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Primeiro – 11/15/612 – 17:52
Ginásio três do campus de torneios do Chikara no Kyoten

-Ué, onde eles…

Eu não falei tão alto assim, mas foi o suficiente para chamar a atenção de Nara, que parecia perdida em seja lá o que via em seu celular. Assim que me viu, desligou a tela do aparelho e o guardou no bolso, com uma urgência muito maior do que realmente precisava.

Sorriu. Não era um de seus sorrisos educados e sim um daqueles que já estavam lhe acompanhando desde de quando revelou sua “verdadeira eu”. Ou ao menos o que eu achava que fosse sua “verdadeira eu”.

-Os três saíram logo depois de você. – respondia, em toruguês, a minha pergunta que nunca terminei. – Não disseram para onde estavam indo.

Continuou a me observar, quase como se estivesse esperando uma tréplica à resposta que praticamente fechava o assunto de vez. Como não sabia o que dizer, tudo que fiz foi sentar silenciosamente do seu lado. Não protestou. Na verdade, poderia jurar que era exatamente o que estava esperando.

Em qualquer outro momento me sentiria envergonhado, pensando em coisas que… bem, não deveria estar pensando, assumindo outras coisas que não deveria estar assumindo, mas agora nenhuma destas eram prioridade na minha cabeça.

O “evento” há minutos com a Misaho não exatamente me deixou preocupado ou angustiado. Digo, ela tem razão, como eu não notei antes? É claro que ela queria que eu me classificasse para que pudesse me dar uma lição em público. Pensando agora, é tão óbvio quanto um mais um igual a dois. Só que há uma parte bem engraçada nisso tudo… eu não estou com medo.

Na verdade, estou sentindo muito mais raiva do que realmente medo. Raiva de saber que tudo isso será em vão e que eu apenas irei apanhar, sem nenhuma ou com pouca possibilidade de reação, em frente a um público que provavelmente reagirá ensandecido. Não foi assim que eles reagiram com Nara e Makoto? Sequer havia acontecido nada e lá estavam eles, gritando a todos pulmões, empolgados achando que veriam sangue rolar. Será que é permitido “sangue rolar”? Não faço ideia, mas seja lá quais forem as permissões, tenho a certeza que Misaho é veterana.

E não é só isso; algo que também me incomodava era o quanto ela parecia me conhecer. Diabos, ninguém além de Nara e Akemi parecem saber dos meus treinos e Misaho sabe? Convivemos tão pouco e ela reconheceu minha ansiedade? Eu sou tão livro aberto assim?

Argh. Pior do que ter raiva dos outros é ter raiva de si mesmo.

-Você está bem?

Olhar pro lado foi o suficiente para perceber Nara com um claro semblante de preocupação, longe das suas emoções que tendiam à neutralidade ou até mesmo à indiferença genérica. Não me surpreendia em nada, porém; não depois de tudo que havia acontecido.

E, bem… acho que eu estar segurando a minha própria cabeça em sinal expressivo de como me sentia era mais do que o suficiente para chamar a atenção de qualquer um. Teoria do “livro aberto” confirmada, afinal.

-Não muito diferente do de sempre. – respondi, levando as mãos a cada respectiva perna do meu colo.

Não sei se foi o fato de ter deixado de sorrir como geralmente fazia ou se fui tão convincente quanto um japelão estragado, mas era óbvio que ela não havia exatamente acreditado.

-Pedro…

Ela começou a dizer quando eu ainda estava olhando para a batalha na frente e o tom me chamou a atenção. Ao olhar para o seu rosto, dei de cara com o mesmo semblante preocupado.

-…eu estou aberta para o que você quiser dizer. – continuou. – Se você não se sente confortável de compartilhar, tudo bem, mas em qualquer outra situação, você pode contar comigo, tudo bem?

Era muito estranho.

Eu me sentia como se tivesse adentrado em um novo mundo. Um novo mundo em que Nara finalmente revelasse alguma personalidade e não uma máscara neutra e carregada o tempo todo. Ela já demonstrou preocupação comigo antes, isso não é novo; o que está acontecendo agora é muito diferente, porém. Mesmo os sentimentos de antes eram gentis e reservados, enquanto agora… agora eram sinceros, com certo interesse de sua parte.

O que ela dizia agora não era um pedido de educação, como você perguntar se a pessoa quer mais um copo de água após terminar um no guti-guti. Desta vez, era legítimo. O interesse era claro, não apenas formal.

…e eu estaria mentindo se dissesse que tudo isso não me deixava mais confortável.

Respirei profundamente antes de responder. Não estava realmente hesitando, apenas sabia que o que falaria teria uma certa… relevância.

-Misaho falou comigo quando saí do banheiro.

Não escondeu a surpresa, mas esperava mais detalhes antes de responder algo, provavelmente.

-E ela me deu dicas de como vencer Himari. – completei.
-Ela deu… dicas?
-Sim.

É, aquela confusão foi parecida com a que senti na ocasião.

-Ela simplesmente resolveu falar com você após quase meses de silêncio e deu dicas de como vencer Himari? A Misaho?
-Uhum. Sim, eu fiquei tão surpreso quanto você.
-Você realmente não confia nela, certo?
-Na verdade…

Me encostei na arquibancada. O público soltou algum grito relacionado à briga na minha frente, no entanto estaria mentindo se dissesse que prestei atenção no que era.

-…pareciam dicas boas. – finalizei.

Ela soltou uma risadinha.

-Você tá tirando uma com minha cara ou tem mais? – perguntou, desviando o olhar para frente e o teto.
-Tem mais.

Pelo visto não é apenas meu yukoponês que evoluiu nesses tempos. Vezes como essa poderiam facilmente dar a impressão de Nara ser uma sul-toruguesa nativa… se você ignorasse o forte sotaque, claro.

Ela não respondeu, dando um claro aval para que eu continuasse.

-Misaho disse que fez tudo isso porque ela quer pessoalmente me dar uma lição no torneio. – prossegui. – Inclusive adicionou que quer que todos vocês vejam.

Seu sorriso murchou na hora e uma nítida raiva entrou no lugar.

-Tá me zoando? – questionou, claramente indignada.
-Não.

Não é que eu não queria falar mais coisas, só estava dando espaço para que pensasse. Pelo que conheci hoje da garota do fogo, ela teria algumas reações esperadas.

De momento, apenas desviou o olhar, mordendo os lábios inferiores e respirando mais alto que o normal por alguns instantes. Sua visão variava do teto para a arena, em que era claro que não estava dando a mínima para a batalha que acontecia. Precisou de mais alguns segundos para reagir além disso.

Levantou subitamente, demonstrando uma mistura de indignação e chateação, ou pelo menos foi o que eu consegui perceber.

-Vou ter que acabar com isso, então. – disse, controlando o baixo tom com uma força muito além do que precisava.
-Não.

É, aquela era uma das reações que eu estava esperando. Minha negação a fez se virar diretamente para mim.

-Você não entende, Pedro. – agora não controlava mais o tom. – Ela só vai parar quando alguém parar ela.
-E esse “alguém” não precisa ser você, Nara.

A confiança em minha voz escondia bastante as tremedeiras nas mãos.

-E quem vai ser? Você?

É incrível como uma pergunta tão simples demonstrava tantas coisas. Você nunca perguntaria algo do tipo se estivesse com medo de ofender a pessoa. Nara sabia que não estava me ofendendo. Ela se sentia livre, com intimidade, eu diria. E, bem, não é como se fizesse sentido me ofender; sua pergunta tinha um certo nível de sensatez e que requeria uma explicação tão sensata quanto.

Fugindo dos meus planos, porém, ela suspirou e colocou a mão direita na sua testa, substituindo a indignação por frustração. Sua visão não estava mais em mim e sim para o “além da arena”.

-Você tem noção do quanto eu precisei falar com o Murakami para que você continuasse aqui?

Espera… o que ela quer dizer?

-O que você…
-Ele estava mais do que disposto a te chutar daqui. – me interrompeu e olhou para mim novamente. – Você sabe disso, não é?

Não. Isso não faz sentido, na real.

-Não foi o que ele…
-O que ele fez hoje não é o suficiente para entender, Pedro? – mais uma vez me interrompia sem cerimônias. – Se ele fez isso com você seguindo as regras, como acha que ele agiria se você não as seguisse?

Então… ela não faz ideia?

-Se você continuar arrumando confusão com a Misaho, vai dar ruim. Eu posso resolver isso de uma vez e lhe garanto que ela…
-Nara!

Definitivamente não esperava minha interrupção. Calou-se abruptamente, mesmo que eu não tenha continuado tão rapidamente.

-Você pode me escutar, por favor? – perguntei.

Aquele momento provava também o aumento de intimidade entre nós. Digo, quem diabos eu penso que sou para confrontar Nara Ennetsu daquela forma? Ela não ter ficado exatamente nervosa completava o pacote de novo nível de convívio.

Não respondeu, pelo menos não verbalmente. O que fez foi suspirar e timidamente assentir, indiretamente me autorizando a prosseguir. Levantei meu rosto, ao mesmo tempo que cruzava as pernas e olhei na direção dos seus olhos da cor das chamas. Não desviou o olhar e, mesmo depois daquele dia, ainda precisaria subir muito mais níveis para que tal coisa acontecesse. Todavia, estava ótimo assim naquela situação.

-Eu agradeço muito o que você está fazendo por mim, – comecei. – de verdade. Só que eu não posso depender de você para sempre. Eu preciso me virar por aqui também.
-Ela vai limpar o chão com a sua cara. Você sabe disso, não é?
-Eu sei, eu sei! – me adiantei, na intenção de tentar continuar a explicação. – E, sinceramente, faz parte do processo. Escuta, eu…

Dessa vez eu mesmo me interrompia. Enquanto pensava no que dizer, estava tentando engolir a seco o “limpar o chão com a sua cara”. Não era uma ofensa, era uma realidade. Misaho já mostrou o que pode fazer quando tem o controle da situação, algo que ela teria de sobra em um embate envolvendo nós dois. Ao mesmo tempo…

-…eu não vim para cá para depender dos outros. – continuei, após uma breve pausa. – Eu vim para cá para ter a minha própria força. Não vai ser desse jeito que vou conseguir.

Ela cruzou os braços, agora sim, visivelmente chateada.

-E onde você vai conseguir tal força, Pedro?
-Ora, não é óbvio?

Sorri.

-De você, é claro. – completei.

Ok, ok… brega pra cacete, mas diabos, funcionou que é uma beleza. Imediatamente Nara descruzava os braços e me fitava quase que envergonhada.

-Tá, não só de você, – me adiantei. – mas de todos próximos a mim. Todo dia eu aprendo alguma coisa e o que quero dizer é que isso faz parte do aprendizado.

Ela claramente levou muito mais tempo para se recuperar do que faria em situações normais.

Apanhar da Misaho faz parte do “aprendizado”, então? – finalmente perguntou.
-Sim.

Mesmo que eu esteja quase entrando em desespero agora. Meio que a raiva já havia passado após tal desabafo.

-E talvez eu “apanhe da Misaho” até meus últimos dias aqui. – acrescentei. – Não é que eu não ligue, eu só… eu só preciso resolver esse problema eu mesmo, sabe?

Como se apenas analisasse o que eu tinha acabado de dizer, me fitou por alguns instantes e então assentiu silenciosamente e sem adicionar comentários. Aproveitei para concluir.

-Se você quer mesmo me ajudar, basta continuar o ótimo trabalho que já vem fazendo. Não teria chegado nem perto de onde cheguei sem sua ajuda.

E tudo aquilo que disse saiu com um grande sorriso no meu rosto; um sorriso que disfarçava tudo que sentia naquele momento.

Enquanto eu parecia confiante e queria “me virar”, como havia comentado, ainda eu preferia que Nara fizesse o trabalho por mim, que agisse realmente como uma guarda-costas e acabasse com aquilo tudo, tirando esse problemão da minha vida. Misaho tem cara de ser uma pessoa que precisaria apanhar algumas vezes para ceder, mas ela cederia no final e eu não teria que estar criando uma preocupação constante dessas em minha cabeça.

Ao mesmo tempo… isso é injusto, não é? Digo, eu criei todo esse problema, eu confrontei a suposta garota boazinha e com voz doce, mesmo sabendo que isso traria consequências severas para mim. Acabei arrastando muito mais gente que deveria junto comigo, gente que sofreu uma suspensão-quase-expulsão comigo por uma ação exclusivamente minha. Tudo por quê? Porque eu queria dar uma de “heróizinho” como a própria Misaho havia dito?

Não. Por mais que eu quisesse ajuda de todos que estão próximos a mim, isso já se arrastou por muito tempo. Talvez a minha parte emotiva adoraria ter uma proteção da pessoa mais forte desse colégio, mas bem, a minha parte emotiva está sendo uma grande filha da puta. Sofrer o que devo sofrer, mais cedo ou mais tarde, não é apenas esperado, é merecido.

As minhas palavras pareciam não ter dado o efeito desejado com Nara. Ela nada havia respondido e voltava a sentar no meu lado, lentamente e silenciosamente, olhando para a frente e que poderia ser facilmente traduzido para “o nada”. Por um momento achei que ela estava pensativa ou parecido, porém não era nada disso; ela agia como se o que falei tivesse terminado o assunto e não havia a possibilidade de nada mais ser discutido.

Não culpo que ela não esteja querendo falar mais. Em algum momento toda essa breguice ia parar de funcionar af-

-Eu disse para ela que você ia vencer.

Hã?

-Não nesse torneio, é claro, mas eu disse que ela ia engolir toda essa arrogância no final. – prosseguiu, ainda olhando para frente. – Que você venceria uma batalha direta contra ela, mais cedo ou mais tarde. Não, eu não apenas disse, eu apostei isso. Eu apertei as mãos dela, como se tivesse feito alguma espécie de acordo.
-O que você quer…
-Eu fiz tudo isso sem o seu consentimento, Pedro. Fiz tudo isso como se estivesse apostando um animal que fosse vencer uma corrida.

Seu olhar ainda estava no mesmo lugar. Talvez poderia estar percebendo algo errado, mas ela parecia com uma grande vergonha. Não aquele tipo de embaraço padrão e sim algo muito maior, maior o suficiente para nem conseguir olhar para mim.

-Tudo que eu fiz foi aumentar o desprezo que ela sente por você. – continuou. – Eu poderia ter acabado com ela naquele instante, agido exatamente como eu sempre agi e então… então eu tratei tudo como uma brincadeira. O que há de errado comigo, afinal?
-Não tem nada de errado com você, Nara.

Quase como se fosse um gatilho, ela finalmente me fitava após falar seu nome.

-Você não entende, Pedro. Eu agi como eles gostam de agir. Não é assim que eu faço as coisas… ou, pelo menos, não fazia.
-Como você fazia, então?
-Você sabe muito bem como eu fazia.

A parte engraçada é que o que falei não havia sido uma pergunta retórica ou um sarcasmo acompanhado de desdém; eu estava mesmo curioso para que pudesse me explicar e só depois de sua resposta que fui entender a forma que tinha entendido. Agora parecia visivelmente chateada comigo. Voltou a olhar para frente e nada mais disse, enquanto colocava a mão direita semifechada em sua testa.

Droga, aquela não era a minha intenção. Nara estava fazendo um desabafo misturado com mea culpa e tudo que fiz foi tratar como se tivesse concordado com sua autoflagelação. Para deixar tudo melhor, era só adicionar um “aham, você tem toda razão” de uma vez.

Eu precisava fazer algo agora, mas o que eu poderia fazer? Eu…

-Eu fiquei feliz de finalmente lhe conhecer, Nara.

Foi o que saiu. Como já esperava com aquela resposta ambígua, ela se virou para mim, confusa. Bem, confusão é um pouco melhor do que chateação, certo? Não, isso é uma comparação idiota, era como comparar japelões a murquilos. Só porque são duas frutas, não significam que devem ser colocados na mesma balança.

E, bem, não foi só a confusão, ela simplesmente riu.

-O que você quer dizer? – perguntou, ainda sorrindo.

Antes mesmo de responder, já me sentia aliviado.

-É que no nosso… – e segurei antes de falar “encontro”. – exploramento de hoje à tarde, você demonstrou ter algo além de… gentileza padrão, sabe?

A mistura da tentativa de não falar algo para piorar a situação com o meu nervosismo acabou reduzindo a explicação para isso aí. Subitamente parei de falar, como se tivesse dado a justificativa mais perfeita do universo. Como esperado, ela ainda olhava para mim, aguardando que eu fechasse a minha linha de pensamento, presumo. Tempo o suficiente se passou para que isso se tornasse embaraçoso e acabei desistindo, silenciosamente.

Percebendo que ia ficar nisso mesmo, a garota do fogo voltou a olhar para frente.

-Ok. – falou.
-Ok?
-Ok.

Afinal, do que eu estava reclamando? “Ok” estava de ótimo padrão para essa… bosta.

Passamos um tempo em silêncio, ouvindo apenas as empolgações ocasionais da torcida e os gemidos da batalha da frente. Isso me fez pensar que a razão de encher o estádio para ver pessoas se socando seria na tentativa de abafar aquelas coisas. Sério, para quem não fazia ideia de como funcionava uma luta, provavelmente acharia que eram atuados e exagerados; eram até mesmo desconfortáveis se você se focasse neles.

-Você sabe que “exploramento” não existe, não é?

Não exatamente fui pego de surpresa, já que, mesmo sabendo que minha tentativa de a alegrar foi péssima, ainda tinha esperanças de que continuasse o assunto. Virei a cabeça para o meu lado esquerdo e Nara me olhava, com o mesmo sorriso de antes.

-Não? – perguntei com um tom brincalhão. – Vai realmente discutir com o nativo da língua?
-Tenho certeza absoluta que não existe.
-Bem… droga. Não consigo argumentar contra isso.

Ela acabou rindo, o que me deixou ainda mais leve.

-Agradeço a tentativa de me animar, mesmo que você seja péssimo nisso. – completou.
-Ok.

. Como você se sente sofrendo a mesma arma que usou? Atraiu mais risadas de sua parte ainda, apesar de não completar com o combo da pergunta do “ok”. Objetivo alcançado, eu acho.

-Mas sério agora, você não tá chateado com isso?

Bem, aquela pergunta sim me pegava de surpresa.

-Chateado com o quê?
-Com… o fato de eu ter lhe usado pra propósitos pessoais.

Ah, era sobre isso, então.

-Na próxima vez você poderia falar comigo antes, mas fora isso, tá de boa.

Fiz o maior esforço de tornar a primeira parte da minha sentença com aquele tom brincalhão e sério ao mesmo tempo. Você sabe, aquele em que você está brincando e às vezes até mesmo dá risada, ao mesmo tempo em que realmente quer dizer aquilo. Talvez fosse complexo demais para que ela entendesse, mas na pior das hipóteses, levaria apenas como se fosse a sério.

-Mensagem recebida. – dizia, com um sorriso tímido. – É só que tem um detalhe…
-A de que eu vou apanhar amanhã? Não se preocupe, eu já aceitei meu destino.
-Não, não é isso.
-E, bem, eu não me importo se passarmos um bom tempo treinando até que eu finalmente vença a Misaho. Já aceitei sobre isso também.

Seja lá o que eu tinha dito, fez seu sorriso murchar gradualmente para uma expressão temerosa.

-É… é sobre isso.

Seu rosto estava ainda virado para mim, mas seus olhos prestavam atenção em outro lugar. Eu já havia visto Nara envergonhada antes; hoje mesmo, na verdade, no entanto demonstrar isso naquele momento me deixava apreensivo. Não importava o quanto eu treinava a minha mente para não pensar em absurdos antes de confirmá-los, eu ainda formava centenas de suposições na mente em questão de instantes.

-O que quer dizer? – perguntei, tentando me controlar da melhor forma possível.
-É que…

Deu uma pequena pausa, o suficiente para mais algumas centenas de suposições minhas, todas elas terríveis.

-…eu acho que não vou conseguir lhe treinar o suficiente para que vença a Misaho.

E o pior é quando uma delas se concretiza.

-Por… por que não? – dessa vez eu escondia bem menos o nervosismo.
-Porque eu sou limitada no que posso lhe ensinar. – parecia não ter percebido. – Nossas situações são bem diferentes.
Hiperimperium?
-Sim.

Fazia sentido. Nara tinha uma condição que era uma mistura de benção e maldição; não importando de que forma você queira classificar, o que importava é que eu não teria nem de perto a mesma evolução que teve. Ela mesma já havia me explicado sobre as limitações das pessoas “normais”, em que não há muitos relatos das que cresceram muito além da sua afinidade de nascença e, mesmo nas que fogem desse padrão, é um trabalho de décadas. Meio que, indiretamente, ela havia dito que não havia muito que pudesse ser feito em relação ao meu caso, certo? Idiota fui eu, que pensei que não aplicaria a mim.

-Bem, isso é um grande… contratempo, não é?

A minha frase foi longe de convincente e meio que não me importava mais.

Não houve resposta instantânea dela. Por um instante achei que apenas fosse ficar em silêncio e então desse alguma espécie de consolação como “eu mesma posso cuidar dela, se quiser”. Não é que eu estivesse realmente preocupado; decepção era a palavra mais correta de se usar aqui, o pensamento que tudo foi em vão e que tudo não passou de um investimento que não daria muitos frutos.

-Mas eu conheço alguém que possa.

Até que disse aquilo.

Não tinha percebido até aquele momento, mas eu estava apenas olhando para baixo enquanto amargava a situação. Me virei em sua direção e vi, mais uma vez, aquele seu sorriso; honesto, alegre e um pouco tímido.

-O… o quê?

E foi tudo que consegui dizer com o espanto. Nara respirou levemente antes de responder.

-Era pra ser uma surpresa, mas… eu não sei se seria uma surpresa agradável no seu caso, se é que me entende. Vou falar um nome que tenho quase a certeza que conhece: David White.

Por um par de segundos minha mente tentou buscar de onde vinha aquele nome e foi todo o tempo que precisou. Era…

-…o vice-presidente da Liga dos Heróis?
-Isso.

Então ela queria dizer o que eu estava pensando?

-David foi o meu mestre, Pedro. – prosseguiu. – Sem ele, eu não seria metade do que sou hoje. Além do mais, “heroína” estaria completamente fora de cogitação.

Enquanto eu ainda tentava juntar as peças e fazer as mesmas suposições que tanto odiava, ela acrescentava mais detalhes.

-Digo, não é que você precise treinar diretamente com o David, existe uma porrada de gente qualificada na Liga, eu só tive a sorte de ter o melhor dos melhores.

Isso não necessariamente ajudava.

-O que significa que eu devo ser a última pessoa que ele se interessaria. – falei, após entrar em tal conclusão.
-É aí que você está enganado.

Estou?

-Desde que falei das suas habilidades para ele, não há mais nada que ele me pergunte. – adicionou. – Quando ligo para ele, a resposta para “como você está?” é algo como “como está aquele seu amigo? O que ele anda fazendo? Descobriu alguma habilidade nova sobre ele?” e por aí vai. A única certeza que eu tenho quando nos falamos é a de que ele vai fazer, pelo menos, umas três perguntas sobre você.

Quê?

Ok, se aquilo era uma brincadeira, era de tremendo mau gosto. Onde ela queria chegar, afinal?

-Nem ferrando. – disse, com um sorriso que deve ter saído bastante amarelo.
-Você acha que eu brincaria com algo do tipo sabendo como você reagiria? É sério.

-E ele insistiu que eu não dissesse nada disso contigo, mas ele não convive com você, Pedro. O mínimo que posso fazer é lhe deixar preparado.

Tudo que eu fiz foi respirar profundamente. Fechei os olhos, tentando absorver toda aquela situação da melhor forma possível. Nara não adicionou mais nada e presumi que apenas estivesse esperando terminar meu ritual.

O que é isso, então? Se ela está falando a sério, significa… quer saber? É melhor que eu pergunte de uma vez. Abri os olhos e deparei com a mesma expressão séria que ela demonstrava antes.

-Deixa eu ver se entendi, então…

Dei uma pausa e continuou esperando pacientemente.

-…você não pode me treinar porque seus ensinamentos não seriam válidos para mim, mas você comentou de mim para Dav… Sr. White, e agora ele está interessado em mim e ávido para que ele mesmo faça tal trabalho?
-Não é cem por cento isso, mas sim. É quase isso.
-Não está faltando uns detalhes não?

Ela parecia ter entendido a pergunta. Revirou seus olhos por um breve instante antes de sua réplica.

-Ele não me deu detalhes, mas… – deu uma leve pausa acompanhada de uma breve respiração. – David não costuma se interessar dessa forma em coisas que não são da alçada dele.
-O que significa…
-Significa que é provável que ele quer que você se torne um herói.

-Digo, não é nada confirmado e tal…

-…e, por mais que eu ache sua habilidade, no mínimo, destacável, estaria mentindo se dissesse que sei o que ele está pensando.

Eu…

-Só me deixe dizer uma coisa pra você ant…
-Pode… pode ser depois?

Eu sei que aquele não era o melhor momento para interrompê-la e sua confusão fazia todo sentido.

-Depois? – perguntou. – Por que depois?
-É que eu preciso… ir ao banheiro.

Não, não era verdade, mas dizer isso era menos vergonhoso do que a verdade.

Agora?
-Não tem horário para essas coisas. – respondi, com urgência. – Eu… eu já volto.

Me virei rapidamente e desci a arquibancada, apressado e sem olhar para trás.


Ele simplesmente saiu correndo?

Argh.

Suspirei enquanto ajeitava minhas costas na arquibancada. Será que eu exagerei no tamanho de informações? Considerando Pedro, pelo visto foi demais. Não há nada que eu possa fazer, exceto esperar que ele volte agora. Quer dizer, há uma coisa sim… eu tinha o número dele, poderia mandar uma mensagem… não, seria bem melhor que eu simplesmente ligasse. Tirei o celular do bolso, ou pelo menos o mais próximo que tinha de um bolso; tinha que escolher entre mobilidade e utilidade, afinal. Liguei a tela e… hã?

-O novato ainda não voltou?

Akemi nem tinha falado tão alto assim, mas eu estava concentrada em outra coisa no momento, então dei um leve salto. Sendo bem sincera, estava preocupada com outras coisas.

-Já voltou e já saiu. – respondi, secamente.

Não cheguei sequer a olhar para ela. Minha preocupação agora era o meu telefone. Por que ele estava…

-Tá sem sinal para você também?

Bom, aquilo era relevante. Olhei em sua direção e percebi que estava tomando um milk shake de algum sabor que não consegui identificar.

-Er… sim. – confirmei.
-Já faz algum tempo. Enquanto tava na fila para pegar isso daqui, pensei em me atualizar nas mensagens e percebi que não tinha rede internacional funcionando. Ligar também só faz cair no mudo.

Ah, que ótimo. Agora sequer tinha como tentar saber onde ele estava.

-Você sabe onde ele foi? – perguntou, dando um gole na sua bebida em seguida.
-É exatamente o que eu estava querendo saber.

Ela parou imediatamente de puxar o milk shake pelo canudo e levantou uma de suas sobrancelhas.

-Espera, ele saiu, você não sabe pra onde ele foi, nem quando volta?

O que ela estava insinuando, afinal? Pelo visto já estava permissiva demais por hoje.

-Eu não sou a babá dele, Akemi.
-Não estou dizendo que é, mas se você viu ele, deveria ter a responsabilidade…
-Não, eu não deveria ter responsabilidade de porra nenhuma. Muito menos com você me dizendo o que fazer.

Sim, algumas linhas não deveriam ser ultrapassadas tão rápidas assim. Não importava o quanto eu tinha agido antes. É assim que eu faço as coisas.

Ela recuou, dessa vez mais confusa do que realmente amedrontada.

-E todo aquele papo de nos unirmos contra a ditadura do diretor? – questionou. – Foi apenas da boca pra fora, pra agradar o seu amiguinho?

É, eu fiz isso, não foi? Mas essa nunca foi a questão.

-O que você espera conseguir com isso, Akemi?

Direto ao ponto. Nada de meias-palavras, conversa fiada, papo enigmático e burocrático. É sempre assim que eles cedem. No caso dela, não respondeu. É claro que não respondeu. E é nesse momento que eu finalizo esse enrola-enrola.

-Deixa eu te dizer uma coisa.

Levantei. Ela me olhava silenciosamente, tentando parecer durona. Era uma graça.

-A única coisa que temos em comum é sobre o Pedro, entendeu? – prossegui. – Não quero nenhum papo dizendo o que eu devo fazer ou até mesmo comentários sobre como o clima está. Eu não ligo. Se você quer participar dos treinos, tudo bem, não me incomoda, mas vai ficar por aí. Não me interesso por nada que você queira me dizer, então quanto menos você tentar, melhor. Fui clara?

Não respondeu e nesses casos é normal que não há uma resposta. Mesmo com Akemi me conhecendo há anos, aquele sempre foi o seu comportamento. Ou isso, ou gaguejar, como fez quando foi chamada atenção ao fazer bullying com Pedro. Previsível e irritante.

Além de tudo: não havia porque esperar. Seus dois ouvidos estavam em perfeito estado e tinha a certeza que entendeu a mensagem. Sentei e apenas ignorei que estivesse lá, tentando observar e lembrar qual batalha estávamos. Não ia ajudar muito, ainda mais não podendo contatar Pedro, porém não é como se eu tivesse o que fazer, afinal de contas.

-Me… desculpe.

Virei o meu olhar para o lado que Akemi estava antes e confirmei que permanecia no mesmo lugar. Ainda segurava o milk shake longe de sua boca, mas não pude perceber mais detalhes sem virar a cabeça. Não que fizesse muita diferença.

-Tanto faz. – e voltei a olhar para frente.
-Não… não é sobre isso. Estou pedindo desculpas mesmo é sobre o que fiz com você… digo, anos atrás.

E essa agora?

Virei minha cabeça para ter uma visão melhor. Seu estremecer era notável, mas não era de medo. Seu rosto revelava um olhar triste, diferente do seu padrão.

-Era… era pra eu ter feito isso muito antes. – prosseguiu, ainda receosa. – Só nunca tive coragem. Até que Pedro me disse que…
-É esse o problema.
-Hã?

Sua tristeza deu lugar a uma confusão, ainda que acanhada.

-Você não está pedindo desculpas por si mesma, está pedindo desculpas porque Pedro pediu para você pedir.
-Não, não é isso…
-E se Pedro nunca estivesse na jogada? – interrompi sem o menor pudor. – Você ao menos cogitaria fazer isso?

Era uma pergunta redundante. A resposta é bem óbvia aqui.

-Se você está mesmo arrependida, aja por si mesma. – não esperei sua resposta. – Não é Pedro quem deveria forçar você.
-O novato não me forçou a nada…
-Ele não apontou um dedo carregado de poder elemental pra você, Akemi, mas você ainda está fazendo para ganhar pontos com ele. Eu sei disso, você sabe disso, então pare com essa ladainha que é bom para nós duas.

Voltei a olhar para frente, já não havia mais nada para falar. Por alguns instantes até esperei que tentasse retrucar, justificar de alguma forma patética que “não era bem assim” ou qualquer argumento genérico parecido… não aconteceu. A única identificação que tive foi ouvir os seus passos, abafados e ecoando ao mesmo tempo naquele espaço aberto e cada vez mais afastados, até desaparecem de vez.

Quem visse tal cena de longe, acharia que foi um exagero meu, que a confrontei de graça e “coitadinha daquela garota. O que ela sequer fez para ser tratada assim?”. É, sem saber da história completa é bem fácil, basta ocultar um detalhe aqui e ali e pronto, ela virou a vítima.

Não é assim que as coisas funcionam, caralho.

Suspirei. Até podia ir atrás do Pedro para avisar da batalha, mas qual é o ponto? Ele não foi ao “banheiro” de graça e depois do que falei, eu sou a última pessoa em que ele quer ver a cara agora.

Mas, bem… ele vai estar aqui.

Eu sei disso.


Droga. Droga. Droga. O que diabos há de errado comigo? “Preciso ir ao banheiro”? Sério? Essa é a melhor desculpa que você consegue dar? Corri tão depressa e sem intervalos que estava até mesmo ofegante agora. Sim, porque essa é a melhor coisa para se fazer antes de uma luta. Meus parabéns, garoto! Que idiota…

Enquanto ainda arfava, tudo vinha na cabeça de uma vez. David White? O tal David White tinha interesse em mim? Se fosse a baixinha que me contasse, já saberia que era uma piada de muito mau gosto, mas Nara? Então era verdade?

Isso que torna a situação ainda pior! Se fosse verdade, aquela era uma excelente notícia! Não é para isso que estou aqui, afinal? Larguei minha família, meus amigos, todos que conheço em um país que eu precisava de mais de uma dezena de horas de avião para voltar… não foi para isso? Então, por que diabos estou agindo dessa forma?

Cara, eu não posso ferrar tudo! Essa apresentação precisa ser perfeita! Seja lá quando o Sr. White estiver aqui, eu preciso estar preparado e nem um pouco nervoso! Bem diferente do que estou agora, por sinal, mas… espera, quando ele vai estar aqui? Ah, caralho, deveria ter perguntado à Nara. Será que ele vai estar aqui já nesse torneio? Ela não me avisaria tão em cima assim, avisaria?

Oras, que diabos eu estou fazendo? Basta perguntar para ela. Não vou correr isso tudo de novo nem ferrando, mas posso apenas mandar uma mensagem para ela.

Peguei o celular do bolso, feliz por ele ainda estar lá. Sério, não faço a menor ideia de como ele não caiu depois desse aquecimento desnecessário. Bastava mandar uma mensagem e dizer que estava tudo bem, perguntar o dia que o Sr. White deve estar aqui e quantas batalhas faltavam para a minha, para que eu não me atrasasse. Simples e direto, parabéns à tecnologia! Eu não deveria estar parabenizando a tecnologia, isso é idiota, enfim…

Espera… o quê? Como assim está sem sinal? Logo agora está sem sinal? E logo após eu parabenizar a tecnologia? Ah, não… eu sei, eu poderia simplesmente usar meus poderes e voltar bem mais rápido do que cheguei, mas não posso ficar gastando mais energia desnecessária ou sequer terei o que apresentar ao Sr. White amanhã ou depois… sei lá, é melhor contar que ele esteja aqui amanhã cedinho ou até mesmo ainda hoje. Se for hoje, a pior apresentação que posso dar é perder a minha luta.

Tá, isso não é relevante agora, só preciso ir para um lugar mais alto. Onde eu estava agora? Ah, era a pista de corrida que horas atrás eu era carregado como uma mochila por Nara… isso é péssimo, é tudo plano por aqui. Preciso arrumar um lugar mais alto… só que não há “lugar mais alto” por aqui. Ah, que droga.

Inclusive, por que não há um pé de pessoa ao redor?

De certo, todos devem estar agora no ginásio acompanhando as lutas, mas… nenhuma pessoa perdida? Nenhum grupinho afogando as lágrimas no lado de fora dos ginásios? E as feirinhas? Simplesmente todo mundo foi embora?

-Pedro?

Ouvi uma voz conhecida me chamando à distância. Não ouviria em situações normais e mais movimentadas, porém estava um total silêncio e sua voz… ecoou. Espera, como a voz dela ecoou em um lugar aberto e plano? Estar tão silencioso desafiava as leis da física também?

Olhei para a direção de onde vinha a voz. Era Himari.

O que estaria fazendo aqui? Não há mais ninguém ao redor. Estava tão quieto que ela tinha acenado à distância e consegui ouvi-la perfeitamente, com um eco.

-Ah, ei. – acenei de volta.

Talvez Himari seja a pessoa que eu não queria ver antes, mas era incrível como minha preocupação agora era outra completamente diferente. Ela veio em minha direção e logo estávamos praticamente cara a cara no meio do que, poucas horas atrás, aconteceram certos eventos relevantes.

-O que faz aqui? – perguntou. – Não está fugindo da batalha, está?
-Ah, eu… não, eu só vim respirar um ar. Já estou indo.

Depois que falei que percebi e estranhei; ela parecia ter falado brincando aquilo, só que… não era o normal para Himari. Esperaria tal tipo de brincadeira com a baixinha ou até mesmo com a “nova” Nara, mas a garota da minha frente costumava ser mais reservada. Muito mais reservada.

Estranhei. Apenas assumi que estivesse animada ou parecido, me baseando no sorriso que esboçava naquele momento.

-Vai na frente e eu te alcanço, tá bom? – adicionei.

Não houve uma confirmação de sua parte, como um “tá” ou até mesmo alguma espécie de confusão, especialmente considerando que eu não estava sendo nada convincente. No lugar disso tudo, ela apenas deu uma risadinha. Assim como a brincadeira, tal reação era fora do seu comum.

-É melhor assim.

E foi o que disse, antes de se virar e começar a se afastar em passos lentos. Não que eu exatamente não tenha entendido, porém aquilo estava me encucando.

-O que você disse? – interroguei.

Ela virou para mim, ainda demonstrando aquele sorriso fora do seu padrão.

-Eu disse que é melhor assim, sabe? Com você entendendo o seu lugar.

Naquele momento, eu começava a ficar mais incomodado do que apenas encucado.

-O que você quer dizer com isso, Himari?

Dessa vez virava o seu corpo também e agora me olhava de frente.

-Eu quero dizer que você já foi longe o suficiente, Pedro. – respondia, com uma serenidade fora do seu comum. – Bom trabalho, mas acabou. Agora é o momento de os experientes tomarem a direção.

Aos poucos, toda a “conversa” que tive com Misaho tomava conta da minha mente de novo.

“Se minha dica parece simples e objetiva demais é porque eu mesma que a treinei”.

“Vamos apenas dizer que Himari estava sentindo o colégio de uma forma tão incômoda que praticamente implorou para que eu lhe ajudasse”.

Nunca ela havia demonstrado tal comportamento e era exatamente isso que eu estava estranhando. Ainda assim, resolvi continuar jogando.

-Ora, – comecei, calmo. – você fala de um jeito como se tivesse a certeza que vai vencer.
-Mas não é óbvio?
-Er… não?

Ela abriu os olhos, quase como se estivesse em espanto.

-Espera, você realmente acha que vai… – e riu. – Sério?

Aquele riso eu já vi sendo feito por muitas outras pessoas e nenhuma delas era a garota supostamente tímida e reservada da minha frente. Não era uma gargalhada alegre, contagiante ou algo do tipo, era uma cheia de desdém e até mesmo ofensiva. Ela não ria comigo, ela ria de mim.

-Até há pouco tempo você sequer sabia os princípios básicos de uma luta, Pedro. – e continuava rindo. – Agora você acha que vai me vencer em uma competição direta? Por favor…

Ah, acho que entendi o que está acontecendo aqui.

Por mais que ela continuasse rindo, meu rosto estava completamente sério e provavelmente abarrotado de decepção. Digo, tudo faz sentido agora, não faz? Antes de fazer parte do nosso grupo, Himari era colada com Misaho, a mesma Misaho que desprezava os mais fracos, especialmente os que batiam de frente com ela. Se há uma razão para essa amizade ter durado tanto, pode-se incluir uma delas sendo submissa e apenas aceitando o que a outra fazia.

Querendo ou não, a pessoa em minha frente nunca realmente se mostrou. Akemi desenvolveu sua personalidade com o passar do tempo, Nara “criou” uma hoje e até mesmo Makoto é extrovertido o suficiente para ter certo destaque. Himari… bem, Himari até então era a “tímida e reservada”. Ninguém é tão genérico assim, não sem uma razão.

Mas bem… se nem mesmo a baixinha montou em mim, definitivamente não seria agora que alguém conseguiria.

-E todo aquele papo sobre “ser fraca” de antes? Era tudo fachada, então?

Assim como as outras vezes, eu falava aquilo com uma eloquência absurda que nem sei de onde vinha. Não a intimidou.

-Eu sou mesmo fraca, não menti. – respondia, com um olhar sereno. – Mas eu sou fraca em comparação ao resto da escola, Pedro. Há muitas pessoas fortes aqui e que acabariam comigo em um piscar de olhos. Você, por outro lado…

Vai adicionar “não é uma dessas pessoas” agora.

-…não é uma dessas pessoas. – completou.

Hah. Previsível.

-Sem ofensas, sabe? – prosseguia, livremente. – Você é um bom amigo e eu agradeço por tudo que fez por mim, não só nesses tempos como hoje também, mas…
-Eu não acreditei quando ela me disse.
-Hã?
-Eu não acreditei quando a Misaho me disse que lhe treinou. Você não parecia com ela. Por muito tempo, achei que era uma espécie de amizade abusiva ou algo do tipo, mas parece que fui um pouco ingênuo. E então, aí estão todas as características dela: arrogância, desprezo, ofende os outros completamente de graça…

Pela primeira vez desde que começamos a falar, ela ouvia em silêncio. Uma rajada natural de vento passou, misturada com o sol de fim de tarde, algo que me faria estremecer em qualquer outra ocasião pelo frio, mas naquela estava sólido como uma pedra.

-Vocês são iguais. – continuei. – O que impede de você ficar causando bullying nos outros é não ser tão forte quanto ela. Se pudesse, faria o mesmo, assim como foi cúmplice durante todo esse tempo.

Esperava que se sentisse ofendida, que apenas negasse o que eu tinha acabado de dizer e então tentasse se defender a todo custo, mesmo que fosse um esforço em vão. Nada disso aconteceu. Himari apenas estava séria e com a coluna ereta, o que a fazia não parecer muito menor do que eu.

-É isso que você acha, então? – finalmente indagou.
-Eu estou errado?
-Talvez não errado, Pedro, mas você está simplificando as coisas.

Estou? Como? A pergunta ficou apenas na mente, pois prosseguiu o seu discurso sem muita margem para meus questionamentos.

-Nem todo mundo tem a sorte de ter uma proteção voluntária da pessoa mais forte do colégio no seu primeiro dia, como você teve. Se Nara não aparecesse, você sabe que tudo que Akemi ia lhe dar era uma boa lição, certo?
-Talvez. – respondi, ainda querendo entender onde ia chegar. – Eu ainda faria o mesmo, com Nara me “socorrendo” ou não.
-E outros já fizeram, outros que foram calados logo depois. Diria que todo mundo aqui passou por isso pelo menos uma vez, enquanto você… você nunca sofreu. Protegido por Nara, por Akemi, por… mim? Talvez seja exagero dizer que lhe protegi, mas ainda assim você teve gente lutando do seu lado.

Sua seriedade começava a perder a força depois de tais palavras.

injusto, sabe? – retomou. – É injusto que você não tenha sofrido nada e agora chegue longe em um dos eventos mais disputados desse colégio. Sofrer faz parte e você não sofreu em nenhum momento. Sempre teve alguém do seu lado, sempre teve um suporte, sempre teve quem lhe socorrer.

Naquele momento não havia mais seriedade nenhuma no seu rosto e sua postura era parecida com a que sempre teve. Seu semblante era triste, quase chorosa, porém era provável que fosse se controlar no instante que a primeira lágrima ameaçasse a cair.

-Aliás, Nara disse que deveríamos nos unir contra o diretor. – demonstrou uma leve mudança de humor. – Nos unir contra o diretor? Que bobagem. Ele botou para nos enfrentarmos, o que significa que um de nós vai passar. Essa é a melhor chance da minha vida! Ele poderia me colocar contra Akemi, Misaho ou até mesmo Makoto… ou Nara, assim como oitenta por cento dos que passaram que seria uma derrota certa, mas ele me colocou contra você, Pedro.

Acabei rindo. Uau, parece que assumi cedo demais. Cara, preciso resolver esse problema. Himari, como esperado, estava perdida.

-Entendi. – falei.
-…entendeu?
-Entendi.

Sim, eu entendi. Ela não tinha nada a ver com a Misaho, na verdade aquilo tudo era…

-Mecanismo de defesa. – completei, verbalmente. – Você não está sendo que nem a Misaho, você só está dizendo isso na intenção de me intimidar, mas nem mesmo você acredita no que está dizendo.

E a sua surpresa mostrava que eu, como esperado, estava certo.

-Você não entendeu… – tentou começar.
-Desculpa, Himari, mas eu também tenho meus objetivos.

Andei do seu lado, em passos curtos. Percebi de canto de olho que me observava, como se estivesse temendo algo.

-E se você quer mesmo “acabar com a injustiça”, vai ter que enfrentar um novato que, apesar de fracote, teve um treinamento muito melhor que o seu.

Não olhei para trás. Não sei que reação demonstrou, seja nervosismo, medo, indignação… era irrelevante, especialmente quando nada tinha sido vocalmente. Não é que eu não me importasse com o que pensa, mas a verdade é que tudo que aconteceu naquele dia já era esperado. Não o David White, esse me pegou de surpresa ao ponto que tive que fugir com uma desculpa esfarrapada.

O ponto é que tudo aquilo era um planejamento de meses.

***

Primeiro – 16/13/612 (quase dois meses atrás) – 18:36
Sala da diretoria do Chikara no Kyoten

-E, por favor, chame a senhorita Yamazaki.

Expectativas são incríveis; esperava que fosse ser expulso hoje e tudo que tive foram cinco dias de suspensão. Saiu barato e era difícil não esboçar um sorriso abobado. Ainda assim, minhas preocupações ficavam em relação às reações de meus pais. Eu sei que eles não iam gostar nem um pouco, mesmo se fosse um único dia. Não sou o tipo de pessoa que apenas não liga para…

-Espere.

O diretor Murakami me parou no momento em que mexi na maçaneta e estava prestes a finalmente sair. Ele parece ser uma excelente pessoa e me deu uma puta colher de chá depois do que aconteceu hoje, mas o que eu menos queria no momento era conversar com ele. Minha casa nunca pareceu tão confortável.

Virei a minha cabeça com a maior lentidão possível, certamente representando o meu nervosismo, o que só fui notar exatamente depois que fiz. Quando estava com a visão direta de onde o diretor Murakami sentava, ele abaixou a tela do seu notebook em silêncio.

-É rápido, então não acho que precise sentar de novo. – disse.
-O que foi?

Ele ergueu a sua coluna e deu um breve suspiro.

-Minha pretensão era deixar esse assunto para quando você voltasse de sua suspensão, mas é provável que seja muito em cima da hora. Sendo bem sincero, eu ainda estou pensando se é uma boa ideia falar sobre isto agora. Como pode ver, comentar sobre esta última parte me deixa sem escolhas.

De início fiquei confuso se ele tinha feito alguma piada, mas não esboçou sequer um sorriso, então não fiz questão de sorrir também. Apenas esperei pacientemente que continuasse.

-Gostaria de lhe oferecer uma oportunidade, sr. Cardoso.
-Oportunidade?
-Sim, de trabalho, para ser mais exato.

Claro que aquelas palavras me deixaram entupido de perguntas, porém fiquei no aguardo que explicasse sem que eu precisasse fazê-las.

-É bom deixar claro que não estou lhe obrigando a aceitar. – continuou, sem pausas. – Não é porque sou o diretor que irei lhe punir apenas por não querer fazer algo que eu queira que faça, ainda mais não sendo obrigação escolar sua. Na verdade, sequer precisa me confirmar oralmente em momento algum, saberei por outros métodos, como ações.

Sua oratória era de um nível muito maior que estava acostumado e não tinha a certeza se entendi todas as palavras, o que fiz tentando assimilar as que pareciam ambíguas com as que entendi. Não era uma ação exatamente nova e fazia com certa frequência desde quando comecei a praticar o yukoponês. Estaria mentindo se dissesse que não preferia que falasse aquilo em toruguês, claro, já que é bem provável que eu acabe perguntando algo que acabou de dizer e apenas responda da mesma forma com palavras mais simples.

Pensado isto, resolvi seguir uma abordagem mais direta.

-O que preciso fazer? – perguntei.

Ele me olhou com certo espanto.

-Fico feliz de saber que está interessado. – respondeu, pegando um lápis da sua mesa e começou a girar ele com os dedos. – É algo bem simples. Já ouviu falar dos torneios de luta do Chikara?

A resposta real era que “sim”, no entanto nunca foi uma prioridade entre o que assistia, então pouco sabia sobre e dava mais atenção aos torneios mais importantes. Para não explicar tudo isso, resolvi deixar a situação mais fácil.

-Não.
-A cada estação do ano, acontece um torneio nas nossas fundações, em que Atarashi, sendo o campus mais importante, sempre é o anfitrião. – explicava como se já esperasse a minha resposta. – Dura em torno de quatro dias, sendo que o primeiro deles é a parte classificatória. É um campeonato de duelos, como os que são transmitidos pela grande mídia, só que com amadores e permitindo que qualquer um participe, desde que seja aluno. Em atividade, claro.

Ele envergou um pouco a coluna para apoiar os braços na sua mesa.

-É um dos eventos mais importantes deste colégio, então costuma atrair até mesmo pessoas que não tenham nenhuma ligação com o Chikara. – mexia a mão direita, aberta sempre que falava parte do discurso. – Até mesmo vendemos ingressos para quem quer assistir os jogos mais importantes e claro que alunos não pagam.

Por mais legal que parecesse, não fazia a absoluta ideia de onde queria chegar.

-Parece interessante. – falei, neutro.
-Você deve gostar. Há vários alunos que não ligam para a parte de luta, então disponibilizamos alguns estandes de venda para quem for para esse caminho. Muitos amam tal época porque, apesar do trabalho, eles acabam arrecadando uma quantia razoável de créditos.

É isso, então?

-Eu não sei o que poderia vender, mas tenho a certeza que poderia arrumar algo até lá. – respondi. – Quando vai ser o torneio?

Não sei o que havia de absurdo no meu comentário, mas o diretor me olhou com um semblante de confusão praticamente caricato.

-O quê? – e riu, não, gargalhou. Com até mais intensidade do que antes. – Não, não! Você entendeu errado. Eu não quero que trabalhe nos estandes. Quero dizer, caso prefira, é sua escolha, mas não é esse tipo de trabalho que quero lhe oferecer.

Tive a impressão que o senhor Murakami não exatamente valorizava os tais trabalhos, porém não podia confirmar. No momento da risada ele havia puxado os braços da mesa e agora os colocava na mesma posição que estavam.

-Vou ser direto aqui, até porque você pode dar uma olhada sobre os detalhes do torneio na nossa página na rede internacional. – voltava, agora ficando mais sério. – Existe gente de olho em você, com isso me refiro a gente importante.
-Gente… de olho?
-Sim. E, não, não significa que você está em apuros. – tal adição veio depois de ver meu temor. – Na verdade, isso é uma coisa boa, muito boa, sendo sincero. Eu tenho um amigo que tem, digamos, um cargo importante em uma empresa de renome e esse amigo ficou bastante interessado depois que falei sobre seu teste de admissão. Mostrei até mesmo os vídeos.

Meu… teste de admissão?

-Não via ele empolgado desta forma há muito tempo, mas digamos que você não tem muita chance de conseguir o trabalho se não souber lutar, então…
-Espera… diretor. Desculpe lhe interromper, mas você viu o meu teste de admissão?

Seus olhos se esbugalharam mais uma vez.

-Mas é claro, meu rapaz! – confirmou, colocando o lápis na mesa. – Não só isso, como eu também estava lá. Novo Horizonte é uma cidade bem bonita, apesar dos pesares.

Por que isso me deixava muito mais nervoso do que deveria?

-Mas diretor, eu… eu fui obrigado a fazer o teste duas vezes. – adicionei o que respondia a minha própria pergunta. – E não fiz muito diferente na segunda vez. Na verdade… até mesmo achei que nem ia passar e me surpreendi bastante recebendo a carta de aprovação.
-Sim, o pedido de fazer o teste uma segunda vez foi pessoal. Meu, para ser mais exato. Geralmente não costumo dar essa chance a nenhum aluno, porém me senti obrigado vendo o método que escolheu para resolver os problemas na admissão.

Er… o que aquilo deveria significar?

-Mas isso é irrelevante, sr. Cardoso. – prosseguiu, sem me dar chance de responder. – O que realmente importa é que esse meu amigo tem muito interesse nas suas habilidades, desde que você mostre o seu portifólio, se é que me entende.

Mostrar? O que eu deveria mostrar? O que o diretor e esse tal amigo dele viram em mim, afinal?

Meu teste foi vergonhoso e agora ele acaba de me confirmar que “não costuma dar uma segunda chance”. Para dizer a verdade, resolvi deixar ele para lá e levar como uma espécie de graça divina, mesmo sem necessariamente acreditar em uma divindade, porque só isso justificaria ser aprovado com uma performance tão invejável.

Esse momento deveria ser o que eu falaria algo e o diretor certamente esperava que eu realizasse tal ação, mas desperdicei ela com tal trauma e ele simplesmente voltou a falar.

-Esse meu amigo deve estar aqui no torneio, só não sei em qual dia dele. – cruzava os braços agora e se apoiava em sua cadeira. – Você não precisa participar, mas ficaria muito mais difícil que ele tivesse algum interesse em você se não tivesse nada para mostrar.

Então ele quer que eu… participe do torneio?

-D-diretor… – gaguejei, falhando miseravelmente em esconder meu nervoso. – só tem um problema.
-Sim, tem um problema. Você não faz a menor ideia de como lutar, não é?

Espera… como ele…?

-Quanto a isso, existe uma solução que talvez não lhe agrade, mas mais uma vez: fica ao seu critério. – continuou. – O torneio será no meio do décimo quinto mês, o que significa que você terá menos de quarenta dias para aprender o suficiente. Eu sei que você tem vários conhecidos nesse colégio, mas apenas uma dessas pessoas teria a capacidade de conseguir algo tão extraordinário em tão pouco tempo e presumo que saiba a quem me refiro.
-Nara Ennetsu?

Não foi um chute, a resposta era óbvia. O diretor sequer demonstrou estar impressionado.

-A senhorita Ennetsu não é a aluna-modelo à toa e você já fez o mais difícil que é ter uma amizade com ela. – confirmava o meu “chute”. – Ela provavelmente vai comentar do assunto com você e então você pode aproveitar para pedir seus ensinamentos, ou talvez você decida pela abordagem de chegar com “dia frio, não é? Enfim, Nara, você poderia me treinar?”. Independentemente de qual decida, o objetivo é o mesmo: fazer o melhor que puder em tão pouco tempo.

Em situações normais, certamente riria da “abordagem sugerida”, mas naquele momento eu só tinha uma porrada de perguntas que me causavam um misto de felicidade e pavor, ao ponto que não sabia nem que poderia ter tal combinação de sentimentos.

É quase como se eu tivesse uma conversa extensa com a pessoa sentada em minha frente sobre a minha vida. Com qualquer um que conversasse sobre o assunto, se soubesse das minhas opções, era certo de dar a sugestão de “ei, você não conhece a tal da Nara Ennetsu? Por que não pede umas dicas para ela?”. Sim, essa foi minha ideia desde o início, só não tinha a menor ideia de como proceder. Afastar da garota do fogo só tornou isso muito mais difícil e me sentia em um eterno purgatório desde que descobri as ações da Misaho, o que provavelmente foi a maior motivação das ações de hoje. E agora, o diretor me dava o maior empurrãozinho de todos.

Isso me dava um grande incentivo para que finalmente pudesse cumprir um dos objetivos de ter vindo para cá. Me sentia com uma empolgação que não sentia há tempos, empolgação que, claro, vinha acompanhada de um extremo nervoso. Quais são as chances de Nara simplesmente dizer “não”? Se ela dissesse “não”, estaria tudo acabado? Será que se eu dissesse que o senhor Murakami me pediu isso, tornaria o pedido mais fá…

-Ah, se quer uma dica minha, recomendo que não diga a ela que o pedido foi meu.

…cil. Ah, claro que não. Mas por que não?

-Por qual razão? – repeti a pergunta mental.

Sua resposta não foi instantânea. Dessa vez suspirou, apoiando a cabeça no topo de trás de sua cadeira, o que a deixou muito mais inclinada do que deveria e a ajeitou logo depois.

-A senhorita Ennetsu é minha aluna-modelo, como já disse, entretanto não nos damos exatamente muito bem. Se quer mais uma razão da atitude da sua amiga ser louvável, é exatamente por isso. Ela só pediria um favor a mim se fosse uma situação bastante… desesperadora, digamos.

Ok, aquela era nova. Nara não se dá bem com o diretor? Por quê? Aquelas perguntas serem fora da minha alçada me deixavam quase que angustiado. Sequer podia perguntar para ela, já que certamente estranharia o fato de eu saber isso em primeiro lugar e provavelmente reduziria drasticamente minhas chances de receber um “sim”.

-Me sinto honrado, então. – respondi, seco.
-Deveria.
-Alguma chance de saber quem é o seu amigo, senhor Murakami, ou estou avançando etapas demais?

Eu sei, é arriscado, mas eu nunca saberia de outro jeito, pelo menos não sem ser em cima da hora. Esse “não” eu já estaria esperando e não seria tão decepcionante quanto o outro “não”. Ele não ficou necessariamente impressionado, mas acabou hesitando um pouco, mesmo que involuntariamente.

-Não está exatamente “avançando etapas demais”, porém é melhor que não saiba por agora. – finalmente replicou. – Seria uma pena se você perdesse tamanha oportunidade apenas por estar convencido demais. Geralmente não costumo falar esse tipo de coisa com alunos porque sei que eles reagem de forma exagerada, sr. Cardoso, mas irei lhe dar o benefício da dúvida.

Não sei se percebeu, mas ele acabou de piorar a situação. Se nem ao menos ele vai dizer quem é e ainda vai adicionar tais detalhes, é claro que irei assumir o nível de tal pessoa. Bem, não havia como o diretor saber desse meu problema depois de conversarmos por apenas alguns minutos.

-Certo. – respondi, escondendo ao máximo o nervosismo. – Então significa que eu tenho um tempo para pensar?
-Fica ao seu critério, como já disse. Se formar pelo Chikara já lhe daria um brilhante espaço no currículo, sr. Cardoso, então não é como se fosse o fim do mundo perder tal oportunidade. Digo apenas que seria melhor não a perder sem querer.
-Mensagem… recebida.
-Feliz de saber. – levantou a tela do seu notebook e começou a digitar algumas coisas, praticamente sinalizando o final da conversa. – Por favor, chame a senhorita Yamazaki.

Me virei e mexi na maçaneta com bem menos alívio do que tinha sentido antes de toda aquela conversa. Então agora seria uma corrida contra o tempo? O tom do diretor era bem ameno, mas era nítido que quase me obrigava a agarrar aquela oportunidade.

Decepcionar não era uma opção.

***

Presente (11/15/612) – 18:41
Proximidades do ginásio três do campus de torneios do Chikara no Kyoten

Estaria mentindo se dissesse que me sinto orgulhoso disso.

Escondi todos esses detalhes desde então para Nara. De certo, minha maior intenção desde que cheguei aqui era exatamente essa, mas hoje descobri que não seria uma boa ideia ter sido sincero ou não teria chegado tão longe.

Além do mais, não é como se eu tivesse forçado ela a isso… certo?

Sei lá, tento apenas não pensar no assunto e me sentir feliz com os resultados.

Existe uma ótima razão para estar conseguindo pensar por aqui, a de que está um silêncio absurdo ao meu redor. O ginásio em minha frente está bastante barulhento, como esperado, mas todo o resto está quieto, quase como se o mundo ao meu redor estivesse morto. Certo, os eventos hoje já estão praticamente no fim, boa parte das pessoas foi para casa, porém… é isso?

É difícil de explicar, um sentimento como se algo estivesse fora do lugar, como se eu não estivesse exatamente onde deveria estar. O pôr-do-sol parece o mesmo de sempre, assim como o frio parece o esperado, então de onde vem essa sensação de artificialidade, afinal?

Espera, o que é aquilo?

Sim, pássaros voando, algo que também é esperado e que ninguém notaria se não estivesse mantendo atenção ao céu em primeiro lugar, mas… por que eles estão se movendo em slideshow? Se bem que… parecia normal agora. O que estava acontecendo? Está simplesmente quase escuro e não consigo ver movimentos direito?

Cocei os olhos, sem saber exatamente o que esperar quando os abrisse de novo. Nada mudou, como não deveria ter mudado, então por que esse sentimento de estar sonhando permanece? Vendo a atitude dos meus amigos, tudo parecia nos conformes, diferente da simulação da simulação, logo não era…

Não… espera um pouco, não é…

Chikara no Kyoten.

Nada aconteceu. A frase de segurança não tinha mais utilidade, não no mundo real. Ou… talvez exista mais alguma peça que ainda está escondida? Digo, além de tudo, eu vivi a outra simulação, eu sei dos limites técnicos que ela tem. O simples fato de haver a possibilidade de uma simulação dentro da outra, com detalhes que fariam você duvidar estar em uma, já era assustador e, ao mesmo tempo, magnífico.

Não é possível que…

Parabéns aos classificados até o momento! A próxima batalha é entre Pedro Cardoso e Himari Yamazaki, ambos da décima série do campus de Atarashi! Rivalidade já estabelecida ou que será formada agora? Independente do que seja, será a próxima atração em cinco minutos!

A voz do professor Ootsuka ecoava à distância, mostrando que minha batalha seria a próxima. Ei, mas que sorte, hein? Himari não estava a vista e sequer sabia se o ginásio tinha outra entrada, no entanto sei que ela apareceria. Ela tinha um ponto a provar, afinal. Bem, eu também.

O nervosismo ainda estava lá, mas sei que não ia cessar. Apenas entrei no ginásio em passos lentos.

Era agora ou nunca.


Eu sou uma idiota. Nem sei porque ainda tento. Já sabia que era uma ideia estúpida tentar pedir desculpas para Nara, eu mesma disse que “não é tão simples assim” e então vou lá e faço do mesmo jeito. Qual é o meu maldito problema? Além do mais, por que estou me sentindo desse jeito agora? Nunca me importei com isso.

É essa maldita convivência, fazer parte dos treinos do novato, sentir segurança achando que tudo está bem apenas porque ela estava junto e tinha mudado. “Mudado” uma ova. Basta Pedro sair de perto e é a mesma metida de sempre, achando que manda nessa merda apenas por ser a mais forte daqui.

E essa porra de celular sem sinal só faz atrapalhar. Quero ver algum vídeo, ouvir alguma música… deveria ter deixado algo guardado na memória interna do celular, mas nunca imaginei que ficaria sem sinal. Nunca aconteceu, exceto quando não deveria acontecer.

-Akemi?

Olhei para o lado no completo automático e… ah, não.

-Vá embora, Maeda.
-“Maeda”? Pô, eu te chamei pelo nome, ‘cê num poderia ao menos…
-Vá. Embora. Maeda.

Eu realmente não estava com saco agora. E ele não foi, claro que não foi, só estava me olhando feito um idiota.

-‘Cê… ‘cê tava chorando?

E mais essa agora?

-O que te importa? – perguntei, tentando passar a mão no rosto da forma menos chamativa possível. – Por favor, só vá embora.

E o pior é que pude confirmar o que estava dizendo. Parte do meu suéter voltou molhado após a esfregada nos olhos. Ótimo, agora é que ele vai me encher mesmo.

-Akemi, o que eu te fiz? ‘Cê vem me tratando assim desde que entrei no grupo e eu num fiz nada contigo.
-Por que você se importa tanto, afinal?

Ele não respondeu. No lugar, meteu a mão no bolso e puxou algo envolto em plástico.

-Toma. – disse, me oferecendo.

Olhei melhor e percebi que eram lenços descartáveis, com a embalagem ainda fechada. Ele simplesmente traz lenços no bolso porque sim?

-Tudo isso é para que eu aceite seus lenços como se estivesse fazendo uma enorme gratidão e então possa lhe agradecer depois? – perguntei, desconfiada.
-‘Cê agradece se quiser, mas sim, exatamente isso.

Argh.

-Me dá isso aqui.

E puxei o pacote. Era um daqueles lenços que vendem no mercado em pacotes de oito por um crédito, nada muito especial, mas daria pro gasto. Abri, puxei um e limpei rapidamente o rosto e usei outro para assoar o nariz. Ele apenas me observava como se eu fosse alguma espécie em exibição.

-O que foi?

E sorriu.

-Acho que nunca vi ‘cê gripada. – disse, com aquela cara de bobo.
-Eu não estou “gripada”, Makoto. Nem o meu elemento me protege dos efeitos do choro e choro entope o nariz. Você deve saber disso se já chorou alguma vez na vida.

Seu sorriso aumentou quase exponencialmente.

-Vou considerar a chamada pelo nome como uma vitória.

Perfeito, eu sequer tinha percebido. Devolvi o resto do pacote dos lenços para ele e ativamente recusou.

-‘Cê tá precisando mais do que eu. – falou, ainda com a mão levantada. – Tenho outros em casa.

E agora é que eu me sinto ainda pior por ter mandado ele embora. É certeza que isso tudo foi premeditado, só realmente não sabia a razão ainda.

Guardei o restante dos lenços no mesmo bolso do celular, que agora estava completamente inútil. Ele aproveitou para sentar do meu lado; até pensei em protestar e faria se estivesse com saco. Bem, não só “saco”, afinal. Querendo ou não, eu que estava sendo a chata daqui.

-Não se gabe por isso, ok? Mas… obrigada pelos lenços.

E seu sorriso abobado estava lá de novo, quase me fazendo arrepender por ter agradecido.

-Disponha. – respondeu. – Até lhe ofereceria mais, mas é tudo que tenho.

Querendo ou não, a pergunta dele faz sentido. Makoto nunca fez exatamente nada comigo em si. Na verdade, eu só tinha ouvido as histórias e não sabia nem mesmo se elas eram verdades ou exageradas. Admito que nunca tentei ouvir o seu lado.

Talvez pareça óbvio para quem conversa um pouco com ele, mas quem lhe acompanha de longe nunca deve perceber. Makoto Maeda não é daqui e nem da capital. Ele veio de um vilarejo localizado no extremo oeste de Yukopan, um lugar que eu não lembraria o nome nem se fizesse o maior esforço possível, principalmente porque só tive tal informação na sua apresentação à classe, algo que aconteceu há quatro anos. Claro que eu poderia simplesmente perguntar a ele, mas tanto faz. É melhor que não ache que eu esteja incentivando uma conversa ou parecido.

Inicialmente muitos mangaram do seu sotaque e isso deixaria qualquer um reservado e acuado, o que aconteceu exatamente o oposto com ele. De acordo com as histórias, tentaram fazer uma dessas de “te pego lá fora” com ele e detonou um grupo de cinco pessoas completamente sozinho. Parece que o garoto do interior era bem mais forte do que parecia, descobriram isso da forma mais dolorosa possível e claro que a história lhe deu uma enorme fama. Se ainda havia alguma dúvida, Makoto era um dos que sempre conseguiam se classificar com folga para um torneio… exceto esse, é claro. Algo que até me dava um certo alívio. Nunca precisei enfrentá-lo e, na boa, que continue assim.

Sobre as histórias, ele sempre justificava que as pessoas daqui eram muito “frias”, mas já ouvi de mais de uma garota que ele era assanhado. Já o vi saindo com várias garotas, mas não fazia a menor ideia se estava em algum relacionamento por agora. E era esse o meu maior medo. No momento, tudo que ele fazia era estar sentado do meu lado em silêncio e era exatamente o que me deixava bastante encucada. Seria eu a sua nova vítima? Ou era apenas um exagero de minha parte?

-Não vai me perguntar por que eu estava chorando, então?

Fui direto ao ponto. Ele estar sentado e em silêncio do meu lado era muito mais incômodo do que se ele estivesse seguindo a veracidade dos contos.

-‘Cê quer que eu pergunte?

Seu rosto era neutro e se estava se fazendo de sonso, precisava admitir que era um excelente trabalho.

Suspirei. Makoto não é a pessoa ideal para conversar tal tipo de coisa, nem de longe, mas já que só tinha ele, vai ele mesmo. Não é como se fosse ter muita consideração se conversasse sobre isso com o novato, afinal de contas.

-Você deve saber da… minha história com a Nara, certo? – perguntei.
-‘Cê diz sobre ‘cês terem um passado?
-É… mais ou menos isso.

Ele voltou a olhar para frente. Não havia luta nenhuma acontecendo, então não fazia ideia da razão da desviada.

-‘Cês tiveram um caso?

O quê?

-Não, seu idiota! – não escondi a indignação. – Eu tô dizendo sobre o que eu… costumava fazer com certos novatos.

No momento que eu falava aquela frase, percebi o quanto lembrar de tais detalhes me enojava. Querendo ou não, a convivência com o novato aos poucos tinha me mudado. No início não passava apenas de um “tanto faz” e então tudo mudou depois do evento com a Misaho. Foi dali que eu amoleci de vez.

-Ah, ‘cê diz bater neles?
-É, isso.

Não pude afirmar se percebeu meu incômodo, mas era bem provável que não. Voltou a olhar para mim, como se entrasse em conclusão de que não tinha nada para ver na sua frente.

-Bem, ‘cê tem um passado com um bocado de gente, num é?

Argh.

-Não vem ao caso. – indiretamente confirmei. – O ponto é que Nara foi uma dessas pessoas quando ela ainda não era… enfim, o monstro que é hoje.
-Eu ouço essas histórias sobre a rainha e parece tudo mulher de algodão.
-Mulher… de algodão?
-Ah… – coçou a cabeça, demonstrando vergonha. – ‘cê num vai entender se eu falar assim, mas eu quis dizer “lenda urbana”.

E o que “mulher de algodão” tem a ver… enfim, deixa para lá.

-É, você chegou depois de ela adquirir sua última forma. – prossegui. – Houve uma época que Nara era uma das mais fracas daqui, em que todo mundo queria testar suas habilidades. Na sua vingança, ela não deixou ninguém de fora.
-Eu lembro que ela era cheia de marra.
-De… marra?
-É. Que se acha, soberba, essas coisa.

Bem, isso que dá nunca ter conversado com ele; agora apenas lança as gírias para mim como se achasse que eu fosse entender. Ao menos está explicando.

-Eu nunca me desculpei com ela e tentei fazer isso hoje. – continuei. – Ao invés de aceitar minhas desculpas, ela apenas agiu como sempre agiu, me dando lição de moral, como se… como se fosse o último biscoito do pacote.

Ele esboçou um sorriso depois do final da minha frase.

-‘Cê tem suas gírias também.
-É… acho que tenho mesmo.
-Mas diz aí… por que ‘cê tá se importando tanto?

A pergunta foi ambígua para mim e não fazia ideia se ele tinha sido sarcástico ou parecido.

-Por que… eu estou me importando tanto? – repeti o questionamento, tentando assimilar enquanto dizia as palavras.
-É. ‘Cê nunca foi de se importar com o que a rainha pensa ou deixa de pensar. Teve gente que tentou ser amigo dela e ‘cê num é uma dessas pessoas.
-Ah, eu…

E naquele momento eu notei o quão pertinente era o que tinha falado. Sim, ele tinha razão, eu nunca liguei para o que Nara dizia ou fazia; na verdade, eu queria estar mais afastada possível dela, especialmente por conta dos eventos que aconteceram no nosso histórico.

Com isso sendo verdade, por que eu estou me importando agora? Se sentir chateada por ter falhado nas desculpas é uma coisa, mas eu chorei por ter falhado. Por quê?

Makoto parecia que esperava uma resposta de minha parte para as suas questões e eu simplesmente não a tinha. Esperou um tempo considerável, que quase causou um certo embaraço, até finalmente desistir e passar na frente.

-Escuta, Akemi, talvez ‘cê num goste do que eu vô lhe dizer, mas já que a gente tá conversando sobre o assunto… tu amoleceu nesses últimos meses. Eu falei o mesmo pra rainha, mas o seu foi muito mais drástico.
-Dr… drástico?
-Sim. A Ennetsu virou alguém mais fácil de socializar, mas ‘cê apenas tá deixando de ser quem ‘cê é.

Eu… estou deixando de ser quem eu sou? O que ele queria dizer com isso?

-O que você…
-‘Cê tá fazendo todas essas coisas por causa do Pedro, num é?

Não é que ele estava errado e, ao mesmo tempo, não era exatamente difícil de notar. Himari falou algo parecido mais cedo e eu sei dos meus defeitos: eu sou péssima em esconder tais detalhes. Sempre fui muito transparente e direta, algo que se torna um enorme defeito quando tento esconder os sentimentos sobre algo… ou alguém.

Ainda assim, não queria ter tal conversa com o Makoto. Nunca tive aproximação com ele o suficiente para que ele saia dando pitaco no que faço ou deixo de fazer, então todo aquele papo era além de um incômodo; já estava ficando até mesmo revoltada pelo que ele dizia. E se é assim que estou me sentindo, então… então por que eu não estou tirando ele daqui a chutes?

Isso… isso só comprova o que ele disse. O fato de não ter adicionado mais nada após a pergunta só torna ainda pior.

Engoli a seco. O que eu deveria responder agora? Deveria admitir para essa pessoa que, até então, eu estava atacando fisicamente quando fazia algo que me incomodava? Não tinha o mesmo impacto, não quando falava a sério, mais ouvidor do que falador e sem ninguém por perto.

-Eu…

Por um considerável tempo foi o que consegui dizer e ainda esperava, pacientemente, que eu continuasse. Não era o Makoto que passava na frente e falava o que viesse na cabeça e… eu não sabia mesmo o que fazer nessa situação.

-Você acha que o novato é o responsável por isso, então?

Fui neutra. É sempre bom perguntar o que alguém acha quando você mesma não faz a menor ideia do que dizer. Se entendeu o uso da estratégia, não sei dizer, mas respondeu.

-Não, num acho que ele seja o culpado, Akemi, mas se num se importa com a comparação, a transformação da rainha foi diferente da sua. Ela ficou mais aproximável, mas ainda tendo os mesmos costumes e jeitos. É a mesma Ennetsu, mas evoluída, se é que tu me entende. Enquanto contigo… ‘cê tá virando outra pessoa.

Virando… outra pessoa?

-E dá pra perceber que ‘cê tá incomodada com isso. – continuou, aproveitando meu silêncio. – Quando tá todo mundo reunido, ‘cê ainda age como a mesma Akemi, mas em um grupo menor, ‘cê tá reservada, confusa, receosa. A gente já conversou antes e ‘cê nunca foi assim.
-Quando foi que a gente conversou?
-Início do ano, no final da nona série, nosso grupo, ainda com a Misaho, saiu para aquele novo restaurante no shopping. ‘Cê me falou o quanto a comida era uma porcaria e o quanto ela parecia ter um péssimo gosto.

Como ele lembra disso tão perfeitamente?

-Eu disse que o bolo de murquilo estava tão doce que…
-…parecia que tinham tropeçado com o saco de açúcar em cima dele.

Acabei rindo. Aquelas foram exatamente as palavras.

-Eu falei isso só pra você?
-Sim. E ‘cê falou exatamente porque a gente ficou sozinho quando Misaho e Himari foram ao toalete.

Ele estava certo e lembrava dos detalhes ainda melhor do que eu.

-Talvez ‘cê num lembre, mas a gente tava no mesmo grupo antes disso tudo acontecer também, Akemi. Só tinha uma liderança diferente.
-É, antes era a Misaho e agora é Nara. Incrível como coisas como essa acontecem tão…
-Nara? – me interrompeu. – ‘Cê realmente acha que é Nara a líder?
-E quem mais seria?

Ele se levantou no momento em que terminei a pergunta e olhava para mim, sorrindo.

-Ora, quem mais foi responsável por alterar o comportamento de duas das integrantes? – perguntou.

Acabei rindo quando finalmente entendi onde estava querendo chegar.

-Makoto, o novato sequer sabe se virar direito por aqui. Você acha mesmo que…
-Ele num sabe se virar? Desculpa, Akemi, mas se ele conseguiu por tu e a rainha no mesmo grupo, ele parece se virar muito bem.

Pior… que aquele era um ponto muito bom.

-De qualquer forma… – continuou, se virando pra minha direita. – Meu ponto é que se ‘cê tá se incomodando desse jeito, talvez ‘cê deveria rever o que tá acontecendo contigo.

E você acha que é fácil assim? Era o que eu estava prestes a dizer, mas as palavras simplesmente não saíram da minha boca.

-Desculpa, Makoto, mas apesar da gente se conhecer há um tempo, você não me conhece com profundidade. Então, por favor…
-‘Cê tá mudando assim por causa do Pedro. – me interrompeu mais uma vez, sem hesitação. – ‘Cê tá com medo de que ele reprove suas atitudes, então ‘cê tá mais na tua, quieta, sem fazer nada barulhento.

-Essa num é tu, Akemi. E, se quer minha dica, ‘cê deveria voltar atrás antes que num sobre nada de ti.

Era revoltante. Revoltante o quanto aquilo tudo parecia tão transparente que até mesmo aquela pessoa, que ficou meses afastado da gente, percebeu.

E sim, eu admito: ele está certo. Não é que ele abriu minha cabeça agora ou parecido, é apenas… que ninguém nunca tinha dito de forma tão direta para mim. Uma daquelas verdades inconvenientes que você esquece até que alguém toque no assunto e, quando isso finalmente acontece, nunca é uma experiência agradável.

Mas eu não poderia ficar revoltada com ele. Por que atacar o mensageiro? Makoto não fez nada de mais, além de completar um quebra-cabeça para crianças, provavelmente um do nível que você coloca as formas em seus devidos lugares, de tão nítido que aquilo parecia.

Além disso, agora que tocou no assunto…

-E o que você quer que eu faça?

Minha questão veio acompanhada da mesma revolta e confusão que estava sentindo agora. Não é que não fiz questão alguma de esconder, é apenas que talvez não desse para esconder, simplesmente.

Sinceramente, não dou a mínima se ele perceber. Vale mesmo a pena esconder isso quando todo o resto era um enorme livro aberto com letras garrafais? É tarde demais para isso.

Ele virou sua cabeça para a minha direção com um semblante sério e bem não-característico seu… ou, pelo menos, o que eu achava que não fosse característico seu. Suspirou e, logo em seguida, respondeu com uma calma que nunca tinha visto demonstrar.

-Talvez ‘cê devesse mostrar quem ‘cê é pro Pedro. Ou isso, ou ‘cê vai ficar pior.

Eu estava prestes a perguntar algo como “você é maluco? Como eu poderia mostrar quem eu sou para o Pedro?” e, antes mesmo de soltar a primeira palavra, percebi o quanto aquilo só fortalecia a sua conclusão. Como já comentei antes: ele não estava errado. Sendo precisa, ele não errou nada. Quase como se fosse a minha cabeça entrando em pânico ao finalmente aceitar tudo que estava acontecendo.

Sim, eu estava receosa, reservada, confusa. Sim, eu vou ficar pior se nada fizer, porém odiava que a minha única opção de resolver isso fosse a que sugeriu.

-Makoto, se eu me mostrar para o Pedro, ele deve me largar de mão.

É, admiti. Foda-se. Não ligava mais para a sua reação. Aliás, é quase como se eu estivesse o recompensando por ter adivinhado tudo tão bem.

-Vai ser muito pior se tua máscara cair quando ‘cê num tiver mais o controle, Akemi.

É. Acertava de novo. Pelo visto eu era nesse nível de previsível.

Naquele momento o professor Ootsuka anunciava que a próxima partida seria a de Himari contra o novato. Já não ligava para nenhuma das batalhas há algum tempo e me surpreendi quando o anúncio finalmente veio. Apesar da importância dela, eu não sei se… bem, se era a coisa mais importante naquele momento.

-Escuta…

Makoto falou aquela palavra e se aproximou de mim. Percebi que eu estava bem mais acuada na arquibancada naquele momento, com as pernas em formato triangular e abraçando perto da minha canela. Não lembrava nem mesmo quando havia mudado para aquela posição.

-O Pedro vai te aceitar, tá bom? – prosseguiu. – Talvez ele se revolte com certas coisas que ‘cê costuma fazer de início, mas tudo passa. ‘Cê só tem que começar o quanto antes ou pode ser tarde demais, sabe?
-Sim.

Foi tudo que consegui dizer. Ele demonstrou esperar mais, mas foi tudo que saiu.

O pior é que eu sei que o novato vai me aceitar, a questão é quando. Não sei se Makoto sabe também, mas amizades manchadas são bem mais comuns do que parecem. Pedro me trataria do mesmo jeito? Ou nossa amizade iria morrer aos poucos? Mesmo que ele não aceitasse, eu acabaria me recuperando também, só que… tudo leva tempo, muito tempo.

-Olha, se ‘cê quiser dicas, eu posso te dar algumas. Como pode perceber, eu sou ótimo em recuperar relacionamentos quebrados.

Bem, devo admitir que ele arrancou um riso meu depois daquilo.

-A gente vê sobre isso depois do torneio. – respondi.

Assentiu silenciosamente e desviou o olhar por alguns segundos até finalmente voltar a falar.

-Bom, eu vou assistir lá de cima, a visão é péssima daqui.
-Eu não discordo.
-‘Cê quer vim?

Sendo sincera…

-Não. – respondi. – Desculpe.

Ele agiu quase como se estivesse esperando exatamente esta resposta e se despediu, subindo as escadas que estavam alguns metros à minha direita.

Isso é bem diferente do que normalmente costumo fazer, mas… eu preciso pensar.


O público presente no momento era bem menor do que estava antes. Certo, eu estava sendo bem considerável aqui; não havia quase ninguém nas arquibancadas, em que pude facilmente localizar Makoto e Nara apenas passando rapidamente o olho. Não sei se perceberam o meu olhar, mas não fizeram absolutamente nenhum gesto para expressar.

Não estava tão silencioso aqui quanto estava lá fora, mas raramente a situação passava dos burburinhos. Era nítido que a maior parte de tais pessoas não dava mais a mínima para as batalhas e não os culpo. Provavelmente o nível presente aqui era bem mais baixo do que o normal. E, sendo bem sincero, não vejo como seria muito diferente desta vez também.

De alguma forma, Himari já estava lá. Em pé, praticamente estática e com uma coluna ereta de fazer inveja mesmo aos praticantes de boas posturas. Já eu… tenho a certeza que estava levemente corcunda, enquanto ia lentamente para a minha posição.

O friozinho na barriga voltava de novo… não, não apenas isso. Não era uma sensação boa, como talvez pareça usando esta descrição, mas sim algo extremamente incômodo. Eu suava, não de calor, mas do mesmo nível térmico que a temperatura ambiente.

O que Himari havia me dito passava pela minha cabeça mais uma vez. Eu sei que ela disse tudo aquilo somente para tentar me assustar… ou provavelmente para esconder o quanto estava assustada, como eu havia desvendado. Ainda assim, era difícil esconder aquele sentimento de traição. Tratamos ela tão bem durante todos esses meses, demos espaço para que participasse do nosso grupo… tudo isso para quê? Para me ofender de forma tão gratuita no final? A razão até poderia ser justificável, não importa, ainda foi de uma desconsideração incrível.

Ironicamente pensar nisso até mesmo ajudava em diminuir meu nervosismo. Talvez raiva não fosse exatamente um substituto ideal, mas era algo novo. Parece que eu preferia sentir qualquer coisa no lugar de ter minha ansiedade atiçada mais uma vez.

Até mesmo perder não parecia tão ruim agora. Estava mais do que preparado para perder tentando. Digo, vamos ser honestos aqui: Himari tinha parte de razão. Por mais que eu realmente ache que meu treinamento com Nara foi superior ao dela, não faço a menor ideia de quanto tempo foi treinada pela Misaho e se sobreviveu tantos anos nesse colégio, era sinal de que estava longe de se jogar fora.

Não ia ser fácil. As dicas de Misaho talvez até ajudassem, só que eu ainda teria que enfrentar alguém com muito mais experiência do que…

…hã?

Espera… por um momento tudo pareceu congelar e então… corrompeu? Sério, eu não tinha outro termo melhor para isso. Tudo que eu olhava estava fora do lugar, quase como gráficos quebrados de uma placa de vídeo prestes a pifar. O ar também simplesmente parou. Não havia mais vento, não havia mais barulho. Não era um vácuo, porém nada mais circulava ao meu redor. Eu sentia como se fosse sufocar se ficasse parado por muito tempo.

Puxei as minhas mãos para que pudesse olhá-las, comprovando que, apesar de tudo ao meu redor estar parado, eu ainda funcionava. Quase engasguei ao ver que o mesmo problema se refletia nos meus membros. O que está acontecendo?

No momento em que finalizei tal pergunta mental, as mãos voltavam ao normal, mas todo o resto do ambiente desapareceu, dando lugar ao branco dos intervalos da simulação.

É sério?

Expressei sozinho em indignação, causando um poderoso eco. No final, não era apenas impressão; eu ainda estava na simulação. Provavelmente uma parte mais bem feita do que a primeira e segunda, mas ainda uma simulação. Quando comecei a colocar tudo no lugar, sentimentos mistos começavam a andar na minha cabeça.

Sim, isso significa que tudo que Himari falou, na verdade ela não tinha falado. Era um alívio, mas… tudo que Nara havia falado também não era nada além da minha cabeça.

Não havia David White chegando para ver minhas “habilidades” em breve.
Não havia Misaho me dizendo estratégias para vencer sua ex-amiga.
Não havia nenhum grupo se formando com Makoto fazendo parte do mesmo.

Foi demorado de juntar as peças no final de tudo porque parecia que aquela parte da simulação havia levado séculos para terminar. Era difícil não embolar com coisas que realmente haviam acontecido, assim como era ainda mais fantástico ainda que as coisas se encaixavam como se fizessem sentido. Bem, levando em conta de quem foi o responsável por esse sistema, não me impressionava.

Enquanto ainda juntava os cacos do que perdi e ganhei nisso tudo, ficava a pergunta: e agora? Verei de novo a personificação da Nara no vestido mais estonteante existente me parabenizando e então entrarei em uma parte mais complexa ainda da simulação? Eu já duvidava que fosse possível chegar tão longe, de se assemelhar tanto assim com a vida real, inclusive pegando detalhes interessantes e relevantes de personalidade, mas agora que todas as minhas expectativas haviam sido destruídas, era difícil duvidar que isso tivesse ainda mais níveis.

Até quando isso vai durar?

E a “Nara” com vestido estonteante se materializava na minha frente novamente. Previsível. Sua expressão era mais parecida com a de peixe morto do início e apenas olhava para mim.

-Muito bom. – falei. – Qual vai ser a próxima, então? Sairemos da prova, voltaremos ao “mundo real” e então serei surpreendido com esse maravilhoso vazio quando estiver escovando os dentes para dormir?

O guardião não reagiu.

Suspirei. Estava cansado demais de toda aquela merda. Foda-se essa maldita prova. Tudo que queria era ir para minha casa… minha casa de verdade.

-Olha, eu desisto, tá bom? – voltei a falar depois da reação de indiferença. – Não ligo mais pra nada disso, só me deixa ir embora.

E nenhuma resposta, nem sequer uma mudança de visão, nada. Aquele clone de Nara não parecia parado, mas sim estático. Era firme como se fosse um pôster fixo na parede. E essa agora?

-OK, se eu disser a frase de segurança, você me deixa ir, então? Chikara no Kyoten. Pronto, falei.

Nada.

Chikara no Kyoten. Chikara no Kyoten. Chikara no Kyoten. Chikara no Kyoten. Chikara no Kyoten. Chikara no Kyoten… quantas vezes você quer que eu repita isso? Ao menos me diga como sair…

Uma reação. Diferente da que eu esperava, mas ainda uma reação.

O guardião não expressou nada e sequer se moveu… ou ao menos achava que ele não tinha se movido. O que realmente havia acontecido é que sua textura se corrompeu, exatamente da mesma forma que a última simulação havia terminado.

Antes que pudesse sequer pensar se deveria entrar em pânico, fui surpreendido com uma caixa de texto aparecendo na frente da sua textura corrompida. Sim, eu não falei errado: literalmente uma caixa de texto.

Levei algum tempo para reconhecer em que língua estava. Era orientês. Estava longe de ser fluente nela como era no yukoponês, mas pude reconhecer o que o texto dizia depois de algum esforço.

Erro: memória insuficiente para executar a operação”.

Ora, mas que ótimo. Agora a simulação estava se quebrando sozinha. Diabos, já estava esperando várias camadas extras prontas para me pegar de surpresa. Quem sabe até uma em que eu vivesse uma vida completa e então fosse surpreendido quando estivesse tentando alcançar a luz que tanto dizem que você enxerga quando está prestes a morrer. Tal luz seria esse branco novamente e seria recepcionado por uma Nara de cento e tantos anos me “parabenizando” mais uma vez por algo que nunca teria entendido.

Mas sério agora… isso não é um bom sinal. Presumo que apenas acordemos quando a simulação pifar com uma tela azul ou parecido… certo? Havia apenas um botão na caixa de texto, escrito com o velho padrão de confirmação, o “Ok”. Eu deveria apertar? Basta só levar o dedo até…

De uma forma tão súbita como havia surgido, o guardião desapareceu. Em seu lugar, uma tela gigante, formada por bordas vermelhas, fundo preto e texto branco, até mesmo assustadora, aparecia na minha frente. Precisei dar vários passos para trás para que as letras não fossem garrafais demais para que eu enxergasse as palavras.

Com um pouco de atraso, veio um som ensurdecedor formado por uma espécie de sirene, que tocava a cada segundo. Uma contagem? Era difícil se concentrar com um barulho tão alto e com um texto de outra língua à minha frente, mas precisava me esforçar.

Alerta: acesso não autorizado detectado”? Era isso?

-Por motivos de segurança, a simulação será…

Espera, que palavra era aquela? Era acompanhada por “em 02:56”, em que o segundo número reduziu logo em seguida, praticamente confirmando que se referia a dois minutos e tantos segundos.

A última parte do texto não era apenas orientês e sim vinha em várias línguas diferentes, o mesmo texto repetido e traduzido, algo que pude confirmar comparando o yukoponês com o toruguês.

Todos os usuários presentes na simulação devem sair o mais rápido possível antes que esta seja destruída, ou podem correr sérios riscos de saúde”. O quê? Como assim “riscos de saúde”?

-Que… que merda é essa?

Minha voz foi completamente abafada pelo barulho ensurdecedor. Meu desespero aumentava drasticamente sempre que vinha o contador reduzindo, agora já estava em 02:39.

-Como eu saio daqui, então? Como eu saio daqui?

Gritava, achando que fosse ajudar em algo, em vão. Olhei ao meu redor buscando por uma espécie de porta, botão ou parecido. Nada. Aquele aviso em palavras garrafais sequer tinha um “Ok”. Comecei a correr ao redor, descobrindo que aquela sala era bem menor do que realmente parecia, em que eu batia diversas vezes em paredes invisíveis.

E espera… “todos os usuários”? Então todos ainda estão na simulação? Não! Não, não, não, isso é ruim. Isso é muito ruim!

Tentei bater nas paredes, quase como se estivesse em alguma espécie de prisão e isso fosse ajudar a me ouvirem. O suposto material da parede era sólido e abafava o som das minhas batidas, agindo como uma espécie de rocha grossa. Um botão secreto, então? Um código? E se eu tentasse falar a frase de segurança de novo? Não havia muito o que fazer, então era o que eu podia tentar.

Não tentei.

Subitamente todo o alerta e o branco sumiram do meu redor. Na última olhada que havia dado, o contador estava prestes a sair dos dois minutos. Parecendo que nada havia acontecido, eu estava de volta à arena, exatamente de onde havia parado, com o mesmo cenário.

Aquilo não foi um sonho e nem uma alucinação. Diabos, só porque não consigo ver o contador ou ouvir a sirene ensurdecedora, não significa que eles não estejam ativos. Eu… eu preciso sair daqui. Rápido.

Sem nenhuma contagem necessária! Vão!

O anúncio do professor Ootsuka… ou uma versão simulada dele, foi o suficiente para me desconcentrar por completo. Himari não perdeu tempo e foi em cima de mim, disposta a provar o que tinha falado minutos antes. Isso considerando que estávamos falando da verdadeira Himari.

Como tudo que ela tentou não tinha passado de um soco elemental, não tive nenhum problema para defender. Uma rajada de vento me atravessou no processo, quase como se fosse o recheio de tal investida. Ela demonstrou estar perplexa por um instante, mas logo voltou ao rosto de seriedade de antes.

-Himari! – gritei. – Espere!

Parecia prestes a recuar e desistiu quando ouviu meu pedido.

-Eu sei que é difícil de acreditar, mas… nada disso é real. – completei.
-Hã?

Mesmo confusa, tirou sua mão fechada do meu antebraço e se afastou pelo o equivalente a alguns passos.

-Ainda estamos na simulação. Nada disso está acontecendo.

É, eu sei que isso era terrivelmente confuso para simplesmente dizer, porém o que eu deveria falar no lugar? Claro que ela não respondeu de imediato como se fosse um pensamento comum e levou alguns segundos para sequer reagir.

Me atacava novamente e do mesmo jeito do que antes, mas dessa vez demonstrando um pouco mais de raiva. É, essa foi a sua reação. Defendi sem muito esforço, exatamente da mesma forma que antes.

-Você não me ouviu? – perguntei, quase gritando. – Estamos…
-Você vai mesmo usar essa desculpa esfarrapada para não lutar? – me interrompeu no mesmo tom. – Pelo menos perca com dignidade.

Espera, não é isso que… droga, não posso me concentrar se ela vai levar isso a sério. Em questão de milésimos de segundo, ela pulou por cima de mim e me deu um chute nas costas. Não foi tão forte, em que sequer senti dor e me recuperei rapidamente. Olhei para trás, indignado.

-Não é nenhuma desculpa, droga! – reagi. – É sério!

Percebi a mesma perplexidade que demonstrou logo antes e não pude entender exatamente o que significava. Diferente da primeira vez, agora não tentava esconder e levou muito mais tempo para se recuperar.

A recuperação não contou com uma resposta verbal e sim com mais um ataque. Uma simples rajada de vento feita com mãos abertas e que sequer me tirou do lugar, mesmo envolvendo sua aura intensa no processo. Agora a perplexidade vinha acompanhada de uma expressão boquiaberta.

-Como… como você nem está sentindo nada? – perguntou, ainda com as mãos levantadas.
-Do que você tá falando? Você nem tentou nada poderoso ou parecido. Pode me escutar agora, por favor?

“Não” era o que provavelmente diria se expressasse oralmente. Não me atacou diretamente, no entanto pulou o suficiente para ficar perto da borda da altura da arena e então flutuava. Estava literalmente voando… ou planando, não pude diferenciar. Sua aura salmão brilhava com a maior intensidade que havia visto desde que cheguei no colégio, acompanhando o brilho dos olhos, indicando que se preparava para um ataque. Mesmo em tal distância percebi em seu rosto um desespero que já tinha visto antes… o desespero de quando tentou me salvar de Misaho, naquele fatídico dia.

A simulação não conseguiria fazer nada tão perfeito assim, faria? Se fizesse, eu estaria completamente perdido. Aquela era a verdadeira Himari, lutando a sério para vencer a suposta batalha de sua vida, enquanto eu apenas tentava gritar, em vão, que ela não adiantaria de nada no final de contas. Aquilo me deixa ainda mais preocupado. Não era só eu que estava naquele mundo inexistente que iria quebrar em… algum instante próximo, já tinha perdido as contas.

Pensei em gritar mais uma vez e desisti no mesmo instante. Era inútil. Mesmo em situações normais, eu precisaria de algo concreto, uma prova. Não poderia sair gritando aos quatro ventos como um maluco sobre nada disso estar acontecendo de verdade. O caso é… como eu iria provar que ainda estávamos na simulação? Querendo ou não, eu poderia ter passado por nada mais que uma alucinação. Eu sabia que não era, só que era bem diferente para os outros.

Ela passou ainda algum tempo no ar, como se estivesse carregando seu poder. Dessa vez atacaria com apenas o braço direito, em que puxou o mesmo para a parte de trás da sua cabeça, do mesmo jeito que lançaria uma bola. Além da aura que já estava brilhando há algum tempo, rajadas de ar visíveis começaram a rodear tal braço, dando um bonito efeito e poderoso, ao menos na aparência.

Nada de falar o nome do ataque em voz alta ou até mesmo um gemido demonstrando cansaço. Quando fez o efeito de lançar, sua mão gerou um poderoso furacão, seguindo exatamente o mesmo padrão das rajadas concentradas no seu membro. Ele ficava cada vez maior quanto mais perto estava da superfície e provavelmente atingiria seu ápice quando chegasse em mim.

E se fosse mesmo uma alucinação? Eu deveria perder para provar meu ponto? Droga, na pior das hipóteses, pelo menos eu deveria reagir.

Mesmo agindo rápido, quase não consegui contra-atacar em tempo. Diabos, sequer sabia como contra-atacar. Era um furacão, cacete! Até tentaria desviar, se não tomasse boa parte da arena e até mesmo fora dela. De forma instintiva, tentei cortar ele, já esperando que não fosse resultar em absolutamente nada e apenas fosse jogado para fora, perdendo tudo que já tinha feito até aqui apenas por insistir na teoria da pílula vermelha. Que estúpido.

Ou não.

Tudo aconteceu tão depressa que demorei até mesmo para raciocinar. O furacão desapareceu completamente e eu sequer tinha saído do lugar. Além disso tinha começado a… nevar? Espera, como?

Ainda estava vendo os flocos caírem do céu, quando Himari pousou. Não, “pousar” é uma palavra muito otimista. Ela caiu com força no chão, ainda de pé e absolutamente ofegante e surpresa. Sua aura e brilho nos olhos desapareceram com um efeito de desaparecimento gradual. Não demorou muito para que ficasse de joelhos e tivesse que apoiar as mãos no chão para não bater a cabeça. Olhou para mim por algum momento, mas logo desviava a sua atenção diretamente para o chão, que ficou completamente branco, como se a neve estivesse caindo por longos minutos. A questão é que tudo aquilo aconteceu em menos de dez segundos.

Demorei para entender que eu acabava de ter cortado um furacão. Não só isso, como sequer me sentia com nenhum cansaço. Enquanto a minha adversária sequer conseguia se levantar pela alta fadiga, eu me comportava como se tivesse tomado o café da manhã. Naquelas condições, a luta era claramente de um lado só.

-Pode me ouvir agora?

Ela não olhou para mim, mas pude notar que tinha me escutado. Sua respiração ofegante veio acompanhada de gemidos, gemidos de choro.

-Eu… eu me esforcei tanto… pra isso?
-Himari, como eu já falei…
Cala a boca!

Agora ela ajoelhava com muito mais esforço do que faria em situações normais. Seu olhar era de desgosto, com lágrimas caindo e uma poderosa cólera.

-Você… você fingiu esse tempo todo que não era tão poderoso para me humilhar?

A sua raiva foi cessando aos poucos, dando lugar a uma depressiva tristeza com mais lágrimas caindo constantemente. Ela sabia que não iria vencer e não fazia a menor questão de esconder.

Se servisse de consolo, aquele não era meu poder. Assim como a primeira parte da atual prova, eu parecia muito mais poderoso do que era na vida real. Uma batalha justa com Himari seria bem diferente disso e sem cortes de furacões envolvidos. Não entendia porque a simulação havia me deixado assim, porém era a mais pura verdade.

Espera, será que eu poderia usar esse poder para salvar todos aqui? Parecia que havia passado muito mais do que dois minutos, mas… nada havia acontecido. Era tudo balela? Ou… alucinações? Eu… eu estou imaginando tudo isso?

-Não vai me responder, então? É tão superior que agora nem vai falar nada?

No momento que falou tais palavras, desviou o olhar para o chão da sua esquerda.

-Acabe logo com isso de uma vez. – completou.

Isso é de mentirinha! Não consegue ver? Foram as palavras que passaram na minha cabeça e que estava prestes a dizer, até me surpreender com meu braço direito levantado. De início achei que estava congelado, até perceber que conseguia mover meus dedos sem nenhum esforço; pude confirmar que o mesmo valia para o outro braço: uma fina camada transparente de gelo que brilhava com a luz do sol. Sim, a neve tinha parado tão rápido quanto tinha chegado, praticamente confirmando que… bem, que eu causei.

Estava sem ideias do que fazer e isso se mostrou irrelevante quando tudo ao meu redor se corrompeu.

Aconteceu de novo, não era uma alucinação.

Não demorou para o cenário ficar todo branco novamente.


Já havia perdido a noção do tempo… não, não só do tempo, de espaço também.

Depois de ser novamente “teletransportado” para a parte seca da simulação, não fui recebido por ninguém. Tentei esperar, chamar, gritar… nada aconteceu. Sofri aquele pequeno pânico de achar que estaria aqui para sempre e que a simulação já tinha se destruído, mesmo que fosse sem um sonoro “bum” ou algo do tipo. Bem, ainda uma chance de que isso seja verdade.

A questão maior mesmo é que eu havia descoberto que, na verdade, eu não estava preso em um pequeno cubo de paredes invisíveis. Sim, em três lados eu sou completamente bloqueado de passar, mas em um deles eu pude “atravessar” e continuar. A esperança inicial de que ainda havia algo, se transformou lentamente em uma dúvida e então frustração. Seguia pelo mesmo caminho há… não fazia ideia, horas talvez? Não sentir cansaço por estar andando tanto não é exatamente uma benção também.

Em momentos esporádicos verificava os outros lados para ver se ainda estavam bloqueados e sim, ainda haviam dois deles impossíveis de passar. “Dois” porque o lado que eu vinha também estava com acesso liberado, porém esse todos nós já sabíamos onde vai dar e não tinha razão para voltar, afinal.

O silêncio ao meu redor era cortado apenas pelos meus passos, estes ecoando de forma tão absurda que foi incômodo no início, mas agora parecia apenas natural. Nem eu fazia a menor ideia da razão de continuar andando, apenas continuava, na esperança de que, em algum momento, tudo terminasse e então saísse disso de uma vez. Sério, quem faz uma maldita simulação que se autodestrói e então você simplesmente permanece nela? Me parece uma falha absurda de design, no mínimo.

Espera… aquilo é…?

É difícil algo, que não é o mesmo que o branco completo ao meu redor, passar despercebido. Parecia bem distante, só sei que estava lá. Alguma coisa, depois de uma porrada de tempo andando em um corredor vazio, se destacava à distância. Tudo bem que ainda estava muito longe para identificar o que é, mas não ligava. Qualquer coisa era melhor que todo aquele nada.

Acelerei os passos aos poucos e logo já estava correndo. Seja lá o que fosse ali, estava tão longe que, mesmo correndo, ainda estava indistinguível. Provavelmente éramos separados por literais quilômetros e sentia que aquela corrida poderia durar ainda mais algumas dezenas de minutos. Escolhi por correr com o máximo que meu poder permitia, suspeitando que isso não fosse me cansar completamente, diferente da vida real. Após tamanho aumento de velocidade, precisei de apenas meras dezenas de segundos para finalmente alcançar meu destino.

Na minha frente estava um… lago? Bem, era um enorme córrego de água, em que avançava ao infinito nos lados em que era bloqueado pela parede invisível. Chamei de lago e não oceano por um único motivo: eu conseguia ver o outro lado e não parecia muito longe, mas também não era curto o suficiente para ser um riacho. Ainda assim, não tinha sido aquilo que chamou minha atenção quando estava vendo ao longe.

Havia uma pessoa sentada perto da costa mais próxima de mim. Estava usando uma vara de pescar e, do seu lado, tinha uma cesta de tamanho considerável e de um material trançado e amadeirado, completamente vazia. Por um instante parece não ter percebido a minha presença e logo isso mudou, virando sua atenção para mim.

Era um homem de meia-idade e sem muitas características destacáveis, exceto talvez, pela cor de pele: era moreno, não do mesmo tom que o meu, mas bronzeado. Seu porte físico era de uma pessoa levemente malhada, ainda longe de ser “bombada”, porém nitidamente produzido e mantido em academia. Era bem difícil de dizer por estar sentado, mas imaginava que não fosse muito mais alto que eu. O maior destaque era, definitivamente, por sua cor de cabelo e íris, que eram completamente pretos. Tão escuros que pareciam absorver todo aquele branco ao redor.

Ele sorriu ao me ver.

-Ora, olá. Olá!

Sua voz grossa falava em yukoponês e que não era nativo. O sotaque era forte e bem diferente do que já estava acostumado a ouvir nos últimos meses.

-Er… oi. – respondi, acanhado, na mesma língua.
-Pedro Cardoso, imagino?

Ele… me conhecia? Seu rosto não me era familiar… digo, eu reconheceria qualquer um com aquelas características sem muito esforço.

-Sim, – confirmei. – sou eu. Nós… nos conhecemos?
-Eu ouvi falar muito de você e provavelmente você de mim. Isso conta?

Sorria mais uma vez ao falar aquelas palavras. Apesar de ser um completo desconhecido para mim, seu carisma era destacável e suas palavras pareciam sinceras e naturais. Indiretamente isso serviu para me deixar mais confortável.

-Não sei. Talvez… ajude?
-Para mim é o suficiente, espero que para você também. – ele mantinha a mesma energia. – Por favor, sente-se.

Indicou, batendo no chão e com sua mão direita, o lugar em que eu deveria sentar. Bem, não é como se eu tivesse muita opção, afinal.

Fiz o que pediu e, pela primeira vez, pude sentir o material do chão. Com aquele lago na nossa frente, esperava que fosse mole e confortável, como terra. No lugar disso, se revelou duro e frio, seguindo o padrão do caminho que percorri até aqui. Digo, ser “duro” eu já sabia, mas ainda não tinha sentido a sua temperatura por estar calçado. Ele esperou que eu me ajeitasse com as pernas cruzadas antes de voltar à palavra.

-Devo dizer que, mesmo que esperasse que encontrasse esse lugar, ainda é surpreendente que tenha conseguido.
-E onde estou? – aproveitei para perguntar.

Ele desviou o olhar para o grande lago a nossa frente e então respondeu.

-Se isto fosse um jogo, esta é como se fosse uma fase secreta. Na verdade, nem faço ideia de como chegou aqui.

É, nem eu, foi o que pensei em dizer, mas aquilo não era tão importante, afinal.

-Quem é você? – questionei.

Ele voltou a olhar para mim. Seu rosto ainda era tão receptivo quanto antes, mas notava facilmente que não queria exatamente responder.

-Ah, que modos os meus! – fez tal ação, ainda assim. – Meu nome é Duvasse, mas pode me chamar de Michel.

E estendeu sua mão para que eu apertasse, algo que fiz prontamente. Espera um pouco… Duvasse, Michel… Michel Duvasse. Michel Duvasse? Michel Duvasse?

-Você é o… presidente da Liga dos Heróis?

Ele sorria mais uma vez ao perceber que foi reconhecido.

-O próprio. – confirmou.

Mesmo que não tivesse a menor ideia de como reagir àquilo e provavelmente ainda estava com uma cara abobada e boquiaberta, havia algo fora do lugar.

-Não… não é assim que eu lhe imaginava. – e logo percebi a agressividade da minha constatação. – Digo, na aparência. Digo, eu não queria ofender o senhor…

O seu sorriso não murchou.

-Está tudo bem, garoto. – disse, calmo. – Faz todo o sentido você não me reconhecer, exatamente porque essa é a minha aparência de mais de trinta anos atrás.

Oh.

-E também eu deveria estar apresentável para um convidado tão especial, não acha? – completou.

E mais uma vez, ouvia aquilo de novo.

“Seu poder é especial”.
“Você é especial”.
“Para um convidado tão especial”.

Toda aquela repetição vinda de tantas pessoas diferentes, mas que não tinham significado nenhum para mim. “Especial”? Por que “especial”? Por que todos se recusavam a responder tal pergunta quando eu insistia? Se eu era tão “especial” assim, então deveria ser fácil dizer o que me fazia “especial”, certo?

Ainda assim, não é como se o presidente da Liga tivesse algo a ver com isso, então não tinha razão de ser agressivo com ele.

-Você está me superestimando, Sr. Duvasse. – afirmei, com um sorriso que esperava não ser amarelo. – E não é o primeiro.

Aquilo lhe deixou com um semblante próximo ao de surpresa.

-“Michel” está bom, garoto. – alegou. – E estou?
-Está.

Virava mais uma vez para a frente, com um ar pensativo e levantou a sua vara de pescar, como se quisesse indicar algo.

-Sabe? – falou. – Eu estou aqui há algumas horas e não pesquei nada ainda. Será que você pode me ajudar?

Er… bem…

-É só um lago de uma simulação, eles… provavelmente não programaram os peixes, Sr. Duv… Michel.

A naturalidade em que falei aquele conjunto de palavras até me surpreendeu.

-É, imagino que não. – concordou. – Exatamente por isso que preciso de sua ajuda.
-Eu meio que… não sei exatamente como ajudar.
-Você pode tentar imaginar um.
-Imaginar?
-Sim.

Por que ele falava aquilo como se fosse uma ação comum e esperada? No que ajudaria eu imaginar algum peixe? Digo, não é como se isso fosse fazer alguma…

-Ah, fisguei um!

Sim, era verdade. A sua vara de pescar estava encurvada e sendo puxada por algo. De início sofreu problemas severos para que conseguisse puxar e precisou de um leve uso de poderes, demonstrando a sua aura. Tão negra quanto seus cabelos.

Um animal não humano não teria nenhuma chance de lutar contra um poder elemental, especialmente a do presidente de uma organização de outras pessoas poderosas e isso foi provado do mesmo jeito aqui. Um grande peixe cinza-prateado foi puxado. O senhor Duvasse precisou de um pouco de força para que o animal fosse acalmado e aquele momento foi quando eu finalmente notei.

-Uma… carpa?

Ele soltou uma alegre gargalhada.

-O garoto pensa grande, hein? – e tentava acalmar a carpa, que ainda batia ferozmente sua barbatana. – Geralmente as pessoas não pensam em muito além do que um peixinho dourado de aquário.

Não, não podia ser coincidência. Aquela carpa era exatamente o peixe que imaginei, o mesmo que comia nos finais de semana, preparado pela velha. Fazia meses que tinha comido pela última vez, exatamente por sequer saber preparar.

Ela finalmente parava de tentar lutar contra o seu destino e eu já esperava que a pessoa da minha frente apenas botasse na cesta do seu lado, como um sucesso do seu esforço. No lugar disso, o senhor Duvasse silenciosamente removeu o anzol da sua presa e então, com um pouco de força, arremessou o peixe novamente para a água, que não perdeu tempo em fugir, quase como se soubesse que não teria uma segunda chance.

-É só uma simulação, afinal. Não vou poder fazer minha janta mais tarde com ele.
-Espera, Sr. Michel, eu… eu fiz isso?

Ele posicionou a vara de pescar lentamente no chão, praticamente admitindo que não pretendia continuar pescando. Cruzou as suas pernas com certa dificuldade e finalmente olhou de volta para mim, antes de responder.

-Não intencionalmente, mas sim, você fez isso.
-Como assim?

O senhor Duvasse pigarreou, provavelmente por estar prestes a dar uma explicação mais longa do que o normal.

-A maior parte dos grandes poderes surgem sem querer e o seu não é exceção, garoto. Eu, por exemplo, só descobri o meu poder no final da adolescência. Pelo que ouvi, você tem capacidade de congelar água desde que era um bebê, correto?

Espera, como ele sabe disso? Pensando bem, a resposta não era exatamente tão complexa assim, ainda mais sendo quem ele diz que é.

-Sim, isso mesmo. – confirmei.

E sorriu, demonstrando grande satisfação.

-Você sabe que a pessoa mais jovem que demonstrou uma habilidade parecida com a sua tinha em torno de doze anos, certo?

Oh.

-Mas… eu poderia estar mentindo, certo? – perguntei, sem esconder a curiosidade. – Vocês não recebem relatos de pessoas que mentem?
-Sim, poderia e sim, recebemos. É por isso mesmo que não acreditamos apenas em relatos. Eles só importam quando são histórias reais.
-E como vocês confirmam esse tipo de coisa?

Mais uma vez ele hesitou, expressando que não queria exatamente responder. Acabou cedendo mesmo assim.

-A Liga tem, por acordos centenários, acesso a todos os poderes de todos os habitantes do planeta. Sabemos afinidade, elemento, como os poderes são expressados… esse último é um pouco mais obscuro algumas vezes e felizmente não foi no seu caso.
-Então alguém registrou o que fiz?
-Sim, geralmente pais fazem isso, especialmente se acontecer algo de extraordinário.

Acabei rindo e sabendo que o senhor Duvasse não iria entender. Aquilo era exatamente a cara deles, principalmente quando diziam o quanto eu era importante pela minha afinidade. É certeza que fizeram tal registro antes mesmo de me socorrer, se é que isso era possível.

-Entendo. – falei. – Mas isso não explica a capacidade de criar carpas, não é?

Desta vez não pigarreou, porém não era difícil de notar que pretendia fazer mais uma explicação longa.

-Você já ouviu falar em Jacques Tesla?

No mesmo momento que fez a pergunta, a imagem veio diretamente na minha cabeça. Digo, não era exatamente uma celebridade, mas…

-…a criadora da eletricidade? – perguntei.
-Bem, criadora é uma palavra até exagerada, mas sim, se você sabe de quem estamos falando, fica ainda mais fácil.

Ele abraçou suas mãos e as apoiou no seu colo, além de virar o seu olhar para o enorme lago. Não havia mais nenhum sinal da carpa, não algum que eu pudesse notar em uma rápida olhadela.

-A senhorita Jacques tinha a capacidade de gerar raios com seu elemento e, bem, raios não eram exatamente uma novidade. – prosseguiu. – O que ela conseguiu fazer foi transformar o seu elemento, o ar, em descargas elétricas. Isso a tornou uma das heroínas mais fortes de todos os tempos, mas presumo que já saiba de tal detalhe.

Não exatamente sabia porque o que tinha lido sobre ela eram coisas bem vagas e simples, no entanto resolvi não o interromper.

-Ela não sabia exatamente como fazia os raios, apenas a receita para criá-los. Vilões com o elemento da água não tinham a menor chance e ela aproveitava a vantagem do elemento do ar para vencer os de terra, que deveriam ser, supostamente, resistentes. Jacques foi uma das pessoas mais poderosas da Liga, não pela sua afinidade, que também era muito boa, mas pela sua singularidade. Não havia mais ninguém igual a ela nesse mundo, só que não é isso que é importante.

Voltou a olhar para mim, provavelmente com o primeiro olhar sério que demonstrava desde que começamos a nos falar.

-Ela tinha um poder que não conseguia sequer explicar como fazer, garoto. – fechou os punhos, provavelmente na intenção de demonstrar o que falava. – Ainda assim, ela o usava. Venceu batalhas sem entender, virou uma grande heroína sem ter a capacidade de detalhar sua própria habilidade. Foi isso que a fez desistir da carreira ainda nova e se dedicar à ciência. Tal dedicação nos permite ter energia elétrica hoje, permitindo coisas como essa simulação de existirem.
-Eu… não sabia de boa parte de tais detalhes.
-E sabe o que é o mais engraçado? Não só Jacques Tesla não é a única a ser assim, como praticamente toda habilidade singular surge de forma parecida. Alguém nasce com um poder que se destaca, sem saber como este funciona e muitas vezes morre ainda sem entender. Uma benção que, ao mesmo tempo, é uma espécie de maldição.

Mas por que maldição? Foi o que pensei em perguntar e não foi necessário. Ele mesmo se adiantou.

-Maldição não só porque muitos poderes desses geralmente são jogados no lixo depois que o usuário morre, já que é um ensinamento que não foi entendido enquanto este estava vivo, então imagine depois da sua morte. Nem preciso dizer sobre as vezes que vilões que nascem com tais poderes e… bem, se são vilões, pode imaginar que está implícito.

Seu olhar sério me fitava novamente após estar no chão branco há algum tempo.

-Nós suspeitamos que você tenha alguma espécie de singularidade. – completou.

Er… espera… quê? Como? Quando? Cuma? Aquilo foi comicamente súbito e tive até problemas em segurar a risada.

-Eu? – perguntei, ainda atônito. – Desculpa, Sr. Michel, mas… certo, eu entendo que não há nos registros ninguém que tenha congelado coisas ainda como bebê, só que…

Não me interrompeu, o que aumentou ainda mais a minha gaguejada.

-…no… no que isso iria ajudar? Meu poder tem uma otimização péssima e eu precisei treinar com Nara para tornar ele mais útil. No final das contas, só estou aqui porque tive que abandonar o congelamento. Não sou uma Jacques, que tinha o poder como sua principal arma. Meu poder é… inútil. Pelo menos no momento.

Talvez pareça estranho citar o nome de Nara para alguém que tinha conhecido ainda há pouco, mas considerando a pessoa que estava conversando, tinha a certeza que assimilaria facilmente o nome de uma de suas funcionárias mais destacáveis… ou pelo menos que eu imaginava que fosse destacável.

Percebi ele revirando seus olhos negros, demonstrando estar pensativo, o que causou uma leve hesitação de sua parte para responder. Aguardei pacientemente.

-Ninguém nasce com otimização do que sabe fazer, senhor Cardoso. – finalmente dizia, olhando novamente para mim. – É, talvez seu poder pareça inútil agora, mas já imaginou o que poderia fazer quando este se tornasse natural? Que tal uma vantagem extra contra alguém de elemento da terra, que não vai conseguir lidar com o gelo? Ou então a capacidade de derrubar alguém do elemento do ar do seu ponto de superioridade?

Bem, aquele último eu acabei fazendo, mesmo com um poder injustamente impulsionado da simulação, então entendia o que queria dizer. O caso é…

-…o gelo não me parece exatamente uma singularidade. – expressei o notado. – O senhor mesmo disse que houve outras pessoas que já demonstraram tal habilidade e, bem… eu já tenho um pouco mais do que doze anos.

Ele sorriu e pude notar uma leve expressão de orgulho.

-É refrescante não precisar explicar todos os detalhes minunciosamente, por uma vez. – respondeu. – Sim, eu não estou falando do seu poder congelante. Ele é bom e deve ser útil com algum treino, mas o que realmente me interessa aqui é o seu suposto “poder de criação” da simulação.

Ah, sobre isso…

-…eu não posso fazer o mesmo na vida real, senhor Michel. – aleguei.
-Não estou dizendo que possa, porém deixe-me dizer algo sobre essa simulação.

Ele se levantou, tão súbito quanto a minha descrição diz, quase como um pulo. Quando já estava de pé, fez rápidos movimentos, em que logo percebi serem exercícios de alongamento. Estes eram tão rápidos e desorganizados que provavelmente não cumpririam o seu propósito.

-Ah, como é bom ter um corpo jovem, mesmo que em um mundo de mentirinha. – e olhou para mim, sorrindo. – Bem, o que eu quero dizer, garoto, é que essa simulação é um programa, assim como um qualquer de computador. Toda espécie de programa, independente da sua periculosidade, precisa ser algo estável, otimizado e funcional e, mesmo assim, existe algo chamado “prova de falha”, que digamos ser um último recurso para quando nada disso funciona.

Eu entendia o que queria dizer, apesar de não saber onde queria chegar.

-Presumo que essa simulação tenha algo do tipo, também. – segui o pensamento.
-Sim. E, mesmo sem nenhuma ajuda, você conseguiu descobrir.

Hã?

-Eu… descobri? – perguntei, confuso.
-Essa é a única forma de chegar até a mim, com um acesso de administrador. Existem dois tipos de pessoas que têm tal acesso: eu e os programadores da simulação. Você não é um programador e, presumo, que não seja eu também, correto?
-Tá, mas… como eu fiz isso?

Ele deu de ombros.

-Não faço ideia. – afirmou. – Não tenho acesso a nenhum dado da simulação estando dentro dela e não posso me permitir sair dela por nenhum instante por temer que alguém possa aparecer.
-Desculpe, senhor Michel, mas… eu precisei andar horas para chegar aqui. Se o senhor saísse, mesmo que por alguns minutos, ainda não seria problema algum.
-Seria sim. O tempo na simulação se passa cem vezes mais lento do que na vida real. Mesmo se eu passasse dez segundos fora, seria o equivalente a quase vinte minutos aqui dentro e, digamos que eu precise de pouco mais de dez segundos para ver tais detalhes.

Oh.

-Espera… então isso significa que passou quanto tempo na vida real desde que a simulação começou?

Ele puxou um pequeno dispositivo do seu bolso, pouco menor que um celular, mas ainda maior do que um relógio.

-Pelo que diz aqui, esta simulação está ativa há cinco minutos e vinte e dois segundos.

E me mostrou o aparelho que dizia, em uma tela preta com números digitais brancos, os cinco minutos e vinte e dois segundos que passaram, acompanhado por mais dois números, que logo deduzi serem os centésimos de segundo. Eles aumentavam no mesmo ritmo que um segundo deveria aumentar e estavam na casa das sete dezenas.

-Isso é… incrível.

Foi o que consegui responder enquanto ele puxava de novo o aparelho e guardava no mesmo bolso que havia tirado.

-Se quer saber explicações técnicas da razão de você conseguir acompanhar esse tempo sem sua cabeça estourar, lamento dizer que não sou a pessoa mais apropriada para responder. – dizia, olhando sorrindo para o vazio do lago. – É incrível o quanto essas coisas parecem magia para quem não entende.

Acabei rindo com tal constatação porque aquela era uma representação perfeita do que eu mesmo estava pensando. Ah! Havia uma coisa que acabei lembrando depois daquilo.

-Em um momento, eu acabei sendo trazido para essa… parte, diria, da simulação, em que um gigantesco aviso dizia que houve um acesso não autorizado e a simulação seria finalizada em três minutos. Presumo que o tempo mais devagar seja a razão de ainda estarmos aqui?

Aquilo chamou a sua atenção e foi a primeira vez que pude vê-lo tão atônito.

-Gigantesco aviso de acesso não autorizado?
-Sim. – confirmei.

Ele colocou a mão direita no seu queixo, segurando-o com a divisão do dedão para o indicador.

-Provavelmente dizia do seu acesso, então. – concluiu. – O garoto não faz mesmo ideia de quando aconteceu?
-Não.
-Não houve nenhuma espécie de evento inesperado ou quem sabe alguma coisa fora do lugar?

Hah, sobre isso…

-Bem, tiveram várias coisas fora do lugar. – afirmei. – Incluindo quando vi o aviso e como cheguei aqui. Vi todos com como se fossem texturas corrompidas.
-Algo além, como uma sala que não deveria estar lá, ou quem sabe uma mensagem de erro aparecendo na sua frente?
-Nada disso.

Revirou os olhos mais uma vez.

-Isso é… estranho. – disse, ainda pensativo.

É, talvez seja mesmo, mas era difícil diferenciar estranho do normal na situação que estava aqui. Eu não tinha a mesma base do senhor Duvasse.

-Nada aconteceu muito diferente do que o guardião me disse…

Isso chamou a sua atenção de uma forma em que se sentou no chão com uma rapidez e força muito maior do que deveria.

-Você disse… “guardião”?
-Er… sim?
-E como era esse “guardião”?

Expliquei tudo sobre o clone de Nara que tinha me dado todas as instruções logo no início, incluindo a aparência, modo de agir e sobre as suas dicas. Ele parecia ter achado peculiar, no mínimo, porém esperou pacientemente a explicação… até uma parte dela, ao menos.

-…foi aí que ele me deu uma frase de segurança e dizia que deveria usar se quisesse desistir da prova, o que eu usei mais de uma vez e não fez…
-“Frase de segurança”? – perguntou, me interrompendo e com olhos bastante abertos. – Como era essa “frase de segurança”?
-Era o nome do colégio, Chikara no Kyoten. O que eu posso falar sem problemas agora, já que…

De forma absolutamente repentina, fui surpreendido pelo mesmo gigantesco aviso de que a simulação seria encerrada de antes e aparecia em frente ao lago. Não, não fui surpreendido e sim fomos surpreendidos. O senhor Duvasse levantou-se novamente, no susto.

Diferente da outra vez, não havia um barulho de sirene tocando ao fundo e logo percebi que os números não se moviam. O tempo mostrado era de vinte e cinco segundos, completamente parados. Não precisei de muita lógica para assimilar que aqueles eram segundos reais e não os da simulação.

Ele… caiu na gargalhada, de uma forma que até mesmo me assustou. Mesmo que esta tenha durado mais tempo do que o normal, ainda não conseguia entender a razão.

-Isso explica tudo. – disse, após finalmente parar de rir. – Certo, essa é uma novidade.

Não respondi nada, especialmente porque não respondia nada para mim. Quase tão súbito quanto sua gargalhada, ele olhava para mim agora com uma expressão séria e que não carregava nada do carisma que tanto me fez ficar à vontade.

-Posso ser sincero com você, garoto? – perguntou.
-Não… vejo porque não.

É, aquilo era para sair de forma bem mais suave. A sirene do aviso tocou, representando que um segundo real havia passado e o indicador reduziu para vinte e quatro.

-Algo que você já deve ter notado é que eu já parecia esperar por você e foi exatamente isso. – ele disse, ignorando completamente a sirene. – Pelas informações que recebi, havia uma grande chance de que você me descobrisse e descobrisse esse lugar. Se isso não acontecesse, nada a perder também. Não seria a primeira vez em que estaríamos errados sobre algo do tipo.

Sem nenhuma ordem ou parecido, resolvi levantar também, na intenção de que aquela conversa parecesse mais séria, quando pude confirmar que o senhor Duvasse era um pouco mais alto que eu, mas não muito mais do que uns dez centímetros. Não questionou e voltou a falar como se nada tivesse acontecido.

-Mas fico aliviado por estarmos certos e, a partir daqui, quero que também seja sincero comigo e, por favor, não entenda mal o que vou falar.

Aproveitei que estava olhando para mim e respondi simplesmente assentindo.

-Muitos chamariam de fraqueza admitir isso, – prosseguiu. – no entanto, a verdade é uma só, senhor Cardoso: a Liga não está nos seus melhores dias. Nossa aprovação com o público despencou nos últimos anos e isso se converteu em abandono de contratos. Pela última informação que recebi, vinte e dois países cancelaram o vínculo conosco, oficialmente.
-“Cancelar o vínculo” significa que tais países se recusaram a ter ajuda da Liga?
-Isso e também no aspecto financeiro. Significa que não receberemos mais créditos de tais países e nem mesmo a Liga vive de luz, mas além disso…

Virava-se para frente e fitava o lago dessa vez, colocando os braços nas suas costas. Percebi, com um leve olhar, que abraçava suas mãos.

-…depois de quase dois séculos de paz, estamos próximos de uma guerra.
-Guerra? – perguntei. – Contra quem?

Ele suspirou.

-A tríplice aliança.
-Os hipos?

Ele deu um leve sorriso de canto de boca.

-Mais uma vez, surpreso que eu não precise explicar todos os detalhes. – respondeu. – Eu não os chamaria por algo tão pejorativo assim, porém. Principalmente em público.
-Ah… desculpe.
-Não precisa se desculpar. Provavelmente usaria o mesmo termo se não estivesse na posição que estou, mas sabendo o que sei. De qualquer forma, a situação não é das melhores e ainda conseguimos segurar todo o pessoal, mesmo sem saber até quando.

O que mais havia na minha cabeça eram perguntas e nem mesmo a sirene do contador era o suficiente para impedir elas de repetirem na minha cabeça.

“Hipos” era um diminutivo para hipoimperium que, como o próprio nome dizia, era o oposto de hiperimperium. Tá, indo por termos técnicos, não era exatamente isso, entretanto era a forma mais fácil de diferenciar. Uma pessoa com hipoimperium era alguém que nascia com seus poderes praticamente nulos ou quase nulos, se tornando, na prática, alguém sem poderes.

Havia uma história bem longa por trás do que o senhor Duvasse dizia, mas a “tríplice aliança” se referia a três países no noroeste do planeta e todos esses países eram formados quase que exclusivamente por pessoas com hipoimperium. Assim como se diferenciavam do resto do mundo, costumavam se isolar também e pouco se sabia sobre eles. Alguns diziam que eram civilizações atrasadas, em que “não conseguiam se virar sequer com aquecimento e água encanada” e o inverso também era boato por outros, em que nenhum dos dois lados conseguia confirmar de fato ou ter sustentações para suas respectivas hipóteses.

Sabendo disso, era exatamente o que me deixava encucado naquele momento. De todos que eu imaginava com uma intriga com a Liga, definitivamente a tríplice estaria no final da lista, exatamente pelas… limitações técnicas. Eu não duvidava do que o senhor Duvasse dizia para mim, apenas nada fazia sentido em nenhum dos pontos de vista existentes.

-A razão da sua amiga estar conosco, faz parte de tal protocolo. – dizia, interrompendo meus pensamentos. – Geralmente não aceitamos adolescentes no nosso grupo, mas precisamos de toda a força disponível possível.
-Entendo.
-Se estivermos certos sobre você, senhor Cardoso, você seria uma ótima adição à Liga também, com as suspeitas confirmadas.

Aquela deveria ser uma notícia que eu deveria estar esperando e nervoso para receber. Parecia que foi anos atrás, mas, há algumas horas, eu fugia de nervoso quando Nara comentava daquele assunto comigo e era diferente agora. Não sentia nada relacionado à ansiedade no momento, talvez por ter sido preparado com uma certa antecedência, mas não apenas isso.

-Você disse que queria ser sincero comigo e me pediu sinceridade, senhor Michel. – o lembrei de tal detalhe. – Então por que está omitindo coisas?

O senhor Duvasse não demonstrou nenhuma reação de início, agindo quase como se não tivesse escutado. Não demorou muito para suspirar e então desviar seu olhar para o lago novamente, ainda respirando com uma força muito maior do que deveria.

-É… é o que pago por insistir em métodos simplórios contra um perspicaz.

Não respondi, especialmente porque estava bem claro que tinha muito o que falar. Virou-se para mim de uma vez e aproveitei para ajeitar meu corpo para fazer o mesmo do seu lado oposto. Não desviei em nenhum momento o meu olhar e o presidente da Liga fez o mesmo.

-Senhor Cardoso, o que eu irei lhe contar agora talvez não lhe agrade. – falava, com um ritmo bem mais lento do que tinha feito até então. – Tem certeza que quer que eu continue?
-Sim.

Minha resposta foi rápida e direta. Apesar disso, a sua hesitação continuava lá e isso me era curioso. O quão terrível era o que tinha para falar? Digo, eu até estou ansioso para saber o que me faz tão “especial” de uma vez.

-A ordem partiu diretamente de mim. – voltou a dizer, ainda no mesmo ritmo. – A ordem de que Ennetsu se aproximasse de você.

…hã?

-Inicialmente o David foi contra. – prosseguiu. – Não só porque não queria envolvê-la nisso, mas também por achar que ela não conseguiria dar conta do recado. Não é como se a garota fosse a melhor de todas em iniciar conversas, sabe? A senhorita Ennetsu é boa em muitas coisas e iniciar um relacionamento não é uma dessas coisas.
-Espera, senhor Michel, o que…
-Felizmente deu tudo certo. – me interrompeu, me ignorando completamente. – Coincidentemente você acabou dando uma razão para que ela agisse logo no primeiro dia e você mesmo dizia que era seu objetivo encontrá-la em primeiro lugar. É quase como se vocês estivessem destinados a se darem bem, mesmo que eu não acredite em destino.

-Se não fosse por isso, garanto que você nunca conseguiria começar um relacionamento com a Ennetsu, principalmente pela natureza da mesma. – continuou. – Assim como nós nunca conseguiríamos algum motivo para testarmos seus poderes e então descobrirmos que sim, talvez você seja o que estávamos procurando.

Ele parecia ter terminado de dizer o que queria dizer e estava na espera de minha reação. Esta não veio, pelo menos não instantaneamente. Poderia passar a minha vida toda tentando descrever o que se passava na minha mente agora e ainda não seria tempo o suficiente para realizar tal ato da forma apropriada.

Isso significa que… Nara foi ordenada para que começasse a falar comigo? Se isso é verdade, então… nada disso foi real? Nada disso foi real?

Nunca houve uma amizade entre nós? Ela nunca agiria daquela forma naturalmente? Em uma situação que eu não fosse objeto de estudo da Liga, seria apenas mais um dos ignorados pela garota do fogo?

Aquilo… aquilo explicava tantas coisas que me aterrorizava. Outros colegas dizendo que “Nara nunca foi assim” ou “Nara está apaixonada por você, não percebe? Ela nunca agiria assim se não fosse o caso”… tudo faz todo o sentido quando você põe na conta que não passou de um mero trabalho. Ela nunca tinha agido assim exatamente porque ela não era assim.

Foi tudo uma farsa.
Foi tudo fabricado.
Foi tudo tão real quanto as duas primeiras fases dessa simulação.

Eu… eu não faço a menor ideia de como reagir a isso. Eu sei que o senhor Duvasse deve estar esperando por uma resposta minha agora, mas sequer consigo olhar para sua cara mais. Como eu poderia? Eu… não sei.

Eu não sei.

-Senhor Cardoso? Está tudo bem?

Não. Não está, mas principalmente… eu não sou assim. Não sou de receber essas notícias e simplesmente quebrar. Eu sou o cara que responde, que finge que nada aconteceu, que sai por cima. Não importa o nível do baque
…eu vou sair por cima.

-Parece que meu charme não foi tão bom assim, então?

Fiquei um momento em dúvida se acompanhava o que falei com uma risada, mesmo uma leve e desisti após concluir que havia uma enorme chance que tal riso viesse acompanhado de nervosismo. Olhar para o senhor Duvasse em tal situação era uma tarefa difícil, porém… tem que ser feita. Vai ser feita.

Ele precisou de um tempo para absorver o que falei e provavelmente não esperava que aquela fosse minha resposta. Seu riso comprovou isso.

-Não leve a mal, garoto. – disse, sorrindo. – Considerando quem a Ennetsu é, eu me pergunto é quem teria a capacidade de ter um charme funcional.

É mesmo?

-Além do mais, o que importa é que deu tudo certo. – avançou. – O relacionamento deu certo e o garoto revelou-se alguém dentro das nossas expectativas. Sobre isso e cumprindo o que prometi…

O presidente da Liga deu uma leve pausa enquanto colocava a mão direita dentro do bolso da calça de mesmo lado. Não houve suspiro naquela vez, apenas uma leve pausa e que logo terminou.

-…o que David percebeu é que seu método de pensar é diferente de tudo que já vimos, senhor Cardoso. Você sempre pensa na solução mais difícil, mesmo para os problemas mais simples. É algo que nunca vimos nada igual e talvez justifique até mesmo o seu poder.

Espera, mas…

-…e é isso? – perguntei.
-Até o momento, sim, é isso.

Bem, aquilo era… anticlimático, no mínimo. Me deixava ainda mais confuso se eu deveria ficar puto ou decepcionado e ele parece ter notado.

-Ah! – se adiantou. – Não quero dizer que é algo irrelevante, sabe? Muito pelo contrário, na verdade. Existe toda uma explicação técnica aqui, mas falando em um resumo rápido: isso provavelmente justifica como você assumiu o controle da simulação, porque foi assim que ela foi programada.

Er…

-Como assim? – questionei.
-Essa simulação foi feita para que não pudesse ser domada por mentes comuns, em que estas seriam meramente participantes. Talvez seja por isso que houve um “guardião” que lhe deu o acesso de bandeja, quase que atendendo o seu pedido.
-Eu queria controlar a simulação? É isso que o senhor quer dizer?

Seu sorriso aumentou.

-Talvez não controlar, mas ficou aflito por estar em um lugar desconhecido e, por conta disso, foi presenteado com uma válvula de escape. É difícil afirmar qualquer coisa com absoluta certeza sem analisar os dados.
-E isso significa…
-Significa que você tem uma avançadíssima força mental, uma arma extremamente poderosa contra a maior parte dos vilões e supervilões.

-Mas, ei! – se adiantou. – Isso é tudo uma teoria. É bem provável que muito do que falei tenha sido tirado diretamente da bunda, me perdoe o palavreado.

Sua atitude mudou bruscamente, assim como já havia mudado desde o início de nossas conversas. Mesmo sem conhecê-lo direito, eu tinha a impressão de que aquela não era a sua personalidade de verdade, quase como se estivesse… feliz. Feliz por ter me conhecido? Feliz por saber que tem uma nova pessoa à disposição do seu quartel? Não sei dizer e nem consigo afirmar se me importo.

Olhei para o gigantesco aviso que sim, ainda estava lá. Agora indicava dezessete segundos restantes, o que significa que já havia me acostumado aos barulhos o suficiente para ignorar todas as últimas sirenes. Fazendo um cálculo rápido, percebi que ainda tinha pouco menos de meia hora em “tempos de simulação” sobrando, o que era irrelevante.

Não havia mais motivos para ficar aqui; não depois de tudo que já tinha ouvido.

-Então, senhor Michel…

Suas ações serelepes se transformaram em uma curiosidade.

-Sim?
-O senhor deve estar querendo saber minha decisão, certo?
-Sobre?
-Se aceito entrar na Liga ou não.

Por algum motivo, ele hesitou um pouco antes de responder.

-Ah, sobre isso… a verdade é que você terá uma semana cheia, senhor Cardoso.
-Semana cheia?
-Sim. – confirmou, enquanto cruzava os braços. – Provavelmente você ainda não sabe, mas David White está viajando para Yukopan nesse exato momento. Como você não me perguntou nada quando falei o seu nome e também já me conhecia antes, assumo que saiba quem ele é.

Assenti.

-David deve permanecer em Yukopan até o final do festival escolar do Chikara no Kyoten. – prosseguiu. – Vocês terão muito o que conversar e então o garoto pode tomar sua decisão depois de todos esses dias.

Até antes de dizer aquilo, minha resposta estava na ponta da língua; estava prestes a dizer um sonoro e direto “não”, como uma defesa ao amor próprio, ou alguma besteira parecida. A impressão que tive é que o senhor Duvasse já esperava que fosse exatamente esta resposta, ainda mais depois das revelações que deu e então usou um “contra-ataque” que envolvia o senhor White para me confundir.

Aquilo me assustava. Claro que poderia ter sido uma jogada de sorte, porém não apostaria nisso. Ele me conhecia e me observava, há sei lá quanto tempo. É bem provável que o senhor White seja a mesma situação e sobre ele estar aqui amanhã… na boa? Eu tenho preocupações mais importantes.

Ainda assim, algo me dizia que eu deveria dar o benefício da dúvida.

-Devo… dizer a resposta para o senhor White, então?

Ele sorriu.

-Sim, por favor.
-Então… posso ir?
-A decisão é sua. O aviso da frente é puramente protocolar. Ficar até o final da simulação não vai lhe matar ou parecido, não se preocupe.

Tinha me descuidado tanto que até esqueci de perguntar por aquilo. Fiquei um pouco mais aliviado ao ouvir tais palavras ditas com confiança e certeza, apesar de todos os pesares.

-Feliz de ouvir isso. – confirmei. – Como eu saio daqui agora?

No mesmo instante em que terminei minha pergunta, ouvi um grande estrondo à minha direita. Levei algum tempo para perceber que uma ponte estava sendo formada, pedaço por pedaço de madeira, porém em alta velocidade, ficando pronta em meros segundos. Se ainda havia alguma dúvida de que eu não estava na vida real, aquela certamente fechava o caixão.

Senhor Duvasse aumentou o sorriso quando olhei em sua direção.

-Basta atravessar a ponte. – disse. – Ao chegar do outro lado, você acordará automaticamente.

Oh.

-Conveniente. – apontei.

Seu sorriso agora vinha acompanhado dos olhos fechados, demonstrando enorme receptividade, quase como se não tivesse feito meu mundo cair momentos antes.

-Não acha mesmo que colocaríamos apenas uma “prova contra falhas”, não é?

Não respondi, apenas me virei e comecei a me aproximar em passos lentos do lago a nossa frente, em que ele parecia ainda maior visto de tão perto. Nenhum sinal da carpa ou de qualquer espécie de vida presente dentro dele. Ainda assim me sentia aliviado por não precisar nadar até o outro lado.

No primeiro passo na ponte, percebi que ela era muito mais firme do que a imagem fazia passar, simulando uma que deveria ser de pedra. A madeira não rangia e sequer se movia, dando a impressão de que era uma ponte rochosa desde o início, só que com uma textura de madeira impressa nela.

-Até breve, garoto.

Quando olhei para trás, vi o senhor Duvasse se despedindo com uma das mãos abanando no ar. Não retribuí da mesma forma, apenas balancei positivamente a minha cabeça, simbolizando um silencioso “até”.

Finalmente, não havia mais motivos para segurar aquela imagem e começava a desabar. Não literalmente, claro, mas ao pensar no que me foi revelado. Suava frio ao perceber que não tinha a mínima ideia do que fazer após sair daqui. Uma parte minha dizia que ele mentiu para mim, como uma tentativa de me convencer mais facilmente e não demorava para que a outra parte dissesse que aquele pensamento era imbecil. Não havia motivo nenhum para ele mentir para mim, não se sua intenção fosse que eu entrasse na Liga. Além do mais, se fosse mentir, ele nunca revelaria o ponto sobre Nara, já que não ajuda em absolutamente nada eu estar ciente de tais informações.

Como lidar com essa verdade agora? A enfrentaria e tentaria arrancar uma assumpção de sua parte? Largaria tudo de mão de uma vez e seguiria com minha vida escolar até me formar, ignorando todos esses meses que, apesar das dificuldades, foram quase que completos momentos de sonhando acordado?

Com mais perguntas do que respostas, alcancei o outro lado do lago rapidamente e logo já estava pisando no enorme branco novamente.

Não houve sequer tempo de questionar o quanto mais eu precisaria andar. Mais uma sirene e tudo escureceu.


Primeiro – 11/15/612 – 15:17 (horário real)
Última sala à direita do salão ao lado do estádio do Chikara no Kyoten

Havia todas as razões para que eu pudesse achar que a simulação havia me levado de novo para mais uma camada ainda mais densa do programa, mas era diferente dessa vez. O mundo parecia mais vivo, mais barulhento e, ao mesmo tempo, com um silêncio bastante natural. Nada parecia ecoar daquela vez, o que fazia todo sentido na situação em que estava.

Ouvi alguns barulhos de metais se movendo, em que imaginei que fossem as “proteções” que foram colocadas ao começar a simulação. Após isso, os óculos foram levantados com um barulho… futurístico e me deparei com uma sala cheia daquela vez. Sasaki estava lá e olhando para o seu tablet. Os barulhos parecem ter chamado sua atenção e teve uma leve surpresa ao me ver. Colocou o aparelho em cima da sua mesa e veio em minha direção, curiosa.

Não comentou absolutamente nada quando chegou do meu lado. Por um instante apenas me analisou e então analisou a máquina do meu lado em que, diferente das outras falsas acordadas, o monitor não estava virado para mim. Ela pegou os seus óculos do seu bolso e começou a ler seja lá o que havia na tela. Alguns segundos depois, me fitou, dando a impressão que esperava alguma reação de minha parte.

-Foi rápido.

E foi tudo que disse. Nada de me elogiar, demonstrar surpresa ou algum comentário sobre o show que queria assistir. Eram só aquelas duas palavras jogadas ao vento e pronto. Eu também estaria mentindo se dissesse que me importava.

-Posso ir? – perguntei.

Parecia que ia responder, até ser surpreendida por todos na sala acordando ao mesmo tempo. Depois de todas as informações adquiridas na simulação, eu já estava na espera de que aquilo acontecesse e nem pulei.

-É… vá, porque você tem um dia cheio amanhã.

Logo perto do final da frase já não estava nem me dando atenção e atendia o aluno mais próximo de mim ou, pelo menos, se focou nas informações em seu monitor. Após ler com uma velocidade bem maior do que foi comigo, virou seu olhar para mim, levemente boquiaberta. Diferente do esperado, não fez nenhum comentário e foi em direção ao outro aluno mais próximo.

Em situações normais, é certeza que a interromperia apenas para garantir que com o “vá” e “você tem um dia cheio amanhã” ela queria dizer que não haveriam mais provas e que eu deveria ir embora. Talvez indicasse também que eu estava classificado, mas seria uma mentira se dissesse estar feliz.

Saí da sala em silêncio e com passos lentos. Os mais diversos barulhos eram ouvidos ao redor, incluindo pessoas assustadas, confusas e até mesmo algumas vozes de choro. A minha atenção estava em outro lugar completamente diferente, diretamente no peito. Sentia um aperto, uma pressão que ia além de incomodar e que não tinha nada a ver com um ataque cardíaco.

Toda aquela ação gentil, me defender no meu primeiro contato com a bully que acabou virando minha amiga, toda aquela vez na sorveteria… tentar salvar minha pele com o diretor, algo que ela mesma fez questão de frisar hoje… o meu treino para esse torneio e… hoje. Hoje estava incluído também?

Até onde era mentira? Até onde era fabricado? Havia sequer alguma parte real? O nosso “encontro” animado de hoje também foram ordens superiores?

Todos os momentos passavam voando na minha cabeça. Tudo que passamos juntos, o seu sorriso educado… diabos, ela disse que éramos amigos. Amigos! Isso também foi ordenado pelo senhor Duvasse?

Não era só a decepção, era… o que eu vou fazer agora? O que diabos eu vou fazer agora?

Todos esses dias foram maravilhosos, apesar das desavenças, apesar da Misaho misahando. Nós tínhamos um grupo formado, de verdade, em que… eu não sei se vai continuar. Além do mais, Himari? Será que eu deveria confiar nela? Será que Makoto não é alguém disfarçado também? A baixinha também está envolvida nisso? Pensando bem… e Misaho? Nem sequer na Misaho eu posso confiar. Eu já não confiava, de certo, mas… em outro sentido também!

Em quem… em quem eu deveria confiar agora?

Sentir saudades de casa não foi um sentimento incomum em nenhum desses meses e bem, é normal; sempre fui uma pessoa bastante caseira e só fui sair da minha bolha recentemente. Por muito tempo achei que vir para cá tinha sido uma excelente escolha, apesar dos pesares. Estudava em uma excelente escola, com uma excelente companhia e seguia para um futuro que muitos sentiriam inveja… e agora?

Eu… eu não quero me sentir paranoico, principalmente que é quando as paranoias começam que minha condição fica pior, mas saber disso nunca me ajudou e também não deve ajudar agora. Preciso conversar com alguém, com alguém que eu possa confiar.

Ainda estávamos de tarde, o que significava meio da madrugada em Torugal do Sul e, além do mais, meus pais trabalham amanhã, assim como minha irmã estuda amanhã. Mesmo que me atendam, eles não vão poder falar muito tempo. Começar a conversa com “e aí, família! Sei que vocês não têm muito tempo, então vou direto para o assunto: descobri que toda minha vida aqui era uma mentira” definitivamente é uma das piores aproximações possíveis.

O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?

A dor no peito se intensificava cada vez mais. Não, isso não é bom, eu… eu não sentia isso há muito tempo e o que mais temia era sentir isso aqui. Droga… agora não. Agora não!

-N-novato?

Até aquele instante não tinha nem mesmo percebido que estava olhando para baixo o tempo todo. Levantei minha cabeça para dar de cara com a Akemi. O salão ao nosso redor parecia bastante movimentado e perceber aqueles detalhes estava, ironicamente, ajudando. Aos poucos eu conseguia voltar a respirar, apesar da dor no peito ainda permanecer e eu sabia que ainda me acompanharia por um tempo.

-Ak…

Não consegui terminar nem mesmo o seu nome, sendo interrompido por uma voz ecoando ao redor.

Parabéns a todos que participaram da etapa três da classificação! Diferente das outras edições, teremos que interromper as atividades por agora e estas serão retornadas amanhã. Espero que entendam e esperamos ver todos vocês amanhã. Tenham um bom fim de tarde.

Desligou. A voz era novamente do professor Ootsuka, como todos os outros anúncios, só que… havia algo de diferente aqui. Ele não parecia animado ou fazendo piadinhas. Mesmo no que acabara de anunciar, o tom começou artificialmente animado e terminou depressa, em que nem mesmo a artificialidade estava lá mais.

O que falou foi o suficiente para causar reações de vários ao meu redor.

-O quê?
-Como assim “esperamos ver todos vocês amanhã”? E a classificação?
-Interromper? O que está acontecendo?

Pelo visto era para haver algum desfecho hoje, então…

-Baixinha, isso é normal?

Minha voz ainda estava um pouco trêmula e esperava que não percebesse. Tal preocupação cessou no primeiro momento que a analisei.

Ela parecia… assustada. Claramente piscava mais do que o normal e respirava com muito mais força do que precisava. Seu punho direito estava fechado e em cima do lado esquerdo do seu peito, enquanto a mão esquerda estava jogada e sem apoio. Isso significa que… ela sequer tem isso? Em nenhum momento Akemi registrou nada perto de ansiedade e, muito menos, em um nível parecido com a minha. Então por que ela estava agindo assim?

-Baixinha? – insisti na pergunta. – Você tá bem?

Mesmo depois de ser apressada para responder, ainda hesitou bastante para reagir.

-A…

Fechou os olhos com uma força muito maior do que o normal, se interrompendo.

-…a gente se vê amanhã.

Após falar aquilo com um tom muito abaixo do seu normal, passou do meu lado, andando em passos rápidos.

O que… o que houve com ela? Gritei pelo seu nome, mas foi em vão, estava muito longe para que pudesse ouvir com todo aquele barulho ao redor. Pensei em até correr em sua direção, até perceber que ela parecia que não queria se bater comigo. Estou imaginando coisas?

-Pedro.

Depois de tudo que passei e vivi por todo esse tempo em Yukopan, nunca imaginaria que aquela voz grave seria exatamente a que eu não queria ouvir. Pelo menos não agora… não, não hoje. Talvez por mais tempo ainda.

Nara estava atrás de mim e esperou pacientemente que eu virasse em sua direção. Diferente do seu costumeiro sorriso, ela parecia… tensa. Era difícil se basear em tais leituras, porém, principalmente depois do que tinha descoberto.

-Ei.

Falei da forma mais animada que eu pude, me surpreendendo a cada segundo por estar conseguindo me segurar. Ela não sorriu ou respondeu, ainda permanecendo no mesmo semblante. Demorou tanto que estava prestes a perguntar qual era o problema.

-Você saiu correndo quando eu ia te falar… – finalmente começou. – eu queria te dizer algo.

Aquela frase confirmava cem por cento a suspeita sobre a simulação envolver todo mundo, pelo menos na última parte. Em outra ocasião, certamente eu pensaria em sair correndo de novo, mas meu nervosismo tinha sido substituído por outra coisa.

-Pode falar. – falei, seco.

Havia alguma coisa errada. A sua tensão eu já havia percebido logo de início e agora ela forçava a desviar o olhar, quase como se estivesse temendo algo de minha parte. Mesmo após a minha autorização, ela ainda hesitou bastante para responder.

-O David, ele… ele vai estar aqui amanhã. – e continuava sem olhar para mim.
-Oh.

Digo, nem havia como eu estar surpreso mais, ainda mais depois de receber a notícia diretamente do senhor Duvasse. Ela deu mais uma longa pausa, até finalmente virar seus olhos em minha direção e naquele momento foi quando eu percebi mais detalhes.

-Deveria ter te avisado antes, – voltou a dizer – eu sei, mas eu temia que você desistisse do torneio se soubesse disso antes. Eu lhe conheço, sei que você vai pensar em mais possibilidades do que deveria.

Não era a mesma reação da baixinha, porém era uma variação da mesma. Nara respirava com mais força do que o normal e tentava esconder tal detalhe o máximo que podia. Seu semblante praticamente gritava “vamos terminar isso de uma vez”, simplesmente porque sua cabeça estava em outro lugar, com alguma preocupação mais importante do que o que tanto queria me dizer. A maior confirmação disso é que eu fui longe de ser convincente, mas ela não comentou absolutamente nada.

Eu poderia fingir surpresa, questioná-la sobre muitas coisas, como geralmente faço e então ouvir algum sermão de sua parte pelo meu comportamento… não. Não dessa vez. Não faço a menor ideia da razão de estar se comportando assim e em qualquer outra situação eu me importaria com isso, mas não naquele momento.

Apenas assenti em silêncio, outra ação que não questionou.

-Só me deixe… adicionar mais uma coisa. – prosseguiu. – David é, de longe, a pessoa mais importante que já passou na minha vida. Não estaria aqui se não fosse por ele, não seria quem sou hoje sem a ajuda dele. E é por isso mesmo que eu posso falar…

Ela engoliu a seco e não tive nem mesmo tempo para pensar no assunto. Apesar disso, voltou bem rápido dessa vez.

-…David White é provavelmente o maior manipulador que eu já conheci.

Er… o quê?

-Ele vai tentar te convencer de algo que ele quer que você faça, usando a justificativa que você quem quer. Mesmo sabendo desse detalhe, você vai baixar a sua guarda no momento que menos espera e então ele vai notar e agir para cumprir seu próprio objetivo.

Suas palavras eram… raivosas. Desde que conheci Nara, nunca a tinha visto com tamanha raiva assim. Ela já esteve frustrada ou levemente nervosa, principalmente por ações minhas, mas… aquilo não era um simples nervosismo, era a pura ira, representada em palavras eloquentes e rápidas.

Fazia algum tempo que a intimidação dela não tinha o mesmo efeito de antes, talvez pelo avanço da nossa amizade… é, mesmo sendo convencido do oposto, ainda tentava acreditar nisso. O ponto é: naquela vez, eu me senti assustado. O fato de vir acompanhado pela pseudo-bipolaridade só deixava tudo ainda pior.

Ela fechou os olhos e suspirou. Quando finalmente os abriu, parecia mais calma, apesar de ainda em um nível de tensão muito além do seu normal.

-Não cometa o mesmo erro que cometi.

E mais uma pausa seguida de uma respiração forte.

-Se você não quer seguir por essa vida, não deixe de dizer “não”. Pense bem antes de tomar qualquer decisão e não leve isso adiante só por não querer me ofender ou decepcionar. Não sou eu ou ele quem deve decidir por você. Certo?

A sua aflição foi substituída foi substituída por uma estranha serenidade. Seja lá o que foi aquilo, ela se sentia aliviada de ter posto tudo para fora.

Eu… eu não sei mais como me sentir. Há poucos momentos estava quase tendo uma crise e agora… eu não quero enfrentá-la.

Eu quero acreditar que pelo menos uma parte disso foi real.
Eu quero acreditar que aquela Nara é a real, não um pau mandado do senhor Duvasse.
Eu quero acreditar que algo rolou entre nós, que algo pode ter sido aproveitado, que nem tudo foi fruto de ordens de um superior.

Sorri. Aquele não era o momento de confrontá-la, era o momento de lhe dar suporte.

-Certo. – concordei.

Ela tentou sorrir também, parando no meio do caminho. A sua angústia estava de volta, seja lá qual era a razão desta. Houve mais um detalhe que percebi também: suas mãos tremiam, sem parar. As mãos de Nara Ennetsu tremiam sem parar.

-Bem, então… até amanhã.

Ela se virou depressa e estava começando a seguir caminho pelo lado oposto da baixinha. Por uma ação puramente instintiva, segurei o seu antebraço direito, o que a fez parar na mesma hora. Não estava imaginando coisas: ela realmente tremia e até a sua temperatura parecia mais baixa.

De início não tentou puxar seu braço e me deu tempo para perguntar.

-Nara, você… você tá bem?

Não houve resposta instantânea e ainda continuei segurando o seu braço por algum tempo. Finalmente o puxou e parou, ainda de costas.

-Não é nada que você possa resolver.

E essa foi sua resposta, antes de voltar a andar a passos longos e rápidos. Não olhou para trás, me deixando sozinho de uma vez.

Pensei em ir na sua direção e tentar entender exatamente o que tinha acontecido agora; fui impedido pelo meu próprio orgulho. Talvez algo de muito errado tivesse acontecido com ela, só que aconteceu o mesmo comigo hoje.

Ir atrás dela não vai resolver nada. Não agora, não hoje. Da mesma forma que ela estava querendo ficar sozinha, a verdade é que eu estava também.

Me virei e segui pelo lado oposto. Só queria ir para casa.


Primeiro – 11/15/612 – 22:08
Quarto de Pedro

Foi uma péssima ideia ter deitado tão cedo. Havia acordado há uns quinze minutos e agora tudo que fazia era rolar para um lado e para o outro. Nenhuma posição parecia confortável e tinha sinceras dúvidas se ainda dormiria por algum minuto sequer naquela noite.

Falando em noite, dessa vez a lua não brilhava no meu quarto. As nuvens brancas tomavam conta do céu escuro, provavelmente indicando chuva. Por mais que eu adorasse o barulho da chuva caindo do lado de fora, a ideia de passar a madrugada ouvindo a queda constante das gotas e sem sono me parecia terrível.

Levantei. Precisava comer alguma coisa e passar no banheiro. Até gostava do frio, mas ainda odiava o quanto precisava mijar mais do que o necessário. Praticamente todas as últimas noites contavam com duas a três idas sonolentas ao banheiro e que provavelmente só jogavam a qualidade do meu sono ladeira abaixo. Nem mesmo fechar a janela tinha resolvido isso; o aquecedor funcionava, mas a sensação de ossos congelando ainda permanecia.

Além de tudo isso, havia um detalhe a mais que nem precisava comentar.

Não sou exatamente a melhor pessoa para madrugar, principalmente por nunca ter feito isso. O que mais tinha no meu antigo colégio eram amigos que tanto diziam que conseguiam ficar acordados até mais tarde. Alguns diziam que chegaram até seis da manhã, enquanto outros falavam que tinham capotado quando o sol estava nascendo. Claro que haviam os mentirosos que tanto diziam que passavam dois dias acordados ou algo do tipo e se aproveitavam que não havia como provar. No meu caso, nunca consegui ir muito além de duas horas da madrugada, nem de perto para vencer a virada de noite.

Bem, parece que para tudo tem uma primeira vez, afinal.

Peguei uma lasanha no congelador e li as instruções de como preparar no micro-ondas. Quinze minutos? Quinze? Comprei essa porcaria porque parecia estar com uma ótima aparência e claro que me decepcionei quando abri a embalagem. De certo, tinha mais gelo do que lasanha a vista, mas isso, por si só, já era um péssimo sinal, mesmo que eu nada soubesse de lasanha congelada. Eh, não tem jeito, apenas meti lá dentro e digitei os números no teclado. Agora seria esperar enquanto batia o pé, furiosamente.

Imagino se Nara tem problemas em esquentar sua própria comida. Digo, ela vive sozinha, então não duvidaria que já tivesse feito os mais diversos testes. Por exemplo: “e se eu esquentasse esse sanduíche aqui com meu poder máximo por dois segundos? Será que seria melhor do que usar menos poder, mas por dois minutos?”. Era engraçado de imaginar e bem que eu podia perguntar a ela…

Eu já esqueci tudo que aconteceu tão rápido assim? Argh, o que há de errado comigo, afinal? Horas atrás eu estava quase tendo uma crise de pânico e agora ajo como se nada tivesse acontecido?

Ao mesmo tempo… eu ainda não sabia o que fazer. Não sei como vou lidar com isso nos próximos tempos. Apenas me afasto dela, como fiz, mesmo que sem querer, depois daquele evento primordial do início do ano letivo? Se fosse lhe confrontar, ela simplesmente negaria? Como sequer começar tal conversa? Eu prometi ver o show lá que ela tanto gosta, aquele com o… olinguito. Mesmo com o dia mais longo da minha vida, eu ainda não tinha esquecido.

Eu não sei o que fazer e eu odiava me sentir assim. Geralmente havia uma fórmula bonitinha que eu poderia seguir na intenção de alcançar o melhor resultado possível, porém como você lida com… isso? Parecia que pensar só tornava as coisas ainda piores.

Peguei o celular que havia largado em cima do balcão da cozinha, provavelmente desde que cheguei. Haviam notificações e que não passavam de grupos de amigos sul-torugueses ou de correios eletrônicos. Abri as mensagens e o programa de conversas que usava para falar com meus colegas daqui. Nenhuma mensagem da baixinha e nenhuma mensagem da Nara. A “última vez” que a última estava online também me surpreendeu: 15:05. Isso foi… antes da terceira prova.

Apesar de tudo, era difícil simplesmente desligar a empatia. Não era assim que funcionava. Eu… eu deveria mandar uma mensagem para as duas, principalmente Akemi, em que nem sei exatamente o que deu nela. Mesmo que não quisesse me responder, por qualquer razão, ela tinha a opção de fazer isso no dia seguinte e o mesmo vale para Na-

O… o que foi isso?

Um estrondo poderoso causou um razoável terremoto no meu apartamento e que logo passou. Sim, foi rápido o suficiente para que não desse tempo nem de me desesperar. As janelas tremeram logo em seguida, causando uma reverberação tão forte que achei que fossem quebrar. A energia deu uma variação, voltando logo em seguida, mas reiniciando o micro-ondas no processo. Agora apenas zeros eram mostrados na tela.

Um clarão me chamou atenção no momento que olhava para o vidro do micro-ondas e, quando me virei, pude ver a explosão ao fundo. Não era muito forte e logo esvaeceu, mas pude ter um relance de onde veio: era das montanhas mais próximas da cidade de Atarashi.

Por quê… por que esse aperto no peito?

Era difícil de explicar, mas… eu sentia que aquilo era importante e que também envolvia uma pessoa importante, apesar dos pesares. Não foi uma explosão normal, especialmente porque não havia nada além das ruínas da “velha” Atarashi por lá. Definitivamente não iria explodir coisas aleatoriamente naquela região. Havia grandes chances que, na verdade, aquilo fosse resultado de uma batalha entre alguém e usando grandes poderes no processo. Pela explosão… era de grandes chances que envolvesse Nara.

Peguei meu casaco que estava em cima do sofá e vesti o mais depressa que pude. Eu não faço a menor ideia de como poderia ajudar, mas… duas pessoas são melhores do que uma, certo? E, vai saber, vai que ela realmente esteja em apuros. No nosso colégio, nunca é além de um passeio no parque, no entanto… e se ela estivesse enfrentando um vilão?

Não, Nara. Eu não vou lhe perder, não antes de acertamos as contas!

Desci a escada de dois em dois degraus. Senhor Hiro estava na porta do seu apartamento e vestindo um pijama salmão quando me viu.

-Garoto? – chamou alto para garantir que eu ouvisse. – Onde você está indo?
-Seu Hiro, eu…

Nem completei a frase. Ele apenas me leu, como já tinha feito outras vezes.

-Está maluco, rapaz? Isso foi uma explosão das grandes! Me fez pular da cama, mesmo sendo tão longe! Não vá arriscar sua vida de graça!

Eu poderia tentar responder, mas sei o resultado que tudo isso daria. Apenas engoli a seco enquanto me virei e saí correndo. Notei que gritava por mim, incessantemente, apesar de não ter ido atrás de mim.

Desculpa, seu Hiro. Quando voltar a gente acerta as contas.

Passei por várias pessoas na rua, muito mais gente por conta do que havia acontecido. Vários tinham saído de suas casas e tinham vestimentas parecidas com o síndico do meu prédio. Ninguém parecia ligar para a minha corrida noturna.

Falando nisso… como eu posso chegar lá? Se eu correr nesse ritmo, vou levar horas e ainda precisaria tomar vários desvios. O acesso à velha cidade não era a coisa mais fácil do mundo, especialmente por ter sido abandonada há tanto tempo. Usar meus poderes era quase uma questão de honra, mesmo que isso significasse menos estamina quando chegasse lá. De nada adiantaria economizar e só chegar quando fosse tarde demais.

Tentei medir o máximo que pude e o resultado dos últimos dias ajudou bastante. Agora que podia livremente variar entre água e gelo, resultava em um poder bem menos estressante e cansativo para obter o mesmo resultado. Era uma sensação incrível, em que me sentia absolutamente leve. Em qualquer outra ocasião, certamente ficaria maravilhado, diferente do preocupado que estava agora.

Já havia me afastado da civilização com uma rapidez incrível e escalar a montanha não foi tão difícil com os poderes. Não precisei mais do que meros minutos para finalmente alcançar o topo e esperava ainda estar em tempo. O silêncio depois da primeira explosão era mais preocupante do que reconfortante.

E… cheguei. Lá estava eu, cercado pelas ruínas que só tinha visto em livros e páginas da rede internacional. Me senti razoavelmente aliviado ao perceber que ainda tinha muita energia sobrando, só que… energia sobrando para o quê, exatamente?

O lugar era gigante. Não era à toa que tinha sido uma cidade inteira, afinal. Como vou encontrar alguém aqui? Bem, eu posso correr, como já estava fazendo e foi o que fiz.

Ainda haviam vários prédios em pé, todos condenados, mas no caminho o suficiente para que atrapalhasse em achar qualquer um por ali. Isso não era bom, começava a achar que me dediquei a algo exagerado. Havia mesmo alguém por ali? Foi mesmo uma explosão “natural” de algo velho e condenado, então?

Droga. Eu nem trouxe meu celular. É certeza que poderia usar o sistema de navegação para ver o quanto essa cidade abandonada era grande…

Espera, aquilo…

Sim! Definitivamente é uma pessoa! Não, são… duas, uma carregando outra. Estava longe, mas conseguia ver perfeitamente. O que isso significava? Deveria me aproximar de vez e anunciar que estava lá? Considerando que eu estava no meio do que poderia ser chamado antigamente aqui de rua, havia grandes chances que já tivessem me visto.

Usando meus poderes nos olhos, pude identificar perfeitamente quem eram e… eu conhecia os dois. Não havia motivo para me esconder. Corri com os poderes novamente, chegando em poucos instantes no lugar onde estavam.

Uma pessoa muito alta, provavelmente em torno de trinta centímetros maior do que eu, segurava Nara, desmaiada nos seus braços. Não consegui perceber os seus detalhes por conta da escuridão, mas já imaginava quais eram, especialmente por já ter visto em outras ocasiões. Seus olhos brilhavam com um bonito púrpura, demonstrando que usava o seu poder no momento. Sua camisa estava em farrapos e percebi várias marcas cicatrizadas de queimaduras. Foi ele quem Nara enfrentou. Boa parte da sua calça também não estava em melhores condições e até mesmo parte da roupa da garota do fogo estava estragada. Ainda vestia o mesmo que mais cedo.

Ele olhou para mim, inicialmente atônito quando identificou quem estava fitando. Logo em seguida, sorriu.

-Pedro Cardoso, presumo.

Sua voz era grave, até mais do que a da garota que estava segurando. Quem não o conhecia certamente poderia confundir como se fosse um narrador de rádio, o que não seria o meu caso. Tive uma leve surpresa ao perceber que, diferente de outra pessoa que conheci hoje, quase não tinha sotaque.

Mesmo com tal sorriso, muitas coisas estavam fora do lugar. Por que estavam lutando? Por que aqui? Hesitei em falar de volta com todas aquelas perguntas e que esperava que fossem respondidas.

Respirei fundo e apenas repliquei.

-David White.

Ele demonstrou grande satisfação em ser reconhecido.

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