar. O meu grupo, se é que poderia chamar assim, seguia todos os outros e começavam a escolher lugares. Era bastante provável que ficássemos nos locais mais baixos da arquibancada.
–A situação daqui é a seguinte: os cinquenta primeiros classificados já não precisam disputar as preliminares e estão automaticamente no torneio. Peço calma para que não comemorem com antecedência, por favor.
Seu pedido foi inútil e muitos fizeram o exato oposto. Bem, eu não tinha nada o que comemorar.
–Os trinta restantes irão ser sorteados para lutarem em duelos padrões, seguindo as regras do torneio. Se algum de vocês além do quinquagésimo nunca disputou o torneio, terão, no mínimo, um gostinho disso. Os vencedores de tais duelos estarão classificados diretamente. Eu sei, isso é óbvio, mas o contrato me obriga a dizer detalhadamente.
E mais risos. É, é claro que não seria tão fácil assim.
-Espera, isso dá sessenta e cinco.
Já havíamos sentado em nossos lugares. Ficamos mesmo na parte mais baixa da arquibancada e eu fiquei mais à direita, com todos os cinco sentados juntos e na mesma fileira, enquanto a baixinha ficou do meu lado e ela que foi responsável por tal conclusão lógica. Sim, ela tinha razão, dava sessenta e cinco que passariam.
-Aliviada agora por não ter apostado? – perguntei, debochando.
-Tão aliviada quanto você está decepcionado. Poderia ter recuperado o que vai gastar em almoços.
E lançou a língua para mim. Admito, foi uma boa resposta. Droga.
–Como vocês não são alunos do Chikara à toa e sabem, bem, cálculos básicos, provavelmente notaram que isso dá sessenta e cinco classificados. – o professor continuava, interrompendo o burburinho entre nós. – Não pode. Sessenta e quatro é o número ideal, não apenas por questões de organização, como também por tradição. Quem estuda aqui há algum tempo, sabe a força dessa palavra, não sabe?
Pois é, eu estava certo. Aí estava a surpresinha.
-O que ele quer…
–Então nós pensamos em algo que vai atiçar todos os outros trinta que irão disputar pelas quinze vagas. – Ootsuka interrompia, indiretamente, Akemi. – O que acham de um showmatch? Acho que é certo chamar assim, principalmente porque será um… bem, qual a gíria que vocês jovens usam atualmente? Um… arraso? Velho demais? É, me desculpem, eu sou velho mesmo, mas enfim, vocês entenderam.
E mais risos, todos despretensiosos, provavelmente sem chegarem na conclusão que eu havia chegado enquanto o professor ainda proferia o seu discurso.
–Showmatch? – Akemi perguntou. – O que seria isso?
-Ah, é uma palavra orientesa. – respondi. – Significa…
-Uma luta de alto nível.
Nara que havia me interrompido. Olhava de braços cruzados e séria para o palco de onde o professor estava.
-Provavelmente ele deve pegar dois de posições mais altas para lutarem por uma única vaga e então teremos sessenta e quatro. – completou.
-Ei! Isso vai ser foda!
Mesmo Makoto gritando no extremo oposto não foi o suficiente para que a rainha do fogo desviasse o seu olhar.
-Não, seu idiota! Você está entre os cinquenta primeiros, significa que você pode estar nessa batalha.
É, não me surpreendia que a baixinha fosse esperta o suficiente para notar.
-Ah, é… – e ficou pensativo. – Bem, isso não significa que a gente vai lutar. Digo, quais são as chances, não é? Muito azar. Já imaginou a gente contra, Akemi?
-Preparado para ser humilhado por uma garotinha?
E os dois criavam uma rivalidade sadia. Não podia negar que não estava me divertindo.
-Nos seus sonhos! – Makoto respondeu, nitidamente confiante. – Fora da batalha ‘cê é uma dama e assim eu lhe tratarei, mas dentro eu lhe trato como trataria qualquer adversário!
-Eu quero é que você lute a sério mesmo, porque vai ficar completamente sem desculpas quando perder.
-Ora, ora! Não sabia que ‘cê era tão metida assim, Ake…
-Parem com esse burburinho desnecessário. Vocês não vão lutar contra, pelo menos não agora.
A voz grave e séria de Nara interrompeu os dois, que ainda estava do mesmo jeito e não olhou para os lados. Por um breve momento, os dois ficaram apenas sem reação, mas ela não completou o que supostamente queria dizer e eles tiveram tempo o suficiente para recuperar a compostura. A confusão virou desconfiança e então uma certa revolta, adicionada por um pouco de vergonha no caso do garoto. É, aquela reação eu meio que já esperava. Não importava o quanto tentava se encaixar no grupo, ele ainda seria cauteloso ao dirigir a palavra para Nara.
-E como você pode ter tanta certeza assim?
O mesmo não valia para Akemi, que fez a pergunta com uma eloquência razoavelmente digna e o questionamento fez a garota sentada no meio do grupo finalmente desviar o seu olhar para o nosso lado. Ainda estava séria e a sua intimidação característica veio no pacote.
-Eu vou ser uma das escolhidas. – completou logo depois de nos fitar. – É o que o professor quis dizer com showmatch.
-Hã… bem, ele poderia sortear dois dos cinquenta primeir…
-Não. – Nara interrompia a baixinha sem hesitar. – Ele não vai.
O tom de conclusão deixou Akemi sem palavras e ela não comentou mais nada enquanto olhava para mim, curiosa.
-B-Bem, pobre Misaho, então! Vai ser a primeira vez que ela não vai se classificar!
A envergonhada de Makoto era nítida, principalmente por ser a primeira vez que vi ele gaguejar na vida. Talvez ainda tivesse receio de se dirigir diretamente para Nara, mas a extroversão falava mais alto.
-Não vai ser a Misaho. – e a garota do fogo voltou a olhar para frente. – Vai ser um de nós.
Er… o quê?
Não fui o único a entrar em tal conclusão. Todos pareciam confusos, mesmo Himari que apenas acompanhava a… conversa silenciosamente. Nara não fazia a menor questão de explicar sua linha de pensamento e ninguém sabia exatamente o que perguntar.
–Para o nosso showmatch, faremos um sorteio! Qualquer um dos cinquenta primeiros podem cair aqui, então apenas rezem para que não sejam os azarados.
E mais risos. Percebi o professor Ootsuka colocando a mão dentro de uma caixa de madeira que estava ao seu lado.
-Não vai ser um sorteio. – Nara disse, olhando para o professor. – Eles já definiram.
-Você poderia expl…
–O primeiro sorteado é…
Nem mesmo Akemi se importava de ter sido interrompida novamente, dando atenção ao professor enquanto ele puxava um papel dobrado da caixa.
–Número quatro! O que significa o quarto classificado. – e virou-se para o letreiro atrás dele. – Makoto Maeda, da décima série do campus de Atarashi! Venha para o centro do ginásio, senhor Maeda!
Aplausos vinham das partes mais altas da arquibancada. Nosso grupo não acompanhava tal animosidade, principalmente o sorteado, que ficou completamente sem reação por alguns segundos. Quando o ginásio já voltava ao silêncio, ele finalmente se levantou e nos lançou um olhar confuso antes de começar sua caminhada. O professor de educação física esperou calmamente que chegasse onde havia sido indicado.
–Não se preocupe, senhor Maeda, é bem provável que você pegue alguém nas posições inferiores, digo… três chances para cima e quarenta e seis para baixo, afinal. – e a plateia ria mais uma vez por um breve momento. – Certo, vamos para o sorteio de seu adversário!
Colocou a mão novamente dentro da caixa e fez uma expressão exagerada de esforço, enquanto mexia fervorosamente lá dentro. Após muito mais tempo do que a primeira vez, puxou um dos papéis dobrados.
–Vamos ver se você deu sorte ou azar…
Se interrompeu enquanto desdobrava o papel, forçando um mistério tão exagerado quanto as suas últimas ações estavam sendo. Ao ler o que estava escrito, demonstrou uma surpresa razoavelmente legítima e logo se tornou um sorriso acompanhado por um risinho curto.
–Bem, senhor Maeda, meus pêsames. – o professor Ootsuka olhava para a nossa direção agora. – Nara Ennetsu, também da décima série do campus de Atarashi, venha para cá!
Dessa vez os aplausos foram bem mais fortes do que o normal e meio que eu já tinha uma certa noção da razão. Nara não se levantou instantaneamente, apenas fechando os olhos por um breve instante e então suspirou. Quando finalmente estava de pé, palmas ainda aconteciam, com quase a mesma intensidade de como começaram.
A garota do fogo olhou, sorrindo, para o seu lado direito. Primeiro observava na direção de Akemi, com um sorriso que não havia outra característica melhor para dizer: triunfal. Não demorou muito e agora eu era a sua atenção.
-Todo esse showzinho para algo armado. O diretor não deve estar muito feliz.
Foi o que disse e em voz bem mais alta que o normal para ter a certeza que seria ouvida. Logo em seguida, se virou e caminhou, bem mais lentamente do que o seu normal, em direção ao centro do ginásio. Aplausos continuavam e não pareciam que acabariam tão cedo.
As palavras ditas em toruguês só confirmavam para quem a mensagem deveria ser. O que eu não sabia mesmo era porque para mim. Armado? Digo, por quê? Pelo diretor? Eu estou esquecendo de algo aqui ou o quê?
-Qual foi o código que ela enviou para você agora? – Akemi perguntou, quase gritando para que pudesse ser ouvida entre os aplausos.
Bem, eu tinha a impressão que o “código” veio em toruguês por algum motivo, certo?
-Ela só disse que não estava surpresa. – falei com o mesmo tom. – Porque fez questão de falar isso na minha língua, não sei.
Não era necessariamente uma mentira, então não havia muito para que desconfiasse, ficando levemente pensativa enquanto desviava o olhar. Depois apenas deu de ombros.
-Parece que Makoto terá uma baita festa de boas-vindas. – disse, com um sorriso maldoso no rosto. – Não vou negar que isso me agrada.
Não pude deixar de rir, assim como também não deixei de tentar juntar as peças para aquele quebra-cabeça aparentemente sem sentido. De tédio eu não iria morrer agora.
E mais aplausos, junto com alguns gritos. Aquilo não me agradava nem um pouco. Não é que sejam falsos, é apenas que eram… sádicos. Mesmo quem não estudava em Atarashi, sabia bem que não estava prestes a ver uma batalha justa, apenas um domínio de um lado só. Nunca vou entender porque pessoas acham isso divertido.
Ao chegar no centro do ginásio, Makoto me observava, atônito e com um pouco de tremedeira. De certo, era uma tremedeira desnecessária, mas ele não sabia disso. Ainda estava contemplando o seu suposto azar de um sorteio supostamente legítimo, apesar que agora ele parecia estar em dúvidas sobre tais detalhes.
Todo o escarcéu finalmente cessou após alguns segundos que coloquei meu pé da minha posição. Por instantes, não havia nenhum som ao redor.
-Como ‘cê…
–E começaremos a primeira batalha das dezesseis que ainda teremos hoje! – o professor Ootsuka interrompeu Makoto sem cerimônias. – Aos outros quarenta e oito sortudos, estejam livres para ir descansarem em suas casas e camas confortáveis até o torneio de amanhã… ah, quem eu quero enganar? Nenhum de vocês irá! O que vão assistir aqui é mais importante!
Assim como previu, ninguém se levantou e alguns riam. Não vou negar, a sua atuação parecia excelente.
–Apesar de tudo, todos aqui devem estar cansados, então peço para que os participantes definam o vencedor com rapidez. Podem fazer isso, não podem?
Sim, não se preocupem que a luta armada não vai demorar tanto assim. Sorri para mostrar que estava, na teoria, seguindo o jogo.
-Não se preocupe. – falei alto o suficiente para ecoar pelo ginásio. – Isso deve ser bem rápido.
As pessoas voltaram a aplaudir quando mostrei chamas na minha mão direita. A reação de Makoto seguia o total oposto delas.
–Feliz que concorde. – o professor voltava a falar no seu microfone, bem mais alto do que o resto. – As regras são as mesmas da primeira fase do torneio, então presumo que já saibam de cor e salteado. Só saibam que um empate trará a eliminação dos dois. Lutem!
E os aplausos estavam mais altos agora, enquanto a barreira característica aparecia ao nosso redor. Mesmo sem olhar para a sua direção, sabia que estava feliz e satisfeito. Sim, continue o bom trabalho, capacho do diretor.
As pessoas não iriam parar tão cedo de espernear, então não adiantava esperar. Fui para cima do meu adversário, que claramente tremia de medo. Se eu quisesse, acabaria com aquilo em um instante e é assim que o diretor espere que eu aja.
Lancei um soco fraco e, ao mesmo tempo, rápido, que teria a certeza que defenderia. Mesmo em tal situação, conseguiu cumprir minhas expectativas, acompanhado por um público bastante barulhento. Bem, esperava que isso lhe desse um ânimo.
-N-não ache que eu vou me render com tão pouco! – gritou, com nítido desespero na voz. – Eu vou…
Ânimo demais.
-Recomponha-se. – falei, alto o suficiente para que pudesse ouvir. – Você consegue criar uma barreira de terra grossa o suficiente para isolar sons, não é?
-O… o quê?
-Você consegue, certo?
Eu sei que era um pedido muito específico e inesperado, mas Makoto entenderia. Tinha a capacidade de entender.
-Sim. – respondeu, claramente confuso. – Eu consigo.
-Então faça.
E seguiu. Em poucos segundos, apenas terra nos cercava. A sua aura era a única iluminação do túnel que se formou ao nosso redor e logo cessou. No completo breu, percebi que o som estava abafado e nada era mais ouvido externamente. Precisei criar uma chama parecida com a que demonstrei antes da luta começar e notei que estava bem fraca.
-Faça uns buracos ou vamos morrer sufocados aqui.
-A-ah. Desculpe.
Com a mesma eficiência que fez o túnel, agora fazia alguns pequenos buracos que serviam como dutos de ar. Era possível de se ouvir o lado externo novamente, mas o volume era baixo o suficiente para não atrapalhar. Mesmo a voz do professor, anunciando algo com o seu microfone, vinha quebrada e quase inaudível.
Makoto me analisava com certa desconfiança. Não se atrevia a falar na minha frente e ainda estava no meio de uma pose de combate bem torta. Pelo visto eu terei que dar o primeiro passo.
-Eu irritei o diretor. – falei.
Ele finalmente parecia ter relaxado, pelo menos um pouco, abaixando os ombros claramente tensos. O receio se transformou em uma confusão curiosa e não me respondeu no mesmo instante, mas não tentei falar mais nada.
-‘Cê… irritou? – finalmente disse.
-Sim.
A conversa não continuou. Ele não parecia mais estremecido em dividir o lugar comigo, apenas não sabia o que dizer. A verdade é que… nem eu tinha. Nem sabia exatamente porque tinha falado aquilo, já que conversar não era exatamente minha intenção aqui.
De todas as pessoas que já conhecia há algum tempo no Chikara, Makoto era um dos que eu menos me importava. Diferente de Misaho, Akemi e até mesmo Himari, nós não tínhamos exatamente um passado. O sentimento não ia muito além de indiferença, em que provavelmente já tínhamos trocado a mesma quantia de palavras agora do que em todo o histórico.
Não sabia exatamente o que fazer. Minha pretensão não era nada mais do que segurar a batalha por alguns minutos, frustrando a plateia e seu narrador, mas nada pensei além disso. Improviso nunca foi meu forte e isso me colocava agora em uma situação que poderia dizer que era até mesmo embaraçosa. Ele provavelmente tentava medir as palavras. Já estava acostumada com isso e não me surpreendia.
Suspirei e sentei no chão de concreto. Estava frio, exatamente como aquele dia e apenas me controlei para não gritar pela surpresa, enquanto aumentava o aquecimento natural. Nem precisava mais manter a chama da minha mão acesa, pois os buracos na terra acima de nós iluminavam o suficiente.
-Então… é…
Ele tentava dizer algo.
-Hum? – perguntei, sem mexer os lábios.
-Como vai ser?
-Não sei.
Não é que eu queria finalizar aquela conversa fiada ou algo do tipo, apenas fui sincera mesmo.
-Er… tá. – e deu uma pausa. – ‘Cê sabe que, se dez minutos passarem, a gente perde, certo?
-Eu sei.
Ainda assim, não sabia o que fazer. Deveria apenas me render ao chegar perto dos dez minutos? Não, as pessoas vão estranhar, afinal. Não pode ser tão óbvio.
-Sobre esse lance do diretor, eu ouvi uns boatos.
Deu mais uma pausa, dessa vez como se esperasse uma resposta minha, porém não havia muita razão para que eu dissesse nada.
-Aliás, ‘cê e Misaho travaram uma batalha e tanto, não é? Digo, na corrida.
-É, eu acho.
–Hah, foi engraçado vocês se destruindo enquanto todos corriam picados e morrendo de medo.
Foi? Não parecia exatamente engraçado para mim.
-Ah, eu soube que a Miyamoto da capital foi banida do torneio. – continuou, com menor hesitação agora. – ‘Cê tem algo a ver com isso?
Bem, isso foi antes do almoço, então não me surpreendia que a notícia já tivesse se espalhado.
-Tenho. – respondi.
-E é por isso que o diretor tá puto?
-Parte.
Ele parece que se acostumou bem rápido com a liberdade. Olhei em sua direção e pude perceber que não havia mais nenhum tipo de medo ou parecido. Em qualquer outro momento, isso me incomodaria, mas não estava me incomodando agora.
Por que estou deixando tudo isso passar, afinal? Não seria o tipo de coisa que faria antes.
-Ah, a Naomi é uma gatinha, mas se acha muito. ‘Cê fez bem.
Sua voz estava neutra o suficiente para que eu pudesse assumir que já estava confortável o suficiente como se eu fosse qualquer outra pessoa.
-Valeu… eu acho.
-‘Cê não era assim antes.
O que ele quer dizer com isso? Que incômodo é esse que estou sentindo agora?
-É o Pedro, não é?
Hã?
-O que tem ele? – perguntei.
-‘Cê tá desse jeito por causa dele.
Não era mais uma pergunta e sim uma afirmação. Uma afirmação com certeza.
-Eu não mudei. – afirmei, depressa e convincente. – Essa sempre fui eu. Nós só não conversávamos ant…
-Não, não. ‘Cê mudou, rainha. ‘Cê amoleceu.
Ele… o que ele está fazendo? Momentos antes ele estava se tremendo de medo de mim e agora tentava assumir coisas, sem nenhuma hesitação. O que é isso afinal? Aliás, ele me chamou de…
-Rainha? – questionei, olhando para os seus olhos na penumbra. – O que você quer dizer com…
Makoto me interrompeu com uma risada, descontraída como se tivéssemos papos daquele tipo todos os dias.
-Não importa o quanto ‘cê amoleça, sempre será nossa rainha. – finalizou, após terminar de rir.
Pensando agora, Misaho tinha uma classificação parecida. Então não era algo isolado? Eles realmente me consideram uma realeza ou algo do tipo? Isso… isso é…
-Então, ‘xá eu aproveitar que ‘tamos conversando aqui agora e vou perguntar uma coisa…
Ele deu alguns passos à frente, enquanto mantinha as duas mãos nos bolsos de sua calça. Sua expressão agora era bem mais relaxada e acolhedora do que antes.
-A rainha me aceita em seu grupo?
Sorriu e estendeu sua mão direita em minha direção. Aguardava pacientemente que eu a apertasse ou algo parecido.
Eu… o que eu estou fazendo hoje?
Primeiro foi a Misaho, que apenas conversou comigo como se tivesse toda a liberdade do mundo e agora Makoto tenta o mesmo. Não é a primeira vez, é claro, já que a Sunohara e a Yamazaki já faziam parte da convivência há algum tempo. De certo, elas estavam mais lá por causa de Pedro do que de mim, mas eu já aceitava as duas como parte dos meus dias, do meu grupo. Esse caso, por outro lado, esse caso é diferente. Não havia mais o denominador em comum e o garoto se dirigia diretamente a mim.
Eu sinto… é estranho, é quase como um medo. É diferente do medo receoso que tinham de mim, era mais como um medo curioso. Por mais que estivesse assustada com o que viria a seguir, eu ainda queria ver o que viria a seguir.
Deveria agir naturalmente? Faz… faz muito tempo que não ajo naturalmente, não aqui. Fiz isso com Pedro hoje e não sei dizer se ele exatamente gostou. Acima de tudo, se fôssemos realmente continuar amigos, não daria para manter uma máscara ativa o tempo todo, era cansativo. Makoto não era Pedro, no entanto. Pouco o conhecia e isso poderia ser arriscado.
O… o que eu faço?
-Ah!
Depois da exclamada súbita, ele puxou o braço de volta e começou a coçar sua nuca com a mão do mesmo.
-O que eu tô fazendo? – perguntou, envergonhado. – Preciso dar um tempo pra rainha pensar. ‘Cê pode responder isso depois, agora é melhor a gente definir o que vamo fazer aqui.
Ah… é, é verdade. Provavelmente estávamos além da metade do nosso tempo de batalha agora. Se não saíssemos dali, seria considerado um empate.
Levantei, dando uns tapas na minha saia para tirar a poeira do chão. Não havia mais tempo para pensar, não havia mais tempo para incertezas. Precisaria decidir tudo agora, o quanto antes, mas… de que forma? Depois de tudo isso, apenas mandar Makoto para fora parecia bem… sem sentido. Deveria apenas deixar que ele ganhasse? Não, ele não merece ganhar também. Argh, que indecisão. Odiava me sentir desse jeito.
Espera e se… é… É! Isso pode funcionar.
-O que acha de um acordo?
Não esperava que entendesse logo de primeira e foi exatamente o que aconteceu.
-Que… tipo de acordo? – perguntou com uma de suas sobrancelhas mais alta do que a outra.
-Você quer entrar no grupo, não é? Tudo bem, eu lhe autorizo. Só que, para isso, você precisa me dar uma razão digna. Se assim fizer, eu lhe deixo entrar e, também, lhe entrego o jogo. Dois coelhos em uma cajadada só, certo?
Aquilo me fez sorrir. Não um sorriso que costumo dar por falta do que dizer ou apenas por simpatia, mas sim um sincero. Era divertido, bem divertido, para falar a verdade. Para o pessoal de fora, ainda pareceria que alguma marmelada havia acontecido e eu ainda descobriria suas reais intenções, no final das contas.
Makoto não respondeu, apenas me olhou, buscando por algo que não consegui identificar. Sei que é o tipo de coisa que pedir para acelerar não é exatamente uma boa ideia, mas eu acho que vou ter que fazer is-
E então ele riu. Começou com uma risada baixa e que foi evoluindo até virar uma gargalhada. Mas o quê? Como eu deveria reagir a isso, afinal?
-Entendi.
Foi o que disse, antes de rir mais um pouco e então finalmente parar. Respirou um pouco antes de continuar.
-Não esperava menos da rainha. Certo, ‘vô ter que ser sincero, então. Ah, cara…
Olhou para mim, ainda sorrindo. Notei que não era um sorriso exatamente feliz, mas educado. Tão educado quanto os meus. Era uma das poucas vezes que olhava diretamente para os meus olhos, sem absolutamente nenhuma hesitação.
-‘Cê sabe como as coisas funcionam aqui, rainha. Depois que o Pedro bateu de frente com a Misaho, o antigo grupo se desmanchou. Tá, eu sei que não tem nenhuma novidade aqui, só quero deixar claro mermo que ele é o culpado.
Eu não estava errada. Seu sorriso tentava realmente esconder algo. As palavras não combinavam com ele.
-E, ei, não entenda mal, não tô puto com ele ou algo assim. – prosseguia, ainda olhando diretamente para mim. – Não vou negar que fiquei na hora, mas passou. Arrumei um novo grupo, me diverti, vida que segue, esse tipo de coisa, sabe? Mas não era a merma coisa.
Sua expressão finalmente mudava. Lentamente virava algo mais neutro.
-‘Cê notava que o novo grupo só tava junto mermo por proteção pessoal. – continuou, acompanhando o tom. – É claro que eles me aceitaram de primeira quando me interessei em entrar, porque eles sabiam quem eu sou. Eles sabiam que eu poderia ajudar eles nos momentos tensos. No início, eu não dava a mínima pra isso, mas via ‘cês de longe.
Pela primeira vez, desviava o olhar.
-Droga, eu me sinto um fracote admitindo isso, mas… ah, foda-se.
E deu uma respiração bem mais profunda que deveria, estufando o peito.
-Eu invejo vocês, tá? – e abriu os braços, em um meio processo de dar de ombros. – Pronto. Admiti. Invejo porque o sul-toruguês conseguiu formar um grupo de pessoas que tinham mais afinidade do que nosso antigo grupo em meses. Ele literalmente destruiu uma galerinha junta há anos para formar algo melhor e em menos tempo. Maldito bastardo.
Hã? Eu não sei se estava realmente entendendo.
-Ah! – ele exclamou, subitamente. – Tá, tá. Eu sei que não posso apenas dizer isso procê, porque é tudo novo, não é? Então, ‘xá eu tentar explicar… sabe a Sunohara?
-O que tem ela?
-‘Cês não são exatamente amigas, certo? ‘Inda assim, ‘cês tão juntas. Mermo depois de tudo que ‘cês passaram, ainda ‘tão no mesmo grupo, como se nada tivesse acontecido.
Tá, mas e daí?
-Ela pode se defender sozinha, assim como pode criar o grupo dela, mas não foi o que ela fez. – prosseguiu, deixando a minha pergunta apenas mental. – Mermo assim, ela resolveu se juntar ao Pedro. Ela e Himari se juntaram contra Misaho, uma amiga de anos, por causa do novato.
O quê?
-Você… soube disso?
-Claro que eu soube! A escola toda sabe! ‘Cês ainda fizeram showzinho no refeitório depois, pra acabar a dúvida dos que não acreditavam. Aliás, eu tava perto. Sabe o que eu notei?
Não respondi. Não é como se tivesse tempo para responder, já que ele continuou sem nenhuma hesitação logo em seguida.
-Que ‘cê também ‘tava lá, pelo mermo motivo. Não é a rainha que é o líder do grupo, é o Pedro.
Líder?
-Pedro nunca foi eleito o “líder” ou algo assim. – respondi, prontamente.
-Pô, é claro que ‘cês nunca fizeram votação ou algo do tipo, mas na prática é isso mermo. Ele é o denominador comum, ele é o cara. O grupo não existiria se não fosse por ele.
…
Eu nunca me peguei pensando nisso e até pensei em uma forma de contestar o que Makoto havia dito agora, mas… ele tem razão, não é? Assim como ele disse, o sul-toruguês é o “denominador comum”. Se hoje eu estou convivendo com as outras duas, é porque Pedro é amigo das duas. Tão claro quanto a luz do sol, porém nunca havia parado para pensar.
Então ele quer dizer que eu deveria me incomodar com isso? Que eu deveria fazer um “golpe de estado” ou parecido? Digo, isso é confuso, o que eu deveria fazer? Merda, eu realmente não pensei nisso direito. Admito que tudo que esperava dele fosse uma resposta padrão qualquer e então ele me diz… isso.
-E qual é o problema disso?
O tom da minha voz não era compatível com o que eu estava pensando agora e tentei parecer que não estava incomodada com o que ele tinha dito. Tudo parece que foi por água abaixo quando Makoto começou a rir.
Não fingi bem o suficiente, então?
-Não tem problema nenhum, rainha. – disse, logo após parar de rir. – É exatamente esse o ponto.
-Não… tem?
-Não.
Então…
-Olha, ‘cê quer saber por que a gente ‘tava com a Misaho? – perguntou, retoricamente, já que não me deu tempo para responder. – É simples: porque Misaho era a mais forte. Disso eu sei que ‘cê entende e vai acabar chegando na mesma conclusão, então ‘xá eu dizer o caso: é assim que as amizades são aqui.
Não havia mais nenhuma tensão nele. Nem parecia o mesmo que estava tremendo minutos atrás.
-‘Cê acha mermo que a gente era amigo da Misaho porque ela era gentil ou engraçada? Não! Vô ser bem sincero com ‘cê: ela é uma vadia. Não no sentido sexual, ou algo assim, mas na personalidade. Eu nem preciso dizer isso, porque ‘cê conviveu com ela durante um tempo. Ela não mudou. Ela trata os outros como brinquedinhos seus e ‘tava esperando que Pedro virasse mais um deles.
-E ele não virou.
-Pois é. Ele não virou.
Certo, mas…
-O que isso tem a ver com tudo? – perguntei, sem conter a curiosidade.
Ele sorriu.
-Não consegue notar, rainha? – questionou de volta. – O líder esperado de um grupo como o de ‘cês não deveria ser o Pedro, deveria ser você. Não haveria como um grupo desse durar muito tempo, mas… ele ainda ‘tá aí, não tá? E só consigo imaginar um motivo pra isso… ‘cês são amigos.
Ele não estava errado, no entanto por que ele tratava isso como se fosse algo especial?
-Não era esse o propósito? Digo, por que iríamos ficar juntos se não fôssemos amigos?
-Porque ninguém liga para amizade aqui, rainha.
O tom foi diferente dessa vez. Acompanhado do que disse, também desviava o olhar novamente.
-Aqui as pessoas só se juntam por interesse. – continuou. – Supostas amizades tão frágeis que desabam no primeiro momento de discussão ou até mesmo briga. Foi o que aconteceu no nosso grupo antigo, em que Yamazaki e Sunohara não pensaram duas vezes em ficar no lado de Pedro. Elas não ganhavam nada com isso, mas decidiram mesmo assim, entende?
-Sim, você já falou isso, mas ainda não entendi onde quer chegar.
Sua resposta não foi instantânea. Riu mais um pouco antes de voltar a se explicar e voltando a olhar para mim.
-É, fiz uns malabarismos legais de palavras para tentar parecer bonito, mas não tem jeito. – e respirou profundamente e lentamente. – Eu quero me juntar a vocês porque vocês são amigos de verdade, tá bom?
Amigos… de verdade?
-Ah, cara! Que vergonha! – tapava o rosto com as mãos. – Eu iria me jogar em um buraco, se já não estivesse em um. Escuta, eu sei que ‘cê me pediu um motivo digno para me juntar ao grupo, mas… é tudo que eu tenho. Já entendi que não deu. Apenas termine com isso.
Abriu os braços e fechou os olhos. Bem, aquela seria uma forma péssima de pedir que eu “terminasse com isso”, mas… por que eu deveria?
Ri. Ri como não tinha rido há muito tempo. Ele estava errado, só que errado da forma mais esquisita possível. Será que ele notou? Não é possível, ele tinha que ter notado, não é?
-“Não deu”, você diz?
Eu ainda sorria quando lhe fazia tal pergunta. Makoto estava o completo oposto, provavelmente surpreso por me ver rindo. Talvez não fosse inédito, porém não era algo exatamente comum e não me surpreendia que não tivesse tentado falar nada daquela vez.
-É uma razão bem digna, na verdade. – prossegui. – Ao ponto que você me deixou até mesmo aliviada, porque não entendia seu interesse repentino. Pedro sentia o mesmo.
-Ele… sentia?
-Sim.
Uma das coisas que Pedro havia comentado comigo era sobre o interesse repentino do garoto em estar junto de nós. Não sei dizer porque ele havia perguntado para mim e o ponto é que eu não tinha uma resposta. A minha intenção aqui não era apenas aleatória e…
-Fico feliz que tenha sido sincero. – completei. – É tudo que eu precisava saber.
Ele parecia confuso e meio que entendia o porquê. O sorriso do meu rosto agora não combinava comigo, com as ações da temida Nara Ennetsu. Até então eu tinha receio de mostrar quem eu realmente era e toda aquela máscara perdia cada vez mais o sentido de existência.
“Amigos de verdade” então, hã? Então não é que Akemi estava me desafiando ou algo do tipo, ela apenas tinha… criado certa intimidade? Cara, eu me sinto uma estúpida agora. Até mesmo ela parecia estar disposta a sair do terreno do temor e eu ainda estava nessa.
Pode até parecer embaraçoso, mas eu sentia uma vontade estranha de passar uma boa imagem para o Makoto, então talvez pudesse começar a tentar.
-Certo, então… cumprirei minha promessa. – falei, suavemente. – Sairei da arena.
Aquilo seria bem difícil. Não vou negar que ainda tinha uma honra de defender as trezentas e tantas vitórias consecutivas que tinha. Não tem problema… quer dizer, tem sim, mas eu não deveria aumentá-lo tanto assim. É só um torneio estúpido, afinal.
Destruir a terra que o meu adversário criou não seria problema nenhum para mim, inclusive dava facilmente para simular uma derrota se usasse força o suficiente. O que eu ainda não sei é qual das alternativas eu deveria…
Hã? Ele está rindo?
Já tinha me virado de costas e voltei a olhar na direção de Makoto. Sim, ele estava rindo. Nada próximo a uma gargalhada e acabou rapidamente logo depois que percebeu o meu olhar. Me fitou sorrindo por um tempo e logo disse algo.
-Do que ‘cê ‘tá falando? – perguntou. – Vai entregar a sua sequência absurda de vitórias assim mermo? De bandeja?
Hah, era incrível como havíamos pensado na mesma coisa.
-Foi o combinado. – afirmei, contendo o sorriso.
-É… combinado ou não, seria um péssimo exemplo pro seu aprendiz. Imagine se ele fosse mais longe que ‘cê, logo de primeira? Não quero que ele fique metido também.
Espera, ele… sabia?
-Não se preocupe comigo, Ennetsu.
Sua aura iluminava novamente o ambiente, mesmo sem muita força. O que ele pretendia…
-Tenho outras três oportunidades ainda.
E nem tive tempo para assimilar o que disse.
A plateia vaiava há minutos. O professor Ootsuka tentava acalmá-la, mas em vão. Nara e Makoto estavam dentro de uma grande montanha de terra, criada pelo último dos dois e fazia muito tempo que absolutamente nada acontecia.
-O tempo vai acabar.
A baixinha constatava o que já estava aparecendo no letreiro: nove minutos e dezesseis segundos de “batalha”. Desde o primeiro minuto, a tal montanha havia sido criada e nada mudou desde então. Essa era toda a nossa visão e de todos os outros, o que justificava tamanha impaciência. Para nós, por outro lado, era mais curiosidade. Nara teria toda a capacidade de já ter terminado o embate há tempos, mas tudo o que tínhamos eram nove longos minutos de nada acontecendo. Por quê?
-Sim, vai. – concordei. – Eles vão apenas empatar, então?
-Não faz sentido. Não é assim que Nara faz as coisas.
Ah, sobre isso…
-Ela estava meio diferente hoje. – lembrei.
Ela olhou para mim.
-Você disse isso antes. – constatou.
-Sim, mas logo depois do almoço ela parecia mais… como eu poderia dizer… natural. Nada de sorrisos educados ou dicas óbvias. Ela parecia mesmo uma pessoa, com personalidade e tudo.
Ela riu, com certa vontade.
-Você nunca comentou do assunto, então imaginei que não se importasse. – disse, sorrindo. – Sim, é exatamente assim que ela agia. Aos poucos, ela vai começar a se mostrar mais e você nem se atreva a reagir mal.
Ri junto com o tom nitidamente irônico e forçado do final de sua frase. Pretendia continuar a conversa, antes de ser interrompido por um evento na arena. Alguém voava para fora do monte de terra, espalhando poeira que quase chegava à arquibancada. Makoto apareceu e rolando no chão por alguns metros, até finalmente parar já próximo à parede e de barriga para o chão. Não consegui perceber se estava desacordado ou não, principalmente por toda a minha visão dele não estar passando de uma silhueta no meio da poeira agora.
As vaias deram lugar a um silêncio no ginásio. Nem todos devem ter visto quem perdeu, o que foi comprovado logo em seguida com Nara saindo do túnel, enquanto sua aura brilhava intensamente. O silêncio deu lugar a gritos tímidos e que eram mais altos do que realmente populares. O tempo do letreiro indicava nove minutos e cinquenta e seis segundos, agora parado.
–Senhor Maeda está fora da arena! Nara Ennetsu é a vencedora!
Imagino que aquele momento foi de total alívio para o professor Ootsuka, principalmente porque estávamos próximos de um motim. Aplausos e gritos aconteciam enquanto o letreiro agora mostrava as posições novamente, com o nome de Makoto tachado para mostrar que fora eliminado. A cor do nome de Nara agora estava verde, assim como todos até a quinquagésima colocação, contra o laranja de todo o resto, provavelmente para mostrar que estavam classificados.
–Em breve iremos fazer o sorteio das quinze lutas restantes e esperamos que sejam batalhas… bem, melhores do que essa.
Dessa vez ninguém riu. O barulho já havia cessado e o problema maior era mesmo a forte impaciência antes da decisão daquela luta. Sobre ela… a conclusão era, no mínimo, estranha. Makoto levantou rápido, antes mesmo do anúncio do professor e já estava no caminho até nós. Quando já estava perto, confirmei minhas suspeitas: não parecia cansado ou machucado, apenas sujo de terra e boa parte desta já havia sido limpa antes que chegasse. Ele sentou no lugar que Nara estava antes, sorrindo.
-Ah, cara, que merda. – e coçava a nuca, demonstrando embaraço. – Bem, não dava pra esperar que fosse difer…
-Você está no lugar errado. – Akemi dizia, secamente. – Seu lugar é do outro lado de Himari.
-Pô, eu acabei de ser eliminado, dá um desc…
-Lugar. Errado. Troque. Agora.
Eu e Himari rimos da implicação da baixinha. O caso é que ela não estava errada, então imagino que ela mais avisou sobre ele estar no lugar da garota do fogo do que realmente estava incomodada de fato.
-Tá tudo bem, Akemi. Eu sento aqui.
Nara agora chegava e sentava na minha direita. Ela… sorria?
-É exatamente esse o problema…
Akemi havia sussurrado aquilo e era bem provável que Nara não tinha ouvido ou apenas não ligou mesmo. Sorri e tentei segurar o riso, enquanto notava outro detalhe interessante daquele desfecho: a aura da adversária de Makoto estava forte demais para o seu padrão no final da luta, o que significa que ela havia usado, supostamente, força o bastante. Não duvido que ele seja forte, o que realmente duvidava era o quanto aquele montinho básico de terra aguentaria uma Nara de força máxima. Improvável, no mínimo.
Alguma coisa aconteceu naqueles nove minutos enquanto eles estavam propositalmente soterrados e eu estava curioso o suficiente para perguntar para a garota do meu lado. Digo, só ela entenderia toruguês mesmo, então…
-Ele tem boas intenções, não se preocupe.
Ou assim eu planejava, até que ela passou na minha frente. Olhei para Nara e notei que estava sorrindo, mas mantendo seu olhar para frente. Até mesmo duvidaria que tinha falado mesmo ou se estava imaginando, porém aquele sotaque era indistinguível. Ele e, bem, o toruguês em si.
Imaginei que estivesse falando do Makoto, mas não citou seu nome por ser a forma fácil de ser identificada, mesmo por quem não entendesse a língua. De certo, isso explica porque demoraram tanto; imagino que o novo membro foi interrogado por ela, o que realmente não entendia era porque os dois sorriam, como se tudo tivesse definido na paz. Contrastava completamente com a violência que ele tinha sido arremessado.
-E prepare-se. O diretor provavelmente vai foder você também.
De certo, agora realmente podia confirmar que tinha sido Nara. Seu sorriso virou uma expressão mais séria e o olhar agora estava diretamente para mim.
Certo… aquele papo de novo, então? Eu sequer sabia o que perguntar de volta. Digo, por que o diretor iria querer me… foder? E por que tinha feito o mesmo com ela, logo a Nara Ennetsu? Talvez ela esperasse que eu entendesse as entrelinhas, mas aquilo era muito vago.
–Espero que todos estejam prontos para o sorteio!
E ficaria para depois, porque agora o professor Ootsuka chamava de novo a atenção para si. Soltei um soluço de espanto depois de perceber que a arena estava nova, como se nada tivesse acontecido ali. Mas que diabos? Como eles ajeitaram tudo tão rápido?
–Temos quarenta e nove classificados e agora os últimos quinze serão decididos. – prosseguiu, enquanto pegava uma caixa muito parecida com a do sorteio da batalha anterior. – Todas as batalhas serão feitas aqui mesmo e seguindo as regras do mata-mata dos torneios, o que significa… nada de empate e o tempo é ilimitado. Só espero que não se aproveitem disso, por favor.
E risos tímidos vinham da plateia atrás de nós. Por um momento me perguntei porque agora a permissão do tempo ilimitado e logo cheguei na conclusão lógica: empates com eliminados só classificariam mais gente automaticamente e isso não era necessariamente emocionante ou algo do tipo. O único problema é que isso significaria que tudo poderia terminar em literais horas. Cara, espero não ser um dos últimos a lutar.
Ele adicionou que o resultado dos grupos seria divulgado ainda hoje, mas que os quarenta e nove que já tinham a vaga poderiam ir embora e assim alguns fizeram. Logo depois disso, nomes começaram a ser sorteados, entretanto absolutamente nenhum que eu conhecesse, sendo de outras séries ou de outros campuses do Chikara. Já me preocupava com aquele sorteio seguir a ordem de participação, o que significava que meu temor se concretizava e realmente seria um dos últimos. Ah, caralho.
No final das contas nem tinha perguntado para Nara o que queria e talvez fosse uma boa oportunidade fazer isso agor-
–Número oitenta! Pedro Cardoso da décima série do campus de Atarashi é o primeiro sorteado da batalha de número oito.
Oh. Finalmente. Quem eu iria enfrentar? Ah, que diferença faz, a maioria é desconhecido mesmo.
-Ele vai sortear Himari agora.
Hã?
Nara havia falado aquela premonição em voz alta e em yukoponês, então chamou a atenção de basicamente todo o grupo. Por que ela falava aquilo como se tivesse total e absoluta certeza?
–Oooh! – Makoto exclamou, quase maravilhado. – Seria interessante mermo ver Pedro contra Himari, mas eu aposto em…
-Não tem porque apostar. – e a garota do fogo interrompeu, sem cerimônias. – Ele vai sortear Himari. Faz parte do plano.
Espera… então é isso que ela quis dizer sobre o diretor me foder? Pensando bem agora, ela meio que tinha acertado sobre o primeiro dos sorteios. Olhei para o professor Ootsuka e lá estava ele, mexendo na caixa novamente e tirando um papel. Era agora.
–Número setenta e dois. Himari Yamazaki! Pedro Cardoso enfrentará Himari Yamazaki também da décima série do campus de Atarashi na batalha oito. Essa é interessante!
Ela… acertou.
-Previsível. – disse, com uma certa chateação. – Com Akemi e Misaho entre as primeiras, não havia porque ele sortear outra além de Himari.
Olhei para a Yamazaki. Ela estava estupefata, é claro, assim como eu também estava. Diferente de Nara, nós não sabíamos que iríamos nos enfrentar.
Eu… eu acho que entendi agora. O diretor não gostou de algo que a garota do fogo havia feito, provavelmente na segunda prova. Era por isso que ela também tinha ido para a sua sala, mesmo sendo claramente a vítima do que tinha acontecido. Agora estava manipulando os sorteios, para…
-Escutem.
Nara interrompia meus pensamentos e só isso, porque todos estavam em silêncio.
-Não importa o que aconteça hoje, quero ver vocês todos os dias do torneio, está bem? – prosseguiu, séria. – O que o diretor quer é desmanchar o nosso grupo, então não importa o que aconteça hoje, principalmente entre Pedro e Himari. Vamos demonstrar que somos mais fortes do que uma armação barata.
Ela… ela acabou de…
–Uhul! – uma voz masculina gritava do meu lado e logo identifiquei como a do Makoto. – É isso aí, rainha!
-O… o diretor? – Akemi perguntava logo em seguida. – Por quê?
-Ele não gostou nem um pouco da ajuda que dei ao Pedro hoje.
O professor de Educação Física continuava o sorteio pelos outros participantes, mas ninguém do nosso grupo dava a mínima agora.
Espera, então isso é… sobre mim? O sorteio está sendo manipulado simplesmente porque tive ajuda de Nara naquela ocasião? Isso era proibido, então? Transformei a minha dúvida em uma pergunta receosa e ela respondeu rápido.
-Não é. Ainda assim, eu lhe ajudei em uma prova de classificação individual e isso o irritou profundamente. Agora ele está tentando criar uma intriga entre nós, forçando que dois saiam do torneio de uma só vez.
…
Uau.
Uau.
Não importa o quanto eu já esteja convivendo nesse colégio, apenas… uau.
Isso não só é estúpido e infantil, mesmo para nós, como também demonstra algo preocupante: eles podem fazer o que bem quiserem. Qual é a próxima? Um grupo entre Nara, Akemi e o classificado ou classificada que sair da luta entre mim e Himari para forçar um a ser eliminado o mais rápido possível?
Não, não, eu estou pensando baixo; se isso for verdade, certamente há uma mexida de pauzinhos em outros momentos também. Nas correções das provas? Nos trabalhos em grupo? Diretamente com os professores? Até onde isso vai, afinal? E tudo isso apenas na intenção de atiçar uma competição constante? Sério? Sério mesmo?
Não dá para ignorar também que isso estava interligado com aquele evento na aula de Educação Física. Humilhar alunos supostamente excepcionais é válido, desde que você incite que eles se matem, metaforicamente ou não.
A pergunta que eu ainda me fazia nisso tudo é: por quê? Você já reuniu os mais fortes em um antro só, então por que fazê-los se destruírem? Não seria muito melhor que tais pessoas se unissem, em prol de um exército adolescente ou algo do tipo? Sei lá, isso parece idiota, mas ainda menos idiota do que fazer esses mesmos adolescentes brigarem constantemente, rebaixando os mais fracos. Basta olhar para a Himari, que tem poder o suficiente para acabar com até muitos adultos em uma batalha justa e aqui apenas se remoía o tempo todo, alegando o quanto era incompetente e fraca.
Mas ei, há algo que me deixou feliz agora. Nara, que antes fazia parte dessa merda sem sentido, começou a negar participação nos embates periódicos e agora lutava contra, principalmente falando em união. Sei que talvez não signifique muito para ela, mas hoje eu sinto orgulho. Boa, Nara!
–E com isso terminamos os sorteios! A primeira eliminatória começará em dez minutos e todos estão convidados a assistir. Boa sorte para os que disputam as últimas vagas!
O professor Ootsuka se afastava do microfone dessa vez e falava com pessoas próximas. Alguns eu reconheci como professores, enquanto outros não fazia a menor ideia. Nem havia acompanhado os últimos sorteados também e, para ser sincero, não me importava muito.
Olhei para Himari, que parecia justificavelmente tensa. Sua personalidade impediria demonstrar algo muito além disso, com toda a certeza. De início até pensei em falar algo para acalmá-la, mas logo cheguei na conclusão que eu seria a pessoa mais inapropriada para isso. Além do mais, o que iria falar? “Ei, Himari, sei que a gente vai se destruir em breve, mas fica tranquila porque depois disso vamos estar rindo”. Eh, não. Definitivamente não.
Diabos, eu estava nervoso agora. Supostamente ela não era tão forte, mas chegou até aqui. De certo, com um empurrãozinho meu e talvez isso seja parte da razão do diretor querer me “foder”, mas ainda chegou. Em um momento Nara comentou que coisa de duas a três mil pessoas tentam ir para cada categoria do torneio e dessas, sobraram oitenta. Estar entre tais oitenta é um enorme sinal de que subestimar é uma péssima ideia. Some tudo isso ao fato de que ela nunca chegou tão longe e provavelmente não vai deixar essa chance escapar tão facilmente assim.
Isso era além de sermos e continuarmos amigos. Por mais que eu adorasse que a “competição eterna” imposta pelo colégio apenas sumisse, seria muito ingênuo pensar que ela ainda não estava lá e Himari certamente havia sido influenciada por tal.
Merda, quanto mais eu pensava no assunto, maior era a tensão. Ignorando todos os fatores, aquela seria a primeira batalha a sério que teria no Chikara e não me sentia nem um pouco preparado. Cacete, eu… eu…
-Eu preciso ir no banheiro.
Ninguém perguntou nada e também não tentaram me parar. Se estavam confusos ou não, não haveria como saber, já que não olhei ninguém no rosto enquanto saía do meu lugar e me dirigia, a passos rápidos, para onde havia dito que iria.
Não vejo como isso vai me ajudar, mas é tudo que consegui pensar naquela situação.
Modéstia à parte, eu escondia muito bem. Quem olhasse para o meu rosto agora, certamente não notaria o quanto eu estava nervoso. A minha mão direita tremendo seria um sinal, no entanto ela não faz parte do rosto, afinal.
Jogar água gelada na cara não era o suficiente. Fazer isso todos os dias para acordar antes das andadas ajudou a tornar tal ação comum demais para que servisse como o baque que eu precisava. Sequer o susto como efeito do líquido gelado sendo arremessado com força funcionava mais.
Merda, eu não estava preparado para isso. Logo contra Himari? Como você agia agora que precisava lutar contra uma amiga sua? Não era a primeira vez, de fato, mas dessa vez valia uma classificação inédita para os dois, sendo que, na parte dela, daria para argumentar que valia bem mais do que a minha. Não consigo imaginar a sensação de estar tão próximo de acabar com uma série de fracassos e então ter tudo jogado ladeira abaixo por alguém que não passou nem por dez por cento disso.
Deveria perder de propósito? Não, isso seria ainda mais humilhante do que perder em uma batalha justa. Simplesmente não aparecer na luta levantaria perguntas demais e eu sabia que não teria a capacidade de mentir bem o suficiente para que acreditassem em mim. Não dava para esquecer também que havia pessoas que esperavam bastante de mim e eu decepcionaria essas junto.
Caralho, o que eu faço?
A água escorrendo do rosto escondia bem o suor frio que descia agora. Era uma tremedeira sem parar e colocar a mão esquerda no peito mostrava que o coração parecia bater mais forte do que o normal. Desse jeito, eu vou acabar entregando sem querer e isso seria ainda pior.
Por que eu via a imagem no espelho de alguém que parecia perfeitamente normal? Eu não estou normal, porra! Eu preciso… eu preciso… fechar os olhos.
…
É, aquele ditado do “o que os olhos não veem, o coração não sente” tinha seu valor. Aquele silêncio certamente ajudava. Desde que ninguém mais entrasse no banheiro, estaria tudo bem. Respirei profundamente e repetidamente. Não era a primeira vez que fazia aquilo, é claro, assim como sabia que servia para me deixar mais tranquilo. Eu sabia que, logo quando abrisse os olhos, tudo voltaria aos poucos, mas esse pequeno momento de calma era tranquilizador.
Tá tudo bem.
Tudo vai dar certo.
Não é como se você fosse para uma missão de vida ou morte ou algo do tipo.
Independentemente do que aconteça, a vida continua. Basta continuar remando a favor da maré.
…
Inalei de volta. Precisava abrir os olhos dessa vez e foi o que fiz. O Pedro normal estava lá e as tremedeiras estavam menores. Sim, tudo estava melhor agora e o tempo só melhoraria isso. Fechei a torneira; não precisava mais de água. Tudo que eu preciso agora… é sair desse banheiro.
Abrir a porta me fez deparar com o som do ambiente novamente, além da iluminação fraca do sol que começava a se pôr. Não tive muito tempo para pensar até então sobre o quão frio o dia estava. Era estranho, ainda mais porque já tinha pegado dias piores aqui. Não faz diferença, bastava colocar as mãos nos bolsos do suéter. Deveria ter escolhido um com capuz e talvez fosse uma ótima ideia para os dias seguintes, principalmente com o celular dizendo que ia ficar mais frio nos dias seguintes e… ei, está estimado nevar no quarto dia da semana. Isso seria interessante. Tenho a certeza que todo o grupo iria rir do quanto eu seria claramente tabaréu com a neve.
Guardei o celular, um pouco mais empolgado dessa vez. Sim, eu estava mais calmo agora. Não sei o quanto ficaria mais à frente, mas estava. Isso era bo-
Ei, espera aí, aquela pessoa… ah, não. Não, não, não…
Havia uma garota encostada na parede próxima e que logo reconheci. Ela talvez não soubesse o quanto fez parte do meu dia, mesmo que não fosse ela de fato na maior parte das vezes, mas isso não importava. Ainda era a última pessoa que queria encontrar agora.
Misaho olhou para mim, atravessada. Estava de braços cruzados e apoiando um dos seus pés na parede. Nada disse, enquanto eu diminuía os passos. Droga, ela estava no caminho. Não sei se ela sabia disso e, sinceramente, não fazia a menor diferença, ela ainda estava no caminho.
Ok, ok, vamos ser razoáveis aqui. A Misaho da simulação não era a mesma Misaho; precisaria colocar aquilo na minha cabeça e realmente acreditar nisso. Ela já passou do meu lado hoje e nada falou, assim como também olhou para mim antes. Era só uma coincidência ela estar lá e provavelmente esperava alguém. Certo? Certo. Vamos apenas fazer o mesmo que antes e passar normalment-
-Vocês dois são fortes na defesa.
…
Er… o quê?
Já tinha passado por ela e precisei virar a cabeça para trás. Ainda estava na mesma posição e olhava diretamente para mim. Procurei por algo que identificasse a sua reação e nada encontrei, apenas estando neutra. Definitivamente foi ela quem havia falado isso e reconheci pela voz, mas não havia assimilado nada.
-Você… falou comigo? – perguntei, receoso.
-Vocês dois são fortes na defesa. – repetiu. – Se quiser vencer, vai ter que investir no ataque, físico principalmente.
Espera… ela está…
-Não sei se entendi.
-Você vai enfrentar a Himari, não é? – notei um pouco de impaciência em sua voz. – Ela é uma mulher, logo o seu forte é o poder elemental. Se você se descuidar, ela vai estender a batalha o máximo que puder, até lhe cansar e então lhe vencer.
Sim, ela estava me dando dicas. Mas… por quê?
-Se você quiser vencer, vai ter que usar a sua arma secreta. – prosseguia, sem hesitar. – Um ar gelado é pesado e tornaria a defesa dela bem mais fraca, dando oportunidade para que você contra-atacasse e a jogasse fora da arena, usando a arma dela contra ela mesma.
Ela desencostou da parede e descruzou os braços, andando em direção oposta a que eu deveria seguir. Espera, ainda era muito para processar.
-O… o que você tá fazendo?
Minha pergunta chamou a sua atenção e Misaho virou sua cabeça para trás.
-Lhe ajudando. – disse, secamente.
-Tá… não foi a forma certa de fazer a pergunta, então… por que você tá me ajudando?
-Porque você não venceria a batalha sem ajuda, mesmo que seja mais forte do que ela. – e virou para frente. – Sua ansiedade não lhe deixaria pensar rápido o suficiente para reagir.
Era incrível como aquilo respondia e não respondia à pergunta ao mesmo tempo. Ela voltava a caminhar novamente, quase como se o assunto tivesse sido encerrado. Não, não estava encerrado.
-Não se faça de boba, Misaho. Você sabe exatamente o que eu quis dizer com a pergunta.
Fiquei até impressionado comigo mesmo sobre o quanto aquilo saiu até mesmo imponente; era o exato oposto ao meu nervosismo no momento. Bem, serviu perfeitamente para chamar a sua atenção e agora ela virava completamente para mim.
-Eu sei? – perguntou, indiferente.
-Sim, você sabe. O que eu quero dizer é… o que você planeja ganhar com isso?
-Nada.
Ok, aquilo estava começando a me irritar.
-Então eu deveria apenas acreditar que você está me ajudando de bom grado depois de tudo que aconteceu entre a gente?
Certo, vamos ver o quanto você continuará fingindo.
Ela não respondeu de imediato, apenas olhando para mim, sem muita empolgação e assim ficou até que finalmente desse uma leve risada ao desviar o seu olhar.
-Fico impressionada que você realmente não tenha percebido. – e voltava a olhar para mim, sorrindo. – Certo, responderei a sua pergunta em duas partes.
Levantou a sua mão direita e deixou o dedo indicador mais alto, provavelmente para indicar a primeira das partes.
-Himari só ainda está no Chikara por minha causa. – disse, serena. – Se minha dica parece simples e objetiva demais é porque eu mesma que a treinei.
Hã? O que ela queria dizer?
-A treinou?
-Sim. É uma história engraçada, na verdade, mas irrelevante. – colocava agora a mão esquerda na cintura. – Vamos apenas dizer que Himari estava sentindo o colégio de uma forma tão incômoda que praticamente implorou para que eu lhe ajudasse.
É, aquilo eu não fazia ideia.
-Em qualquer outro momento, eu não ajudaria, mas fiz daquela vez. – prosseguiu. – Ensinei para ela todos os métodos de defesa que sabia e ela aprendeu bem rápido. Em coisa de meses, mais ninguém mexia com a bonequinha da Yamazaki. Bem, eu estar por perto certamente ajudava.
Espera aí, então Himari treinou com Misaho? Assim como eu estava treinando com Nara agora? Ela nunca havia comentado do assunto e tentei esconder a surpresa.
-Então faz todo sentido que eu saiba exatamente como acabar com a defesa dela, não acha?
-Certo, mas você disse que eram duas partes…
-E a segunda era a que você deveria ter notado, bobinho. – levantava agora o dedo médio para acompanhar o indicador. – Estou lhe ajudando para que você se classifique porque é interessante.
Não sabia o que queria dizer com aquilo e apenas deixei que continuasse.
-Você anda com duas guarda-costas o tempo todo, três, se incluir Himari. Eu não sou idiota, sei que qualquer coisa que eu tente fazer com você, virá acompanhada de uma enorme retaliação. Só vou ter um momento para acabar com você sem que ninguém possa interferir.
Eu… eu finalmente tinha entendido e estava arrependido de entender.
-…o torneio? – perguntei, receoso.
-O torneio! – e sorriu, de uma forma assustadoramente feliz. – Exatamente. Entendeu agora?
É claro. De fato, agora entendia porque ela estava até mesmo desapontada por não ter entendido antes.
De certo, eu nunca esperei que a Misaho simplesmente me deixasse em paz. Isso já tinha sido anunciado pela própria Nara antes e eu tentava não pensar mais no assunto. Na verdade, pensei tão pouco no assunto que já nem ligava mais e achava que ela tinha esquecido ou parecido. Que ingênuo que eu sou. Aliás, falando em ingenuidade, ela não notou algo bem idiota do seu próprio plano?
-Você me contou suas intenções e agora só espera que eu siga, sem hesitar? – questionei, confiante. – O que impede que eu faça exatamente o oposto e entregue a classificação?
Mesmo falando aquilo, ela ainda sorria. Se duvidar, o sorriso era ainda mais intenso do que antes.
-Não, você não vai. – afirmou.
-E como pode ter tanta certeza?
-Porque você é muitas coisas, Pedrinho. Muitas delas que eu odeio, mas se tem uma coisa que você não é, é um covarde.
Era isso então? Apenas pela questão de honra?
-E você acha que isso é o suficiente?
Eu ainda demonstrava a confiança de antes e perguntava enquanto olhava diretamente nos seus olhos. Admiro que a Misaho esperasse que a minha suposta coragem fosse o suficiente para que eu não corresse de uma luta, mas mesmo o meu lado instintivo repetia que ceder às suas vontades era apenas estúpido. Entre a razão e a honra, escolheria a razão, em qualquer momento do dia.
-Talvez não seja mesmo. – respondia, sem hesitação. – Por isso há um segundo motivo: você não quer decepcionar sua mestra, não é?
…ou assim eu achava que seria.
-Nara não ficaria extremamente decepcionada se descobrisse que você entregou uma batalha apenas para correr de uma humilhação maior? – continuava, com um sorriso confiante. – Decepcionada ao ponto de lhe largar à própria sorte. Se ela, que é tão próxima de você, faria isso, como você acha que suas outras amigas reagiriam? Esqueceu que elas lutaram do seu lado? Acha que isso foi por quê?
Era…
-Você não tem como afirmar que foi esse o motivo. – falei.
-Não. – e deu uma risada leve e rápida. – Nem você tem como provar que não foi.
…
-No final das contas, você sabe muito bem o que faz. A gente se vê.
Virou-se novamente e seguiu o caminho que já tinha começado antes, enquanto acenava de costas.
De todos os sentimentos daquele dia, aquele era o pior de todos. Nem mesmo a angústia que senti na simulação da simulação ou até mesmo o nervosismo de saber que lutaria contra a Himari eram tão ruins.
Misaho tinha razão e, por mais que tentasse negar, eu sabia disso.